Em mensagem de Natal presidente ressalta a necessidade de apoio aos refugiados

Fátima Lacerda

25 de dezembro de 2014 | 18h58

 joachim-gauck-540x304.jpg© Michael Sohn/dpa

É tradição: Logo depois do noticiário oficial que termina as 20:15 hs horário local, é exibido, anualmente, o discurso do Presidente da República no primeiro dia da noite de Natal*, discurso esse que sempre tematiza o ano que está prestes a terminar.

Ousando mais do que o caráter de um cargo representativo e indo ao encontro das ânsias e expectativas dos alemães, Joachim Gauck, ex-pastor da Alemanha Oriental, fez um discurso ratificando a necessidade do diálogo e a de uma sociedade mais humana.

A Alemanha não é um oásis

A guerra na Síria, o conflito na Ucrânia, do Líbano, pessoas fugindo do terror do Estado Islâmico a chegada em massa de refugiados na costa da Ilha de Lampedusa, na Sicília, se espelham de inúmeras formas na Alemanha. O número de refugiados que procuram asilo no país colocam o país frente a um desafio igualmente logístico, judicial e político.

O movimento batizado de Patriotas Europeus contra a Islamização do Ocidente, PEGIDA, vem mobilizando um número cada vez maior de pessoas a irem às ruas para protestar.  Nas últimas 10 semanas, o movimento levou em média 15.000 pessoas às ruas da cidade de Dresden, localizada na região da Saxônia, leste do país.

Refugiados em Berlim

Nos bairros onde são alojados refugiados, como no bairro de Marzahn-Zellendorf, parte leste de Berlim, neonazistas, aposentados frustrados, eleitores “cansados do jogo sujo da política” sobre o manto de “cidadãos normais” intuem torpediar a estada segura de quem já fugiu de guerra, perdeu toda a família e se encontra em frente do nada. Tudo isso movido pela aversão a ao que é desconhecido.

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Nem mesmo o período natalino foi empecilho para os auto-batizados patriotas. A árvore de Natal postada na esquina do abrigo para refugiados foi destruída duas vezes. Na noite do dia 23 para o dia 24 os galhos da árvore foram cerrados. Os neonazistas também deixaram uma mensagem racista, que não foi divulgada na imprensa. O site do Facebook “Hellersdorf ajuda” (Hellersdorf hilft, em alemão) considerou o segundo ataque num intervalo de poucos dias “um claro ataque aos moradores que se mostram dispostos a ajudar e apoiar os refugiados”.

PEGIDA – Um adubo para a ignorância

Analistas políticos, religiosos, jornalistas se revezam em interpretações diversas sobre o que esse movimento, que faz vir à tona o medo que relembra o período mais escuro da recente história alemã. O questionamento é onipresente: O quão robusta é a democracia alemã de 65 anos? Será que a constituição oferece o alicerce suficiente para combater essas tendências? Perguntas, questionamentos e perplexidade política acomete o país nesses últimos meses. Nada mais propício do que o presidente tomar posicionamento e quando ele o faz, é sempre de forma clara ao mesmo tempo que sempre deixa a porta aberta para o diálogo, sua característica intrínseca e especificamente no discurso de natal desse ano, “por uma sociedade mais solidária, mais humana”.

Usando a frase do anjo que anunciou o nascimento de Jesus Cristo, Gauck, alertou:

“Não temam! Considerarmanifestações de medo, não significa segui-las. Guiados pelo medo não seremos capazes de encontrar soluções, mas nos tornaremos mesquinhos e fracos”. A mensagem Não temam deve também ser interpretada que devemos defender os nossos valores, confiar nos nossos esforços e na nossa democracia”, disse ele eboçando um sorriso.

A crítica ao movimento PEGIDA no discurso foi indireta. A assessoria de imprensa da presidência da República divulgou em nota que “um ataque direto ao movimento iria de encontro ao formato do discurso de Natal”.

O discurso do presidente tem o intuito de rever os fatos principais do ano.  Porém os alemães também esperam uma mensagem cristã. Gauck é um dos presidentes que melhor une todos os quesitos ao mesmo tempo que é claro, é sereno e longe de levantar o dedo moral.

A preocupação gerada pelo movimento anti-islâmico na Alemanha preocupa todos os setores da sociedade, especialmente porque os iniciadores desse movimento o procuram dar uma pincelada de “normalidade”, que se movimenta bem fora do espectro da ideologia marrom dos neonazistas. As inúmeras entrevistas feitas pela chamada “imprensa mentirosa” exibe a pilastra desse movimento: Inveja social, o ressentimento, o racismo contra tudo e todos que não é conhecido e uma perigosa dose de ignorância intelectual são os ingredientes que levam em média 15.000 pessoas às ruas.

Nao há um culto, uma missa um bispo ou cardeal que não mencione em sermão a necessidade de apoio aos refugiados. O argumento “O barco está cheio” está sendo contestado com determinacao por inúmeros setores da sociedade. Na missa de Natal de hoje (25) das duas principais igrejas alemães o apelo foi de apoio aos refugiados: O Bispo de Rotheburg, Fürst, pronunciou: “Quem nega ajuda a refugiados, trai os valores cristãos, os mesmos que eles juram querer proteger”. O representante da igreja luterana, declarou: “Refugiados tem um valor incomensurável perante Deus, mesmo antes de contribuir para o aumento do Produto Interno Bruto“, criticando assim o debate polêmico e indiferenciado que argumenta que os refugiados pediriam asilo por motivos econômicos. O diretor do Conselho das Igrejas Evangélicas na Alemanha, pleiteou de forma igualmente audaciosa e a curto prazo infactível:” A Europa cristã de hoje tem a incumbência de repensar e renovar a forma de lidar com os refugiados para que ninguém mais tenha que morrer afogado na costa do Mediterrâneo”.

O ex-chanceler (1998-2005) e socialdemocrata Gerhard Schröder pleiteou a “Revolução dos Decentes” para combater o movimento que vem se espalhando como pólvora pela Alemanha e que alcançou o ápice em oportunismo político quando convocou para a “Passeata de cantos natalinos” na cidade de Dresden. Como protesto e para não ter suas imagens divulgadas pelo mundo, a diretoria da Ópera de Dresden (Semperoper) apagou suas luzes durante toda a noite de segunda-feira (22).

Abaixo, uma pequena reportagem do noticiário de maior relevância do país, o Tagesschau (Espelho do dia) sobre o discurso do presidente incluindo imagens da passeata da última segunda-feira.

https://www.youtube.com/watch?v=gMPxwFy2AC8

 *A Alemanha celebra o Natal nos dias 25 e 26.

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