Em votação sobre ajuda à Grécia, Merkel é supreendida por “desobediência partidária”

Fátima Lacerda

17 de julho de 2015 | 14h56

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O dia em que a Câmara baixa do Parlamento, o Reichstag em 117a seção votou sobre o pacote de ajuda financeira para  início de negociações com a Grécia será, de várias formas, memorável.

Os dias anteriores à votação

A mídia divulgou que chefes de bancada dos partidos da União, teriam que exigir disciplina partidária” na hora da votação. No partido de Merkel, o CDU, aumentava a cada dia a lista dos “Adeptos do Não”. Strobel, um parlamentar do partido de Merkel deu um tiro no pé quando no seu tuíte publicou:” Os gregos já encheram o saco o suficiente” e claro, depois da reação dos colegas, teve que pedir desculpas. Porém, uma vez lançado na Internet, o veneno é incontrolável e suas consequências, muito menos.

Manhã de sexta-feira

Ao chegar no prédio do parlamento e passar pela porta de acesso a imprensa e a parlamentares, ouvi um “Bom dia”. Quando me dei conta era Norbert Lammert, o presidente da Câmara, que solitário e acompanhado do seu celular adentrava o elevador. Sua feição de seriedade mostrava o que estaria em jogo nesse dia. Na frente do prédio, protestos contra a política de austeridade. Uma placa dizia: “A Constituição não está em condição”.

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Um dos primeiros a chegar foi o vice-chanceler Sigmar Gabriel e que durante muito tempo ficou entretido em sua papelada. Alguém trouxe um ramo de flores, o entregou, ele pensou em esconder debaixo da mesa, mas decidiu mesmo colocar na cadeira ao lado.

Aos poucos a bancada dos jornalistas também enchia e os fotógrafos tomavam, de forma inegável, o espaço físico na fila do gargarejo. Para quem seria as flores. Em tom de brincadeira, um jornalista lançou a tese de que seria “de agradecimento pelo feito de Merkel” no final de semana em Bruxelas.

Depois das bancadas todas preenchidas e os Ministros todos a postos, foi a vez da chanceler adentrar o plenário para se sentar na cadeira da ponta, a da primeira fila e para que não reste nenhuma dúvida de quem se trata, sua cadeira tem o encosto mais alto do que todas as outras. Merkel foi imediatamente cercada por colegas. Hoje é seu aniversário. Sorridente, com um blazer de cor caqui e também pelo corte, de péssima escolha, a chanceler recebeu as flores e somente alguns votos de parabéns. Ser um dos primeiros a cumprimentá-la contará pontos depois. Merkel não esquece nada. Nem o bom, nem o ruim. Todos sabem. Porém, Merkel não gosta de delongas, mesmo porque, não sabe lidar com elas. Logo logo ela, que seria a primeira a discursar, se dirigiu ao microfone, sorriu e quase nem deixou o presidente terminar os “votos de uma mão feliz para os desafios na Alemanha e na Europa”. Vamos ao que interessa.

Em discurso curto, presivível e ratificando sua retórica já conhecida, que para salvar a UE, vale tudo, Merkel inicia: “ A Europa precisa da capacidade de negociar, assim como o ser humano para respirar”. Gritos de protesto da bancada do partido esquerdista Die Linke não demoraram a ecoar. Merkel os ignora, faz vista grossa como faz sempre com aquilo que não lhe apetece.

Se não tivéssemos fechado esse acordo, seria o fim da União Jurídica que é a UE. A outra possibilidade seria não fazermos nada para ajudar a Grécia e ficarmos assistindo de camarote um país sucumbir no caos. Seria também o fim da UE como União de Responsabilidades. Não pode haver qualquer dúvida que o acordo fechado na madrugada de segunda-feira foi duro, não somente para a Alemanha, mas para os 18 países membros da zona do Euro”, justificou.

Nesse período de legislatura, com uma oposição mínima, composta do partido esquerdista Die Linke com uma bancada de 64 parlamentares e uma dos Verdes com uma de 63, Merkel tem tido jogo fácil quando se trata de votar medidas polêmicas, já que sempre podia estar certa do respaldo de seus aliados. E ai de quem não seguir a linha da chanceler!

“A Senhora está no caminho de destruir a ideia europeia”, acusou Gregor Gysi, chefe da bancada do partido esquerdista. “A Sra. tem fama de ser uma mulher forte, mas frente à estratégia do seu Ministro de Finanças, a Sr. se subordinou”, atestou Gysi.

A página do Facebook do programa de sátira política mais acirrada da Alemanha, alfinetou: “No dia de hoje, Merkel precisa de subordinados e capachos, que bom que existe o SPD” (partido socialdemocrata que governa em coalizão com o partido de Merkel).

Já o vice-chanceler Sigmar Gabriel mandou um discurso quase melancólico e oportunamente de toque humanista. “Não era “somente” a Grécia estava em jogo, era a Europa como um todo. Caso não tivesse havido um acordo, havíamos iminente perigo da casa cair”. Como se fosse possível, Gabriel declarou o debate em torno da saída da Grécia da zona do Euro (#Grexit), como encerrado. E é ai que mora o perigo. Enquanto Merkel quer manter a Grécia na zona do Euro, literalmente, custe o que custar, Wolfgang Schäuble, seu braço-direito e provavelmente o homem mais odiado da Europa, há tempos não somente considera, mas continua favorizando essa opção. Apesar de todos os elogios recíprocos nos discursos dos dois, hoje, essa diferença veio especialmente à tona.

Schäuble fez um discurso cheio de Pathos, com voz alta, rígida e como se fosse o último “salvador da causa Europa”.  Parecia um professor dando sermão na turma e usando de um ditado popular daqui, parecia que tinha comido a verdade com a colher. O Ministor não deixou nenhuma dúvida sobre sua intenção de criar um “Grêmio” para, nos próximos meses controlar, digo, vigiar se a Grécia está fazendo o trabalho de casa. “Precisamos ter uma Europa robusta para garantir a justiça social”, justificou, porém sem angariar firmeza, já que a segurança social não é a maior premissa de Schäuble, mas sim, a estabilidade da moeda.

Os Verdes optaram por abdicar do voto, alegando que o governo alemão chantageou a Grécia e que o acordo precisaria “de correções”. A chefe da bancada, Göhring-Eckerhardt, em discurso fraquíssimo em conteúdo, pleiteou um “Europa mais humana”, mas nao deixou de alfinetar os socialdemocratas: “A que ponto chegou esse partido!”.

O chefe da bancada dos socialdemocratas, por sua vez, foi taxativo além de estar bem mais preparado: “Essa é a sua forma de fazer política. Se esquivar quando a cobra está fumando”, alfineou Thomas Oppermann, que logo no início de seu discurso divulgou que a bancada iria votar pelo “Sim”, com exceção de dois parlamentares.

Não se trata de “oferecer uma ajuda a Grécia” , mas manter a umidade da UE” e mandou indiretas para o governo grego quando disse que “é preciso cumprir a palavra”.

Curiosidades merkelianas

Como já mencionei inúmeras vezes me referindo ao estilo merkeliano, a chanceler não é adepta de confrontações diretas, nem muito menos de barraco. É sempre solícita com os aliados e fazer o obrigatório com os adversários, mas quem pensa que Merkel não é dotada de uma boa dose de humor, se engana.

Durante o plenário, quando adversários tinham a palavra, exceto o chefe da bancada do partido Die Linke que possui uma retórica brilhante e não menos divertida, Merkel mostra o seu descaso de várias formas. Hoje, a sua “performance do ignorar” foi para Sarah Wagenknecht, um tipo que encorpora uma Rosa Luxemburgo moderna e vice-chefe do partido esquerdista. Sarah é muito bonita e, ao contráio de Merkel, muito feliz no escolher de seu guarda-roupa e uma convidada muito querida nos programas noturnos de política. Seu discurso “de um mundo regido pelos bancos e pelos credores” é autêntico. Sua forma emocional de discursar tem seus fãs e sua clientela ideológia. Hoje, no momento em que Sarah iniciou o discurso, anunciado no telão, para durar 6 minutos, Merkel levantou de sua cadeira e começou uma ronda de cumprimentos de vários colegas. O sorriso maroto da chanceler durante o seu “percuso” foi um fato de entretenimento por si só. Pode-se medir na duração dos cumprimentos e conversas, o quão chegado ou distante assim como o grau de simpatia e consideração por parte da chanceler.

Uma rasteira para Merkel 

A surpresa da votação de hoje foi o “recadinho” que membros do partido de Merkel enviaram para a chanceler.

O resultado final:

Da votação de ao todo 598 parlamentares,

439 membros do parlamento votaram a favor

119 contra

40 se abstiveram do voto

65 membros da bancada dos partidos irmãos CDU e CSU (Baviera) negaram seguir o curso de Merkel. 60 votaram “Não” e 5 abdicaram do voto.

A votação de hoje foi somente uma etapa no contexto da tragédia grega. Em 6 semanas, quando o parlamento se encontrar mais uma vez para avaliar o resultado das negociações, pode ser que a “desobediência partidária” seja ainda maior. Merkel não “suja as mãos” para convencer membros do próprio partido. Para isso tem os chefes de bancada. Esses sim, tem um grande trabalho pela frente. Talvez essa “desobediência” de hoje seja tenha inaugurado um caso de precedência.

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