Em coletiva sobre a situação do país, Merkel fala em “Tarefa Histórica”

Fátima Lacerda

28 de julho de 2016 | 12h33

gLoWIN_20160728_130138Copyright:Fatima Lacerda

A maior parte das regiões da Alemanha já se encontra no período de férias escolares. As férias parlamentares ja estavam valendo na semana em que se teve que constatar  que o terror negou a Alemanha e que agora, não vemos nem a chanceler Angela Merkel e nem Frank-Walter Steinmeier declarar solidariedade com a França, Bélgica, Turquia. Agora e o presidente dos EUA, Barack Obama que assegura solidariedade com o governo alemão e ainda se compromete em “ajudar no que for preciso”. Até mesmo o Presidente francês, Hollande, que governa um país em guerra de convicções, premissas e crenças, sejam elas religiosas ou não, se tornou, excepcionalmente, aquele que mostra solidariedade.

Nesses dias de terror e entre a pergunta se o ataque X era motivado por um “soldado” que se deixou recrutar pelo chamado “Estado Islâmico” ou por alguém com problemas psiquiátricos agravados por um desespero da falta de perspectiva ou mesmo se um paciente de saúde debilitada entra na sala do quarto andar do hospital universitário e mata o médico que o tratou por mais de cimo anos. Para o subjetivo sentimentode segurança, esses “detalhes” acabam não fazendo diferença. O ataque a redação de Charlie Hebdo, o massacre no Bataclan e tantos outros estão muito presentes em nossa mente; suas imagens impregnadas na nossa retina.

Desde Würzburg

Desde o ataque no trem naquela noite de segunda-feira (18) houve uma mudança radical da situação e da perfeição de segurança no país e isso e motivo o suficente para que Merkel interrompa suas férias para uma coletiva de imprensa que por ironia do destino,  acontece quase 1 ano depois da coletiva histórica de 31.08. em que a chanceler declarou:”Nos topamos o desafio”, o famoso “Wir schaffen das!” frase que foi interpretada como um convite de refugiados sírios que, na sequência, chegaram em massa no país, gerando para Merkel a maior crise de sua carreira politica. Quando ela esta começando a se recuperar, voltar a aumentar o percentual de popularidade depois de “segurar” os refugiados na Turquia em acordo com o déspota Erdogan, o terror atinge a Alemanha e plano B se faz necessário. Para ontem.

Sorridente, mas concentrada e excelentemente preparada com um “Plano de 9 itens” Merkel deu coletiva de 90 minutos para a imprensa que lotou a sala de imprensa do prédio à beira do Rio Spree e a poucos passos da chancelaria federal.

Os 15 primeiros minutos foram sobre os atentados e surtos dos últimos dias no país (Würzburg, Munique, Reutlingen, Ansbach) .

Uma das perguntas mais pertinentes e ao mesmo tempo constrangedoras, feitas pelo correpondente polonês da TVPInfo , foi porque a falta da presença da chanceler nos locais do ataque. Muito serena e com a calma que só uma excelente preparacao possibilita, ela disse: “Eu estarei na cerimônia de luto no próximo semana em Munique e é sempre uma questão operativa a ser decididia” e acrescentou: “O Ministro do Interior esteve em presença física em Munique!”, assim o álibi.

Em seu pronunciamento de introdução a chanceler garantiu: “Vamos fazer de tudo para esclarecer esses atos bárbaros e para que os culpados sejam punidos. Na sequência iremos decidir sobre implementação de medidas extras”, declarou Merkel enquanto deixa uma porta aberta para medidas conservadoras e que podem cair bem num no preâmbulo das novas eleições em setembro de 2017.

Merkel falou sobre vários temas e mostrou uma serenidade, soberania e que ratificam que não há alternativa para o cargo de chefe de governo no país.

Ucrânia

Merkel foi perguntada se a posição do governo alemao concernente ao governo de Vladimir Putin ter anexado a Criméria, teria mudado. Em tom lacônico e quase en passant, Merkel disse: “Não”, mas com uma expressão facial que, ao mesmo tempo não deixa nenhuma dúvida sobre isso ao mesmo tempo que não queria entrar em maiores detalhes.

O desafio

Uma jornalista indagou se Merkel estaria passando pelo momento mais difícil de sua gestao. Uma ferrenha adepta da dialética do menos é mais, a chanceler relativizou: “Eu nao posso dizer. Veja, desde 2008 (crise financeira iniciada com a quebra dos Lehmann Brothers) nós temos tido vários desafios”, disse a chanceler botando panos quentes no, incontestavelmente, mais difícil desde quando assumiu em 2005.

Merkel se esquivou em rotular de “momento mais difícil”, mas confirmou com outras palavras: “Esse período nos coloca frente a desafios e declarou que, com os ataques de terrorismo “a nossa forma de viver está sendo questionada.

Sentimento de culpa

Repetidas vezes, a chanceler foi indagada se teria sido um erro abrir as fronteiras em setembro de 2015 com a sua “Cultura de Boas-Vindas”. Um jornalista foi bem mais longe e, sem medo de ser feliz, indagou:”O que ainda precisa acontecer para que a politica alemãe tome um outro rumo”, o que em entre linhas significa: Quando a Senhora irá, finalmente, renunciar? Um huuhhhh. Merkel continua irredutível em sua postura humanista e citou mais de uma vez o artigo número 1 da Constituição alemã: “A dignidade do ser humano é intocável”.

Sentimento de segurança

Entre os 10 pontos do plano de Merkel, um jornalista considerou “obsoleto” e questionou por que ela nao o teria concebido já há um ano atrás, a chanceler assegurou um “melhor trabalho conjunto entre os orgaos policiais de várias regiões do país” assim como com a Interpool, que está prestes à fundar uma central para decifrar mensagens enviadas pela Internet.

Tabus civilizatório estão sendo quebrados, e não importa se esses refugiados chegaram antes ou depois do dia 04 de setembro na Alemanha”, declarou. A chanceler também garantiu a criação de um catálogo que computa a entradas e saídas do país.

Uma pesquisa a ser realizada em conjunto por vários ministérios irá pesquisar o motivo de radicalização de jovens.

Parceiros

Elogiando a Turquia por ter acolhido 3 milhões de refugiados, perguntada sobre o grande número de africanos a fugirem para o continente europeu, Merkel declarou querer “intensificar a parceria com estados africanos” e falou claramente em dinheiro. “Com a Libéria não podemos fazer um acordo”, mas insinuou a Nigéria como factível parceiro na estratégia que ela denomina de “combater as causas de fuga”, o que, na maioria das vezes, assim como no acordo com a Turquia, se trata de divisas para manter os refugiados em seus próprios países.

Ratificando que está alinhavando a estratégia para diminuir o número de refugiados, Merkel anunciou um acordo com o Afeganistao para receber de volta os refugiados.

Estatuto dos Refugiados

Essa continua sendo a bíblia da filha do pastor evangélico-luterano e apostando no Estatuto dos Refugiados estipulado na Convenção de Genebra (1951), ao mesmo tempo que declara: “O refugiado que pratica crimes, extingue o status conquistado”.

Como antes…

Inúmeras vezes Merkel foi indagada pelos jornalistas se não teria “cometido erros” naquele setembro de 2015. “Eu não disse que seria fácil. Na época eu disse que seria uma questão nacional, hoje eu declaro que se trata de uma tarefa histórica”.