Em sinal de solidariedade, Portão de Brandemburgo brilha nas cores da bandeira da Bélgica

Fátima Lacerda

22 de março de 2016 | 18h47

No início da noite desta terça-feira (22), o símbolo mor da cidade de Berlim, mais uma vez, se mostrou solidário com cidades vítimas da barbaridade e frieza de ataques terroristas. Não faz muito tempo, logo depois do massacre em Paris naquele 13 de novembro, Berlim era toda Paris. Centenas de rosas e velas eram posicionadas em frente à embaixada francesa, ali mesmo na Praça Pariser Platz, onde fica o imponente e austero Portão de Brandemburgo.

Não “somente” os estragos, mas principalmente a frequência desses ataques acomete de um sentimento de impotência frente a eles. Especialmente quando lemos que as autoridades do governo francês fazem severas críticas e mostram ceticismo na habilidade do governo belga combater, com eficiência, os terroristas.

Poucos dias depois da prisão de um dos coautores do massacre em Paris, mais pessoas são aterrorizadas no centro do poder da UE, a mesma que vive a maior crise de valores desde a sua criação. Há tempos os acontecimentos vem mostrando que a Bélgica se tornou um reduto do que o jargão alemão chama de Schlaefer, como se denomina homens jovens, recém chegados de campos de treinamento no Afeganistão e que preparam meticulosamente a logística de atentados. Salah Abdeslam, era para ter morrido como homem-bomba no ataque de Paris, mas mudou de idéia em última hora. Foi preso, vivinho da silva, na última sexta-feira (18) no bairro que é um caldeirão social chamado Molenbeek-Saint-Jean, em plena capital Bruxelas!

Meu colega, Rog Savelberg, correspondente de vários jornais holandeses, entre eles, o De Telegraaf , e que, por muito tempo habitou nesse bairro, declarou à  N-TV alemã, que “polícia e impressa fecharam os olhos” para o perigo desse bairro.

E a Alemanha?

A proximidade da Bélgica para a cidade de Aachen, no noroeste da Alemanha, traz de volta, inevitavelmente, a questão do perigo de atentados na Alemanha e 3 dias de pautas midiáticas e programas de TV questionando exatamente isso .

Berlim vem tendo o fardo de se acostumar com essa cerimônias de luto, mesmo sem saber se o atentado de hoje é o primeiro de uma série, como foi o 07 de janeiro de 2015 em Paris, onde 2 dias antes eu me encontrava e onde acabara de passar um Revèillon com a cidade já em estado de alerta.

Cada Aeroporto…

“Cada aeroporto é um nome no papel”, diz uma música do Agenor, vulgo Cazuza. Depois do atentado as torres do World Trade Center, um aeroporto soma ainda mais valores do que os de, por vezes, dolorosos sentimentos de despedida e eufóricos momentos de chegada. Por mais que as revistas de Life Style queiram manquetear: o aeroporto, desde o check-in, até o momento de espera na sala de embarque, a ida para pegar o assento, a decolagem, toda a viagem até o avião parar por completo, significa uma tensão. Pensar que eu, por uma falha da Ibéria, eu fiquei 10 horas no Aeroporto Madrid-Barajas até poder pegar o avião para Berlim. O que pode acontecer em 10 horas dentro de um aeroporto. Nesses momentos de terrorismo, de convulsão política, de zica e dengue, me enche de gratidão nada disso ter acontecido comigo na longuíssima viagem de Berlim para o Rio e todo o tempo na cidade entregue à própria sorte e que só sobrevive pela beleza natural estonteante.

Pela situação precária de pessoal de segurança no aeroporto Madrid-Barajas, é um alívio que nada tenha acontecido.

Reações de políticos

Também se torna uma rotina o pronunciamento dos chefes do país. Heiko Maaß, o Ministro Alemão da Justiça publicou no seu Twitter: “Esse é um dia negro para a Europa. Esse crimes abomináveis atingem a todos nós. Estamos ao lado de Bruxelas e da Bélgica“.

Joachim Gauck, Presidente da República, que recentemente fez visita oficial a Bélgica, enviou uma carta de condolência ao Rei Phillippe, declarando: “Eu condeno totalmente o ato abominável que causou tantas vítimas. A Alemanha está junto da Bélgica. Juntos, iremos defender os valores europeus como democracia e liberdade“.

Angela Merkel se deixou representar pelo seu porta-voz, Steffan Seibert, que postou no seu Twitter: “Esse abomináveis atos nos faz ainda mais solidários com as vítimas e mais decididos na luta contra os terroristas“. Somente no início da noite, horário local, Merkel declarou: “Esses terroristas são inimigos dos valores do que simboliza a Europa hoje: Liberdade, Democracia e a convivência pacífica entre os cidadãos”. Que os países da UE já, no mais tardar depois da crise dos refugiados que teve seu ápice em agosto de 2015, a UE é tao heterogênea como água e azeite. Isso, Merkel não mencionou. Nessas horas seria suicídio, levar à baila o conflito que a UE atravessa. Nem é preciso “sair de casa”. O próprio parceiro de governo, Horst Seehofer é o primeiro a descordar de Merkel e exigir teimosamente, uma “relevante mudança de direção” na política dos refugiados.

Além de presidente francês, Hollande, também Willem-Alexander, Rei da Holanda, o Premiê britânico, David Cameron, assim como o braço direito de Angela Merkel, Peter Altmaier, coordenador da crise dos refugiados, se pronunciaram, em sua maioria, através das redes sociais.

A hora e a vez dos populistas de direita

Nem mesmo depois de uma hora de noticiado o ataque terrorista no aeroporto e no metrô de Bruxelas, a ex-parlamentar Vera Lengsfeld ex-membro dos Verdes e desde 1996, membro do CDU (partido de Merkel), destilou via conta do  Twitter o seu veneno em forma de cinismo sórdido e oportunista:

Abençoada seja Angela Merkel. A boazinha, a visionária. Ela fez tudo para que o terrorismo se espalhasse pela Europa e que os filhos desse terrorismo possam realizar a sua visão equivocada de mundo. Vamos celebrar Angela Merkel! Ela conseguiu!”.

Lengsfeld foi socializada na Alemanha Oriental e, outrora lutava de forma ferrenha pelos direitos dos cidadãos. Amargando no ostracismo, ela resolveu sair do armário para atacar a chanceler no momento menos propício e menos oportuno. Lengsfeld tem sido observada em formato de “flirte” com o movimento racista PEGIDA. O post de hoje da ex-política obteve um like do movimento que não pestaneja em aterrorizar refugiados, seguindo-os, monitorando-os ou mesmo incendiando seus abrigos.

O posicionamento de políticos depois de uma tragédia é de praxe. Porém os ataques terroristas vem sendo tao frequentes, que cada declaração de cada chefe de estado ou de governo está se tornando um business as usual, mesmo porque, alguma declaração tem que se fazer. O gosto amargo dessa dialética terrível pela qual passa a UE é o medo latente de qual cidade será a próxima vítima. Mesmo porque, é também nessas horas que os expertos de terrorismos vão a TV anunciar que: “Não existe 100% de segurança“, como se já nos tivessem preparando mentalmente para o pior e para não dizer que não avisou.

Os berlinenses, povo acostumado com guerra e revolução irá voltar ao “seu normal” na manhã de quarta-feira (23). Um normal que é a forma do menos que é mais que os berlinenses tem em lidar com tudo o que é conflito, com tudo o que é complicação e com tudo o que está fora dos eixos. A verdadeira normalidade em andar despreocupado, seja por Alexanderplatz ou nos vagões do metrô, já é coisa do passado e quem mora em Berlim, sabe muito bem disso.

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