Equipe do Wolfsburg escreve história no futebol alemão

Fátima Lacerda

31 de maio de 2015 | 09h26

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A poeira amarela espalhada pela torcida do Borussia nem tinha sido dissolvida no ar, a equipe do Dortmund passeou pelo campo do adversário como quem vai tomar o trem e pah! Gooooooollll! Imediato silencio da torcida do Wolfsburg que fez uma linda apresentação com uma faixa gigante que dizia “A hora é essa”, se referindo ao fato do clube, em toda a sua historia, nunca ter tido levado a  Taça da Federação Alemã de Futebol, DFB.

Depois do 1 X 0 pelo Borussia, o time da Volskwagen ou “Golfistas”, como zoados pelas adversários em alusão aos executivos da Volkswagen, não se deixou impressionar e manteve o ritmo e do seu ataque que chegou a ser fulminante. Ligereza e astúcia os “Lobos” tinham de sobra. Assim, depois de 1995  ter saido derrotado da final, o Wolfsburg adentrou o Olimpo dos vencedores da “Pokal”.

Ao contrário de durante a Copa do Mundo no Brasil, quando era motivo de memes nas redes sociais, sempre que o mais cegos dos treinadores (LFS) teimava em escalá-lo, Luis Gustavo se mostrou irreconhecível na partida no Estádio Olímpico. Rápido, perigoso e um bailarino na hora de se esquivar do duelo homem a homem.

O ataque indeciso do Borussia, os chutes fracos para o gol foram defeitos fatais na equipe. Depois que Marco Reus, na frente do gol no décimo oitavo minuto, perdeu a chance de colocar um 2 no placar do Borussia, o porte da equipe dentro o campo, desmanchou como gelatina.

Depois do jogo, no trem de volta para o centro da cidade, nos restaurantes recheados de torcedores do Borussia, o assunto principal era a “oportunidade perdida por Reus” que queria a taça como presente de aniversário de 26 anos a ser comemorado no domingo (31), que acabou sendo comemorado na “festa de despedida” da equipe no clube noturno Kraftwerk.

A formação sempre blitz da defesa do Wolfsburg tornou quase impossível um ataque a  ser finalizado com o gol. Tentativas não faltaram. Entretanto, todas caiam direto nos pés do Naldo, que se apresentou em excelente forma numa mistura entre eficiência estratégica e serenidade. Um verdadeiro porto seguro.

Dejá vù

A dinâmica insana dos acontecimentos, no gol de empate do Wolfsburg me lembrou da tragédia do 7×1. O silêncio na tribuna dos jornalistas, os olhares de tristeza e de consternação ficavam cada vez mais frequentes. Até os funcionários de segurança se abalaram com uma situação que, da perspectiva dortmundiana, parecia, no adiantado do segundo tempo, irrevogável.

A tentativa de gol de Reus teve grande impacto estratágico no jogo. Depois disso, o Wolfsburg acordou no jogo e entendeu que era a sua hora de tirar vantagem da fraqueza mental do adversário. Além do mais: o goleiro que pegava até poeira.

O fim de uma era

Seria muito fácil que o último jogo sob o comando de Jürgen Klopp tivesse vitória do clube para fazer menos amarga a sua despedida depois de uma atuação de 7 anos no clube.

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Na coletiva de imprensa, depois do jogo, Klopp foi curto e grosso. Apesar de, ao contrário de sempre, ter se mostrado sereno durante o jogo à beira do campo, depois da derrota, tanto na entrevista à TV nacional quanto na coletiva de imprensa, o técnico estava visivelmente abalado.

(10:40 – 13:20) você ouve a minha pergunta.

Na entrevista à TV, com um repórter que é um dos mais frios e mais monótonos da Alemanha e que leva à baila a pergunta que alguém tão sem sensibilidade pode durante tanto tempo pode permanecer chefe do setor esportivo. Depois de perguntas pueris, ele mandou: “Agora vamos passar para outro assunto”. Sem saber onde o jornalista realmente queria chegar, Klopp explodiu. Com a autenticidade de sempre, ele reclamou do discurso über pragmático do jornalista. “Eu preciso de muito mais tempo para entender essa derrota, para digeri-la. Além disso, não pense que alguém acredita que o senhor nos próximos 5 minutos tenta compaixão com o nosso time”. Nao é preciso dominar o alemao para constatar o constrangimento causado pelo jornalista que teve a coragem de perguntá-lo: “Como o Sr. se sente?”.

http://www.ardmediathek.de/tv/Sportschau-live/J%C3%BCrgen-Klopp-verabschiedet-sich/Das-Erste/Video?documentId=28598638&bcastId=723230

Ainda consternada pela surpresa frente à letargia da equipe do Dortmund, me lembrei da tragédia do 7X1. Do mesmo modo que na época eu pensei como o Felipão se dirigiria aos jogadores no vestiário durante os 15 minutos entre o primeiro e o segundo tempo para tentar reverter a tragédia, assim foi no jogo de ontem. Entre os jornalistas comentávamos que, para reverter a situação, o Borussia teria que iniciar o segundo tempo atacando o Wolfsburg, o que acabou nao acontecendo. Na coletiva depois do jogo, perguntei a Klopp o que ele falou com a equipe no intervalo dos 15 minutos. Em voz baixa e comedida ele disse: “Eu afirmei a eles que não tinha nenhuma dúvida de que poderíamos reverter essa situação”. A dramaturgia da noite de sábado, mostra que foi a hora certa de terminar a “Era Klopp”. A simbiose entre jogadores e técnico se desgastou, apesar de toda a simpatia recíproca no âmbito pessoal.

Discurso de despedida de Jürgen Klopp na festa do clube:

http://www.bild.de/sport/fussball/juergen-klopp/die-bewegende-abschiedsrede-im-video-41165436.bild.html

Quando chegamos aqui não sabíamos como seria, mas ai eu pensei. Krak, esse estádio é duca, aqui podemos trabalhar”, arrancando risos da plateia. Não é importante o que dizem de você quando você chega, mas quando você sai”, disse antes de agradecer nominalmente toda a direção e a equipe do clube.

 Chegada dos torcedores de trem à estação “Estádio Olímpico”.

https://www.youtube.com/watch?v=nPeTNBRf1t8

Apresentação das duas equipes:

https://www.youtube.com/watch?v=V1a5JrqvqJw

João, meu amigo vascaíno que, no preâmbulo da partida em Berlim, tentou me subornar oferecendo dois ingressos para o Final da Taça Guanabara no Maraca, por um lugarzinho no Estádio Olímpico. Mesmo que o jogo no Maraca não tivesse o campeão “sacramentado” mesmo antes de entrar no campo, eu não teria trocado por nada. Ver o Borussia jogado ao vivo, foi o realizar de um sonho de 3 anos. O mesmo João me escreveu depois do jogo no Whats App informando: “A TV daqui só fala do Klopp, parece que ele ganhou o jogo!”. De fato, o Borussia saiu derrotado da partida da Final em Berlim, mas o clube teve o privilégio (que Klopp garante ser recíproco) de um lindo trabalho, recheado de ética, ousadia nas contratações e paixão ao jogar. O resultado disso foi o respeito das equipes mais inimigas e dos jornalistas mais exigentes.

Na despedida durante a festa depois do jogo, Klopp garantiu: “A gente se vê de novo”, ratificando um ditado em alemão que diz: “Na vida a gente se encontra sempre duas vezes”