Emigração, migração, refugiados: a UE tem o seu maior desafio

Fátima Lacerda

03 Setembro 2015 | 12h50

Um membro do alto-escalão do governo em Berlim se encontrou hoje com a imprensa internacional para responder perguntas sobre acontecimentos atuais.

Regularmente, membros do governo se encontram com jornalistas para os chamados “Hintergrundgespräche”, ou seja, informações em caráter não oficial e que só podem ser vinculadas sem a divulgação nominal da fonte.

Os principais temas foram, entre outros:

A crise político-financeira na Grécia

A situação na Síria

O empenho da Turquia que já recebeu 2 milhões de refugiados

As consultações no âmbito governamental entre Alemanha e Hungria

Grécia

A situação política da Grécia, com 3 eleições no período de somente 9 meses é preocupante. Há dias foi publicada uma pesquisa sobre intenção de votos e o partido do atual Premiê, Alexis Tsipras e seu partido Syriza, teriam que contar com “considerável” perda de votos. Ao invés dos 36,3% dos votos na ida às urnas do povo greco em janeiro passado, a intenção de votos para a ida às urnas no próximo dia 20 é somente de 25%, pouco atrás do paritdo Nea Dimokratia, com 25,3%, assim foi divulgado na noite de quarta-feira (02) pelo canal fechado de TV, Mega.

“A fronteira da Grécia é como um queijo suíço e isso está causando um imenso desafio para as comunidades das inúmeras ilhas”, criticou.

Síria

O plano do governo alemão é retrazer a Rússia para consultações e espera que os dois apoiadores mais fortes do regime de Assad, a Rússia e o Irã, joguem a toalha. Caso isso aconteça “em duas semanas Bashar Assad desaparece”, assim o prognóstico. Perguntado por mim, se há diálogos frequentes e concretos do governo da Alemanha com a oposição moderada da Síria, assim como exilados radicados na Françaa, dispostos em protagonizar o processo de redemocratização, ele botou panos quentes em quaisquer expectativas: “A própria oposição está dividida. Cada vez que participamos das consultações, há um chefe novo que acabou se de votado”, criticou. O suporte financeiro da “oposição moderada” vem de um Fundo, bancado pelo governo alemão juntamente com a Liga dos Estados Árabes com atualmente 22 membros e que tem como objetivo, a recuperação da infraestrutura urbana nas comunidades em regiões onde a oposição ainda tem o poder.

Turquia

O país foi elogiado pela “forma digna” que teria integrado os refugiados sírios no país. Ao mesmo tempo foi estimado no patamar de 2 milhões de refugiados que já foram acolhidos pela Turquia desde o início da guerra civil na Síria em 2011.

Rússia

Perguntado por mim sobre a viabilidade de um retorno da Rússia ao que o jargão midiático denomina de “sinteco político”, considerando a “afronta” a Putin por não ter sido convidado para a cúpula do G8 (encolhido para G7) na Alemamha e, de forma demonstrativa, logo depois ter realizado a “sua cúpula” com os Estados Brics e impressão de que, com seu plano da “Grande Rússia”, Putin se afasta cada vez mais da Europa, definida por Merkel como “Comunidade de valores”, a fonte respondeu: “No momento eu não acho isso factível, mas não podemos excluir essa possibilidade”. Discursos diplomáticos à parte: Putin só voltará a fazer parte do exclusivo clube de políticos, depois que a questão da Ucrânia tiver sido resolvida e todos sabem. A Europa está muito longe disso e desafios bem mais urgentes preenchem a pauta política e exigem muita flexibilidade dos países envolvidos.

Hungria

Em entrevista publicada hoje no jornal Suedeutsche Zeitung, o premiê húngaro, Orban Viktor foi taxativo enquanto se manteve fiel ao seu estilo de governo, não economizando polêmica e instigando polaridades: “O problema dos refugiados diz respeito à Alemanha”, disse o Premiê na manhã de quinta-feira em Bruxelas. Além disso, Orban defendeu a burocracia regente executada na chegada em massa dos refugiados que ficam dias na estação ferroviária de Budapeste, aguardando a possibilidade de embarcar. “Os refugiados só podem deixar a Hungria depois de terem sido registrados”, declarou ao mesmo tempo que criticou o governo Merkel “A Alemanha botou a mesa e convidou os sírios. Agora todo mundo recorre ao apelo de “Mamãe Merkel”, ironizou.

Perguntado por mim, a que ponto os governos da Alemanha e a Hungria mantém contanto em âmbito político (A Hungria fechou suas fronteiras com a Áustria) e no âmbito de ajuda logística. “Decerto os dois governos mantem estreito contato. Ontem mesmo (02), o embaixador da Hungria esteve aqui em Berlim. A ajuda logística acontece da seguinte maneira: “Fornecemos verbas a organizações internacionais para que comprem, cabanas, cobertores, água, comida, medicamentos, etc.” A cruz vermelha alemã (Deutsches Rotes Kreuz) tem um papel-chave nesse empreendimento.

Inglaterra

Também no caso dos refugiados, o governo de David Cameron mantém a sua lógica em se comportar como se não fizesse parte da UE. Cameron está longe de alcançar a ideia europeia, idealizada por Mitterrand, de Gaule, Helmut Kohl e Michael Gorbachev. A UE só é bem-vinda para o governo britânico, quando ele tira vantagens de ser membro. A menina dos olhos do governo da ilha é impedir, custe o que custar, mecanismos de controle em Londres como capital financeira. “Cameron é sempre muito voltado para a política interna”, disse a fonte do governo alemão hoje, frase que diz tudo sobre a impermeabilidade do governo britânico quando de trata de “mazelas” europeias.

Polônia

Exemplar para os países dos Bàlcaos, a Polônia não quer saber dos refugiados. No país, já vivem 1.400, provenientes da Ucrânia. O Premiê Donald Tusk não fez bons amigos quando, em tom agressivo na imprensa nos últimos dias, defendeu a posição pouco solidária e ingênua (para dizer ao mínimo) do seu país. Dando indiretas para a Polônia, Martin Schulz, o social-democrata, presidente do Parlamento Europeu, criticou severamente a atitude da Polônia como “puro egoismo”. Também a chanceler Merkel, em sua entrevista na segunda-feira (31) prognosticou o perigo do “fim da ideia europeia” se países relutantes em receberem refugiados, continuarem negando colaborar.

Perguntado se a Alemanha vive o maior momento de imigração desde a II Guerra Mundial, a fonte do governo negou. “A comparação com o êxodo resultante da II Guerra não é pertinente”, declarou.

Um erro de percepção mostrou a fonte quando falou da receptividade dos refugiados da Síria na cidade de Munique, onde seriam recebidos com apertos de mão, doces e até brinquedos. Parecia que a fonte não havia visto noticiários nos últimos 10 dias, quando em vários cantos do país, numa dinâmica aterrorizante, abrigos e prédios planejados para se tornarem abrigos, foram incendiados e isso por uma única razão: Xenofobia. Porém, dando a César o que é de César: depois do discurso de cunho humano numa dialética de “Yes, we can” da chanceler no início da semana, o clima de ódio no país deixou de ganhar força. Agora, o clima é de arregaçar as mangas e enfrentar o “Desafio Nacional”. Nas ruas de Berlim, a chegada dos refugiados já se mostra no cenário urbano. Famílias andando perdidas pelas ruas, procurando ruas ainda desconhecidas ou se unindo em lugares de grande conglomeração, como em Alexanderplatz e na City-West, perto do Jardim Zoológico. O início das aulas na última segunda-feira já colocou em prática o projeto de escolas que tem turmas mistas com refugiados de todas as partes do mundo, além de professores e assistentes sociais. A Katharina-Heinroth-Grundschule, de curso primário, no bairro de Schöneberg é uma delas com ao todo 3 turmas de “Turmas dando boas-vindas”. Em entrevista ao noticiário local de TV, no primeiro dia de aula, a professora alegou que, por um lado, as crianças se mostram aliviadas por estarem entre pessoas com destinos semelhantes, por outro lado, ela ratificou a necessidade de expandir o projeto oferecendo apoio psicológico “devido às situações traumáticas vividas pelos alunos”.