Então já é Natal?

Fátima Lacerda

28 de novembro de 2015 | 15h58

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Na quarta-feira (25) foi inaugurada, com muita pompa, a iluminação oficial da cidade de Berlim. A luz que decora as principais ruas da cidade, como a Alameda Unter den Linden e a Alameda com o nome (quase) impronunciável de Kurfuerstendamm foi acesa pelo prefeito da cidade, o socialdemocrata Michael Müller.

650 árvores decoradas, árvores de Natal e figuras natalinas serão até o dia 06 de janeiro o atrativo para berlinenses, turistas nacionais e internacionais, diariamente entre 16 horas e meia-noite. Mais de 50 quilômetros de cabos e 230 quilômetros de corrente de luz compoem a iluminação oficial.

Os custos

A empresa Wall AG, líder em propaganda e cartazes digital no cenário urbano e com um contigente de 1.062  empregados topou, pela 12 vez, patrocinar o feito natalino, o que decerto alivia o prefeito de ter que justificar perante aos berlinenses o uso de dinheiro público em tempos difíceis. A mídia fala de custos na altura de meio milhão de euros. O portal da empresa Wall AG não mede justificativas e declaraçoes de “como é importante para a filosofica corporativa”, protagonizar, bancando a iluminação de Natal, porém, em nenhum momento se fala em valores disponibilizados para o feito natalino.

Apesar da tragédia em Paris, da tensão na Bélgica, em Hanover e em Berlim, os cidadãos da capital não estão dispostos a abdicar das luzes natalinas e da metáfora de um “Mundo intacto”, o heile Welt que elas, as luzes, expressam. Coerente na dialética berlinense de que o menos é mais, o medo de ataques nos tão bem visitados Mercados de Natal é colocado debaixo do tapete, onde também de acordo com a dialética berlinense, todo o problema deveria estar.

Passear na Alameda de compras Kurfuerstendamm, em homenagem aos sangue azul da época do Império, passear pelas ruas de arquitetura fria de residências e escritórios concebidos pelo italiano Enzo Piano aos redores do centro de comércio de Potsdamer Platz ou na Alameda Unter den Linden, tudo isso faz parte do roteiro de Natal. Se o alemão pratica uma religião, ela se expressa na imbatível fidelidade em cumprir rituais, sendo o Natal, o ápice deles.

Mundana e ateia

Ao contrário de Varsóvia, Paris e Lisboa, Berlim é essencialmente ateia. Na melhor das hipóteses, protestante-luterana. Eu ainda ouso em afirmar que o maior número de ateus, daqueles que não acreditam mesmo em nem numa folha de papel, desembarcaram todos aqui, nessa cidade descrente de valores religiosos.

Berlim não se destaca por ser um solo religioso, mas sim e essencialmente um solo político. Ao invés da religião, a ex-capital da Prússia e hoje capital da República chega faz a diferença e se expressa da melhor forma na hora da solidariedade, da consciência social além de ser um solo possível para desacreditados provenientes de outras sociedades, imigrantes de dentro e fora do país, que teimam em se manter Alive & Kicking e desembarcam em Berlim porque ela ainda oferece inúmeras possibilidades plano de vida, seja no âmbito pessoal ou profisssional e de se viver sem um igualmente pueríl e desvairado consumismo.

Para algumas pessoas, as luzes de Natal serão o ápice do ano ou da projeção do desejo de um mundo intacto ou mesmo da ânsia totalmente entendível de um mundo mais pacífico. Para outras, a tacada de marqueteiro da Wall AG, em parceria com a prefeitura, será um desperdício do dinheiro publico, esse que poderia ter sido disponibilizado aos refugiados que, dia após dia, penam em filas homéricas no pátio das repartições à espera de uma senha, quesito administrativo obrigatório para terem seus pedidos de asilo registrados e, na sequência, obterem ajudas de moradia e assistência média. Para ainda outros, as luzes serão um bem-vindo Vale a Pena Ver de Novo.

Sob o teto do Sony Center, a salsicha Leberwurst será vendida por um valor absurdo. Os enamorados vão comprar o coraçãozinho feito de Lebkuchen com dizeres carinhosos ou divertidos. Outros tantos vão se espremer nas barracas de vinho quente ou entrar na fila de responsa para comer “crepe francês” recheado com Nutella.

O país da antecipação

Desde o inicio de setembro, ainda quando a temperatura beirava os 25 graus, as prateleiras dos supermercados já exibiam os quitutes de Natal. Estantes eram especialmente colocadas perto do caixa para instigar, de forma artificial, o espírito natalino e todas as associações feitas com ele.

O princípio é como o no anuncio do cigarro Hollywood, com barcos lindos, mulheres de cabelo ao leu. Quando o Benedito vai comprar o cigarro na esquina esburacada do bairro de Bangú na zona norte carioca depois de encarar 3 horas de trem de volta do trabalho, o feeling percebido e captado no anúncio vai leva-ló, sim, a curtir o cigarro. Assim é com a salsicha tipo Leberwurst, mesmo que o pão que a acompanha seja duro e frio e a vendedora seja antipática. Assim como também na fila de quem quer comprar o vinho quente, o Glühwein. Isso também é Berlim, seguindo as premissas de Frederico II, o Rei da Prússia, que defendia a tese de que: “Cada um deve ser feliz de sua maneira”. Em Berlim, isso ainda é possível: com ou sem luzes de Natal.