Entrevista com o baterista do Living Colour em Berlim esclarece, finalmente, a importância-chave do show no “Hollywood Rock” em 1992

Fátima Lacerda

19 de novembro de 2016 | 20h00

“Será que algum dia, eles vem ai, cantar as canções que a gente quer ouvir?” pergunta a canção de autoria de Ney Azambuja e Tavito, juntamente com a livre adaptação do filme de Woody Allen faz a dobradinha que me instigou em fazer essa entrevista o baterista da minha banda predileta. Tudo o que eu queria saber: o que afinal aconteceu naquele show do Living Colour no Hollywood Rock Edição 1992?

Inúmeras vezes já presenciei shows do Living Colours, o the “Comeback” em Montreux em 2001. O vocalista Corey Glover não conseguiu manter as lágrimas de emoção ao cantar naquela noite.

No Intermezzo presenciei várias performances do “Jungle Fever”, Trio formado pelo baixista Doug Wimbisch, o batera Will Calhoun e o cantor Vinx de Jon Parette. Também quando o “Trio Infernale” foi gravar em Berlim num estúdio num bairro bem escondido do sul da cidade, o Britz, num estúdio apartamento de terraço com o engenheiro de som alemão e trabalhando sem cessar, eu também estava presente.

Em julho passado, o Living Colour, que está permanentemente em turnê, fez um show memorável no legendário Franzz Club, no bairro de Prenzlauer Berg. Logo depois do show explosivo e que levou os fãs ao êxtase musical, muitos fãs de carteirinha (um tinha até um ingreso do show feito em 1989 na Berlim Ocidental) falavam com os músicos, entre eles, brasucas falando sobre o show dos shows: Living Colour na Praça da Apoteose em 1992 no Hollywood Rock. Já presenciei inúmeros banquetes musicais, em Montreux, Alemanha, França e Suíça, mas esse show falta na minha prateleira. O ingresso dele no passpartout pendurado em cima da minha escrivaninha. Fiquei ouvindo a conversa. Não. Aquilo tinha um discurso terapêutico. Para fã e musicista. Pra o paulista que vive em Berlim e para Will. Dali eu não consegui tirar esse tema da mente. Fui procurar tudo o que está disponível nas redes sobre aquele show, numa época em que a internet, como disse, certa vez, em momento crítico Angela Merkel era “Neuland” (terra nova, desconhecida).

O destino ou mesmo a agenda privilegiada dessa banda quis, que depois do show de julho que curtimos com também obcecados pela música, Kerstin e Detlev, queridos amigos da cidade de Essen, quis que ele, logo logo, voltassem a se apresentar Berlim. Desta vez, porém, seriam 3 bandas. O LC seria a segunda, antes do principal show, o do “Alter Bridge”.

Não é “só” no Brasil que quando você contacta a assessoria de imprensa do show do Roberto Carlos no Maraca, a coisa não anda pra frente. A mesma coisa quando você quer visitar o Projac e a assessora de imprensa da novela das 9 se faz de difícil e de um tudo para colocar empecilhos no teu caminho.

Em Nova Iorque, onde reside a equipe de assessoria e marketing responsável pelo diversificado trabalho de Will, não é tão dramático assim, mas o meu “projeto” de fazer essa entrevista exigiu uma enxuta dobradinha da insistência carioca e determinação prussiana juntada.

Entrada pelo pátio que daria no Backstage

O empresário de turnê, sem delongas, me entregou uma pulseira. Ao nosso redor, no terreno que dava para a entrada do Backstage eram só seguranças que não tinham caras de bons amigos. Sem mesmo antes de eu poder mostrar a minha pulseira e nem olhar pra eles, o empresário disse: “Ela está comigo” e o outro acatou sem balbuciar uma única sílaba. Eu havia quase esquecido como funciona esses bastidores musicais e suas hierarquias mil-folhas.

O show durou 45 minutos contados no relógio. Na música “Cult of Personality”, o recém-eleito presidente foi “homenageado”. “Essa música é para Donald Trump”, divulgou o vocalista com a voz de que está p. para dizer ao mínimo.

Depois do show, o empresário foi me buscar na Área Vip e me levou para a cozinha. Isso mesmo. Lá tinha um bufê, onde a salada de batata e a de macarrão não poderiam faltar. “Pega uma cerveja, ele já vem”. Desse já vem durou quase uma hora. Enquanto isso toda a galera do “Alter Bridge” passava pela cozinha para entrar no palco. Tudo parou ali. Depois, fui saber que essa é a banda do momento. A mim, porém, interessava a entrevista com Will que chegou acompanhado de amigos alemães, que não intencionalmente, aparecem nas imagens. Também involuntária foi a atuação de “pontas” das duas moçoilas do Catering. A espanhola de longa cabeleira negra curtiu o momento. A entrevista tinha que ser rápida, a noite já estava em hora avançada e eu não poderia arredar o pé dali sem saber o que há tanto tempo me torturava de curiosidade.

Sem rodeios. Na lata

Will é um cara sempre muito simpático e solícito. Quanto mais longamente dura a conversa com ele, e ela pode ser aquelas logo depois do show, com um monte de gente ao lado, ele é profundo, gosta dos detalhes, assim como por vezes, conta “demais” sem que você tenha tempo de reagir. A banda de Hard Hip Pop foi um dos inúmeros projetos no qual Will participou, também paralelamente à agenda de LC. Mos Def fazia um dos melhores Hip Hops que já conheci. Quando Will falou da morte, por suicídio, de um dos músicos do Mos Def :”Nós nos perdemos” teve tempo de mostrar tristeza nos olhos num salao cheio de gente e de um burburinho eletrizante. Will tem uma casca de brincalhão, descolado, mas é de uma gentileza absurda, é honesto, profundo e infinitamente profissional. Pois bem. A entrevista iniciaria. Combinei de fazer as perguntas respectivamente em inglês e em português, e ele responderia em inglês. As respostas não teriam tradução. A conversa tomou uma dinâmica que a tradução para o português só aconteceu na primeira pergunta. Deixei o filme rolar: Hollywood Rock. Sim. De fato. Aquele show foi histórico para a banda. Foi histórico para Will e ficaráimpregnado para sempre nos fãs brasucas que são obcecados por essa banda.

Contrariando a linguagem do Blog, postarei a entrevista na íntegra aqui mesmo corpo do texto. Will declara, em detalhes, o caráter especialíssimo da primeira apresentação no Brasil, país que a banda já estava louca para conhecer.

O show na Apoteose teve Doug Wimbish pela primeira vez como baixista na banda, que ousava mudanças. “Conhecíamos o Doug como amigo, mas não sabíamos como seria tocar com ele”.

A entrevista acaba de tornado um diário de viagem quando Will revive todo aquela convulsão pessoal, profissional, musical. Vale lembrar, que em 1992, o Brasil ainda estava longe de fazer parte da rota de turnês de artistas internacionais, com a naturalidade que se tornou depois. Na sequência o Brasil virou um Global Player e o processo de Globalização relativizou distâncias e expressores culturais.

Perguntei se ele tem medo do que pode vir na gestão de Donald Trump. Com um “No” quase de teimosia, ele fala do sofrimento de seus pais e avós num EUA muito diferente do que temos hoje, apesar de Trump.

Antes de terminar a entrevista Will fez questão de enfatizar o lançamento do primeiro álbum de estúdio em 7 anos. “Shade” está agendado para o início de 2017. Para aumentar ainda mais a vontade, a banda lançou, em setembro passado, um Mixtape da música “Who Shot Ya?“. A música que tem uma levada bem mais Rock digerível e bem menos Hip Hop é um protesto à permissão do porte de armas de fogo que resulta numa taxa de criminalidade cada dia maior, especialmente, com os afrodescendentes.

O número de pessoas que morre diariamente por causa da violência através de armas é inaceitável numa sociedade civilizada. A desproporção de uso da força mortal em comunidades habitadas por negros é também inaceitável”. A ideia é instigar e incentivar relevantes vozes do Hip Hop adicionarem essa música aos seus repertórios“, informa um nota da banda à imprensa.

A nota política está sempre nas canções de LC. Em show recente no Columbiahalle em Berlim, os fas e também a banda ainda sob o efeito do choque da vitória de “Bozo” tiverem um presente especial do LC. “This is the Trump Song”, anunciou Glover.

As próximas estações da turnê da banda são:

Segunda, 21.11. Copenhague, Dinamarca

Quarta-feira, 23.11. Tilburg, Holanda

Quinta-feira, 24.11. no templo de cultura da capital holandesa, o Melweg.

A entrevista, em inglês e na íntegra, você confere aqui:

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.