Em show da turnê “Corazon”, Carlos Santana paga mico ao zoar sobre o 7×1

Fátima Lacerda

07 de julho de 2015 | 11h41

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Muitos anos se passaram desde que Carlos Santana marcou presença em Berlim. Na noite de domingo (05), de um fim de semana que massacrou os berlinenses com um calor de 38 graus, o jejum musical de uma mistura apaixonante de pop caribenho um rock misturado com skat e reggae, deveria ter um fim. Assim a minha expectativa.

7000 mil espectadores estiveram na Arena Mercedes Benz.

Presenciei memoráveis shows de Santana no Festival de Jazz de Montreux, o último em 2004, quando ele recebeu “Carta Branca” do ex-diretor Claude Nobs para fazer o programa da “Noite da Paz” e convidou seu filho, que tem o nome de Salvador, para encrementar a “cozinha”.

Os incêndios musicais de “Carlos” mesmo que em intensidade diferente, nao sao privilégio de solos motreuxsianios. Em 2000, dentro de uma floresta na parte oriental de Berlim, Santana incendiou a plateia. Cris e Eu suamos como se estivéssemos em solos cariocas.

No show de domingo, Juanes foi encarregado de “esquentar” a plateia de faixa etária de 50 pra cima.

O intelectual com óculos fundo de garrafa na fileira na frente da minha, já bailava incessantemente ao som do Juanes. Um cara barbudo e com cara de mal tempo, sentado na diagonal reclamou, levantou, o xingou e ordenou: “Na hora do show você fica sentado!!!”. O intelectual olhou rapidamente pra trás, esticou as suas partes traseiras em direção ao adversário. Nesse momento, todos ao redor ficaram cientes daquilo que eu chamo de “potencial de estresse”. Isso em Berlim é muito comum. Pessoas aqui vão a shows e esquecem que se trata de um espaço público e não de sua tão amada sala de estar. Entretanto, os promotores locais levam grande parte da culpa desses conflitos por insistirem num ambiente preencido por cadeiras, não importando se é Paul Cartney, Pet Show Boys, Shakira, Carlos Santana ou Mark Knoffler, como na quarta-feira (08). 

Juarez balançou alguns poucos fãs. Houveram aplausos de gentileza. Imediatamente depois do término do show inicial , acumulam-se muitos funcionários no palco e, num ritmo alucinante de formigas humanas, trocavam os instrumentos por muitos, muitos amplificadores para a banda de Santana que trouxe 10 membros.

Um início fulminante

Pontualmente às 21:15 (horário local) Santana entra no palco vestindo um paletó azul, seu chapéu tradicional, uma guitarra que fez compõe uma unidade visceral com ele e o chiclete que o acompanharia durante as duas horas de show. Imagens do jovem Carlos no Festival de Woodstock enchiam o telão em cima do palco. Ao mesmo tempo, o hoje Santana de 67 anos manda vê, sem perdão e sem medo de ser feliz todo a dinâmica logo no início do show. Tanta pauleira e tanta diversidade estilística que não há como não suscitar a preocupação de “como esse cara vai manter esse pique até lá na frente”. “Maria Maria”, um super sucesso e que instiga até mesmo no mais arrítmico alemão, alguma coisa de tropical, foi logo a segunda música depois que Santana se dirigiu ao público e o fez da maneira mais infeliz possível.

 Santana e a incompatibilidade de trabalhar com cantoras

“Eu gosto de fazer as mulheres felizes” declarou o artista para a imprensa berlinense  em entrevista no Hotel de Rome, onde ficou hospedado. Também no Festival de Vina na Argentina em 2009, ele fez uma verdadeiro discurso em prol das mulheres. „Se as mulheres não estão felizes, nada da certo”, sugerindo que as mulhers são motor da humanidade.

Ratificando a tese de que santo de casa não faz milagre, a sua formação musical continua apostando no clube do Bolinha.

Em entrevista em Montreux o fatídico ano de 1998, cobrado muito pela imprensa internacional a falta de trabalhar com cantoras, ele anunciara um trabalho previsto com Parti Labelle, que como tantos outros anunciados anteriormente, não rolaram. Os dois cantores álibi de Santana são os mesmos há anos. Um afrodescendente com raízes caribenhas e um latino desenrolam o tapete vermelho para Santana e fazem os animadores do público.

Ao contrário do que percebeu uma colega da imprensa berlinense, afirmando que “Santana sempre ficou muito no background” eu discordo. Até nos textos, Carlos assegura sua presença. “Played by Carlos Santana” diz uma frase da canção “Maria Maria”, seguida de um solo de guitarra sinistro.

Danke schön” (Muito obrigada), iniciou Carlos o seu pequeno discurso que não poderia ter sido tido piores ingredientes: um oportunismo histórico, uma alfinetada futebolística referente ao 7 x 1 resultante, provavelmente, de uma síndrome de vira-lata. Em tom pseudo político correto, Santana se atropelou feio :”Há muito tempo atrás, o muro foi colocado abaixo e é um sentimento tão bom ter se livrado daquela merda estúpida“. Ovações. “Um muro que essencialmente simbolizava o medo. Pessoas como Bob Marley e John Lennon…Não foi o Ronald Reagan“. Vaias. “Ele disse que foi ele, mas não foi. Foram vocês e eu que dissemos…Nós queremos Liberdade“. Ovações. Queruuuuuudo, não foi nem você, nem eu, nem o Reagan, mas a queda do Muro de Berlim foi resultado dos movimentos políticos crescidos e desenvolvidos com muita dificuldade e inclusive com perigo de ficar atrás das grades e da política da Transparência iniciada pelo Mikahil Gorbachev!

Me preenche de tal alegria estar frente a vocês nesta noite. Bob Marley diria: Eu não vejo nenhum uniforme que obriguem vocês a ficarem sentados. Então, se você está a fim, vai em frente. Se queres levantar, bailar e se divertir, não hesite“. Essa foi, com toda a certeza o momento mais feliz do artista. Com isso, ele fez um favor aos que queriam dançar e tinham medo das represálias. Estava ali o aval “la de cima” para dançar sem medo de ser feliz.

Num outro momento, em voz tímida Santana mandou: “Eu quero parabenizar vocês pela vitória na Copa do Mundo. A Alemanha eliminou )“kicked off  Brazil”), que….não tinha o cacife, “Didn’t have… the stuff”, acrescentou enquanto virava os olhos.

Para quem é useira e vezeira em se colocar no mesmo patamar que John Lennon, Bob Marley, Miles Davis e John Coltrane incluindo até a exaustão o mantra “Love Supreme”, teria a obrigação de ter uma postura mais soberana. John Lennon deve ter dado cambalhotas no túmulo frente à tanto tiro no pé.

Recordar é viver…

Na anteriormente mencionada entrevista do músico em Montreux, perguntado por jornalistas sobre seus palpites para o Mundial, enfático, ele afirmou: “Eu sou mexicano, mas eu torço mesmo é pelo Brasil”. Tudo bem que há bastante tempo, torcer para o Brasil se tornou um ato de sofrência, um ato de grande teor masoquista. Mas a Copa é passado, os parabéns vieram tarde e nem mesmo causaram o über regozijo no público presente na Arena Mercedes Benz. Precisar diminuir quem já está no chão para angariar pontos com quem já está na ala dos vencedores mostra um ranco de síndrome de vira-lata, mesmo porque, a “coisa” é entre Alemanha e Brasil e se ele não torce mais para o Brasil, o que é totalmente entendível, perdeu a chance de sair elegante e caso estritamente necessário, parabenizar os alemães.

Menos!

Santana já ganhou vários Grammys e como mexicano almejou tudo o que se pode atingir nos EUA, um talento inquestionável, perdeu a chance de sair soberano e fazer una bella figura. Como se o discurso infeliz não tivesse bastado, os últimos 40 minutos ficaram devendo na concepção musical. Depois de muita pauleira, veio o “Momento Jazz” com sentidos infinitos solos de trompete e sax, quebrando de forma abrupta todo o nível alcançado antes. Uma cratera musical se fez er. Expectadores ficaram despercos. Alguns já deixavam a Arena. Um solo. Outro. Aplauso. Agora é a vez do “Momento Reflexão” do pianista, claro, viajando na maionese do Jazz. Ah, num intermezzo teve o “Momento Dobradinha” com Juanes com “La Flaca“. Lá vai o Juanes fazer os MC para o Santana se contentando com papel de coadjuvante.

Como se não bastasse tanto equívoco, depois do Bis com o obrigatório “Oye como va“, veio uma versão ao mesmo tempo curta terrível de “Roxane”, cantada pelo baixista do grupo. Depois do “Obrigatório Momento Jazz”, mais uma vez a tentativa de legitimidade, agora na área do Rock.

Santana trouxe Woodstock pra Berlim” assim diz uma das manchetes de um jornal alemão. Porém, para levar Woodstock para qualquer lugar é preciso bem mais do que retocadas imagens exibidas no telão, suscitando uma dobradinha entre nostalgia e continuidade na trilha do sucesso. Levar Woodstock para qualquer lugar é muito mais do que isso. No caso de Santana no domingo, teria bastado a música. A sua melhor linguagem.

Santana perdeu a chance de ficar calado

Depois do show, a minha primeira vontade foi ouvir “Maria Maria” bem alto e na versão oficial para tirar do ouvido toda aquela pauleira caótica da segunda parte do show. É comparável com depois de sair de uma festa muito chique, ter que passar numa padaria para comprar frango, arroz e farofa para que a fome seja realmente saciada.

 https://www.youtube.com/watch?v=Xoh39rhxDV4

https://www.youtube.com/watch?v=iJPOwchueIY