Em Berlim, professor de natação mais idoso da Alemanha (100) da lição de vida muito além da borda da piscina

Em Berlim, professor de natação mais idoso da Alemanha (100) da lição de vida muito além da borda da piscina

Fátima Lacerda

21 Agosto 2017 | 05h38

Você e tão velho quanto se sente”, ensina um ditado popular alemão.

Leopold Kuchwale, vulgo Leo, segue, com disciplina prussiana o ensinamento do ditado popular.

O professor natação mais idoso da Alemanha (e provavelmente do mundo) nasceu em 18 de abril de 1917, no bairro de Charlottenburg. Seu pai era austríaco e trabalhava como cozinheiro em Berlim, onde se apaixonou por uma alemã. Leo, como carinhosamente chamado pelos colegas e alunos, tem filhos, mas não tem netos, diz gostar do “contato com a garotada jovem”.

O tabloide Bild titulou uma matéria sobre “Leo”: “O herói mais idoso de Berlim”.

Dieter & Dieter

Há dois anos sua esposa Hildegard, companheira de 78 anos, faleceu, depois passar os últimos dois anos de vida em uma Casa de Idosos. Ela sofria de reumatismo e demência. Leopoldo a visitava todos os dias.

Em entrevista a imprensa berlinense (no qual ele se tornou uma constante e bem-vinda pauta), ele comenta que depois da morte de Hildegard, havia perdido a motivação, teria questionado a vida. Foram seus amigos Dieter (69) & Dieter (79) que o “tiraram do buraco” e o convenceram voltar para a natação, afirmando: “As crianças precisam de você”. Em tom de autoironia Leopold acrescenta: “Eu só tenho esses dois (amigos). O resto todo já morreu”.

Em vídeo feito pela imprensa alemã, o simpático berlinense, quase sem graça, declara: “Hoje foi somente um aluno”, esse que terá se eternizado na “aula particular”. Mudando o timbre de voz, agora com um certo orgulho, Leopold, completa: “Mas geralmente são 12 crianças aqui(na piscina) explica, enquanto faz um apanhando visual pela piscina.

A equipe da Cruz Vermelha, do qual Leopold é membro há 33 anos, oferece aulas de natação no Centro de Saúde “Primavita” no bairro de Zehlendorf (sul da cidade) toma precauções de segurança. Enquanto o professor mais fofo de Berlim nada com a garotada e que segundo o próprio diz que “alguns da até pra colocar debaixo do braço, uma equipe de jovens professores de natação fica de olho na borda da piscina. O professor de natação mais idoso da Alemanha já sofreu um infarto do miocárdio e tem que tomar 6 comprimidos por dia.

O vídeo veiculado pela Cruz Vermelha Alemã (Deutsches Rotes Kreuz), além de instigar adultos e crianças em se inscreverem para o curso de natação, mostra também o foco de interesse midiático que o simpático Leo, se tornou.

Para entrar na piscina ele prefere não usar a escada. “É muito complicado”, explica.

Fora da água os ossos do simpático berlinenses de raízes eslavas não vão muito bem. Ele entra na piscina mergulhando. Primeiro a cabeça, depois o corpo magro junto com a pele marcada pela idade. Depois de atingir 1,40 cm de profundidade, ele volta a superfície, tira o cabelo branco dos olhos e ironiza para a repórter do jornal Berliner Kurier: “Entrar, você sempre consegue”. Os colegas à beira da piscina, se mostram aliviados.

Nadar é preciso!

Todas as quintas e sextas-feiras, Leopold sai de casa, toma dois ônibus para chegar à piscina do “Primavita”, que também oferece um arsenal de cursos para o equilíbrio da saúde física e mental. As vezes, sua filha o leva, conta ele.

Depois da morte de sua esposa Hildegard, ele continua morando sozinho, mas tem seu filho vizinho quase de porta.

A ternura, alinhava de uma autenticidade e simplicidade contagiantes, encanta as crianças, além de ter tornado “Leo” um herói berlinense e uma constante pauta da imprensa alemã. O exemplo de atividade social, engajamento na velhice adiantada (para dizer ao mínimo), mas também a postura digna, somado a um discurso pé no chão deve ser ainda mais lição para a garotada  do que “somente” aprender a nadar.