Espionagem NSA/BND tipo toma lá da cá: agora a crise chegou a Merkel

Fátima Lacerda

07 de maio de 2015 | 17h26

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Em 2013, o caso NSA causou um terremoto na classe política alemã e mudou os paradigmas sobre segurança de dados e espionagem entre países aliados. O governo Merkel tentou, como de costume, botar panos quentes até que foi descoberto que o celular da mulher mais poderosa do mundo, havia sido grampeado pela NSA durante anos com protocolos detalhados de todos os telefonemas.

“Quando eu quero falar com Angela Merkel eu ligo pra ela”, declarou o presidente Barack Obama em sua visita a Berlim, já programada com antecedência, mas que caiu no meio do estouro do Caso Snowden que provou que os EUA estão se armando para a guerra digital.

Somente quando se viu pessoalmente vítima daquilo que 80 milhões de alemães haviam sido anteriormente, Merkel, para seus parâmetros neutros, invisíveis e antideológicos, opinou: “Espionar amigos é algo inaceitável“, declarou à imprensa para alemão ver. No quartinho dos fundos (como diz um ditado popular), Merkel continuou aceitando todas as falcatruas do governo americano.

Há uma semana atrás vazou na mídia que o Serviço de Inteligência Alemão (BND) auxiliou a NSA no trâmite de espionagem industrial e de políticos europeus. A BND rastreou Números de IP e palavras de busca e repassou para os americanos. Pressionada pela minúscula oposição existente durante esse governo, a revelar o conteúdo da tão famigerada lista rastreada pela BND, Merkel joga a batata quente para os EUA e fala em “processo de consulta” o que na prática significa, enquanto os americanos não se pronunciarem, Merkel vai ficar fazendo cera. O portal Spiegel Online conta com uma resposta dos americanos até o fim desta semana, ao mesmo tempo em que estão certos que não autorizarao a divulgação da lista.

A discussão, que há dias vem ocupando todas as instâncias do governo da democracia parlamentar, vem arrebatando aliados e adversários da chanceler. Enquanto o CDU, partido de Merkel, tenta arrastar tudo para debaixo do tapete, o Vice-chanceler e ao mesmo tempo Ministro da Economia, o socialdemocrata Sigmar Gabriel, pressionou publicamente a chanceler, atestando que o parlamento “precisa tomar conhecimento dessa lista”. Gabriel, por sua vez, que aliviar a pressão do setor econômico, que está em pânico. Entre as empresas espionadas estaria a Airbus.

A pitada de desobediência de Gabriel causou imenso desconforto a Merkel. Nas manhãs de terças-feiras, tradicionalmente, os dois tem reunião bem cedo na chancelaria federal para consultações e troca de informações de como andam os trâmites do governo. Nesta terça-feira (05) porém, fontes afirmam que a cobra fumou. A imprensa amarela, fã de carteirinha da chanceler, já começou endemoniar o socialdemocrata. O conhecimento empírico nos fez aprender que Merkel pode até perdoar por questões estratégicas, já que o que menos ela agora precisa é uma crise de governo, mas sabemos que ela nunca esquece algo parecido com deslealdade. Lá na frente, Gabriel terá o troco.

Pacote espionagem

Sasha Lobo, colunista do Portal Spiegel Online e crítico cibernético publicou um artigo como se fosse a chanceler se dirigindo a nação. O título “Declaração honesta de governo” ironiza:

Querido Povo,

É verdade. Nesse momento, nós todos estamos sendo espionados por países amigos. Esse acordo atende pelo nome de “5 olhos”. A BND, de minha responsabilidade é figura-chave, sabendo que, sim, há espionagem industrial. In países como os EUA, Inglaterra e Franca, espionagem industrial faz parte dos afazeres dos respectivos serviços secretos”.

Crise chegou a Merkel

Numa enquete requerida pelo tabloide Bild e efetuada pelo instituto Insa constata que 62% dos alemães acreditam o escândalo BND/NSA irá prejudicar a chanceler. 18% acreditam que não.

Formato midiático

Na mídia alemã, o posicionamento de Merkel sempre que a cobra está fumando é se fazer “invisível” e enviar seus porta-vozes com informações cosméticas, ficarem enrolando a imprensa até a poeira baixar. Em casos de escândalos e polêmicas de pequeno e médio portes, numa janela temporária de no máximo 3 dias, a mídia sucumbe à indiferença da chanceler, que ignora, sistematicamente, todos os apelos de tomar um posicionamento, dar o famoso soco na mesa. Para essa postura, otimizada até a excelência com que é efetuada hoje, Merkel teve o melhor professor: Helmut Kohl. O aprendizado daquela que teve como tutor o “Eterno chanceler” (que governou a Alemanha por 16 anos) não para por aí. A igualmente teimosa e questionável fidelidade vão longe. A fidelidade imbatível de Merkel com os EUA é a mesma que fez Kohl não divulgar os nomes dos doadores. As duas posturas são colocadas acima da constituição.

O caso Elf – Aquitaine – Caixa 2

No caso que balançou o país em 1999, quando estirou o escândalo sobre a caixa 2, meticulosamente administrada pelo tesoureiro do partido CDU, Helmut Kohl foi pressionado pela CPI, pela mídia e até por companheiros de partido a divulgar o nome dos doares. Com isso, seria mais fácil para o Ministério Público, a justiça teria argumentos mais robustos para levar Kohl aos tribunais, já que teria como comparar o período das doações com as medidas votadas pelo parlamento na mesma época e eventualmente acusá-lo de corrupção.

Aliança inabalável com os EUA

Poucas semanas depois do início da Guerra do Iraque em 2003, Merkel, na época chefe da oposição no parlamento, viajou para Washington para ratificar seu apoio aos EUA.

Crescida e socializada no regime da ex-RDA, Merkel tem a “Parceira transatlântica” como sua bíblia de cabeceira. Uma convicção inabalável. Até mesmo agora, que vazou na imprensa que tudo aquilo que Snowden divulgou há 2 anos atrás, não “somente” procede, mas é apenas o ápice de um grande iceberg.

Os franceses e a espionagem

A reação na mídia francesa é bem mais amena do que na Alemanha. Culturalmente, espionagem é algo corriqueiro no país. Além disso, depois do massacre de Paris no início do ano, todos os meios valem para “combater o terrorismo” ainda mais quando se trata de um governo sem líder como o de F. Hollande. Ai que os setores do serviço secreto tem Carte Blanche. A recém-declaração do Tribunal de que o grampeado do celular do ex-presidente Nicolas Sarkozy foi legítima, é um dos inúmeros exemplos.

Em pronunciamento a imprensa na quarta-feira (06) Merkel discursou morno sobre sua convicção de que tudo está sendo feito para evitar o terrorismo e entre linhas, justificou tudo o que está acontecendo.

O diferencial desta crise

Até agora, com dez anos no governo, as crises raramente chegavam à chancelaria federal. Quando chegavam, era na antessala, lá onde fica o bode expiatório, o garoto mandado de todo o chefe de estado. O cargo “Ministro de Chancelaria” tem o dever delegar ao mesmo tempo que informar a chanceler sobre tudo.

Na época em questão na crise de agora, esse “garoto mandado” era o atual Ministro do Interior, Thomas de Maziere. Por onde ele passou e por quais cargos ocupou ele deixou “cadáveres no porão” como diz um ditado por aqui. Um Ministro ao qual não falta arrogância e nem autoestima, de um tipo de só quem ocupa cargos de governo de alto escalão conseguem manter. Em depoimento a CPI, na quarta-feira (06) ele dissimulou e quando se pronunciou a imprensa, disse com o peito estufado: “Todas as críticas (de ter sabido da espionagem na época) a minha pessoa são infundadas”, tentando salvar seu cargo.

Mesmo que no fim das contas não se consiga detectar quem espionou quem, quando, porque e quem tinha conhecimento disso, fato é que esse escândalo, mais do que todos os outros anteriormente mencionados, fez a crise chegar até Merkel. Agora, é esperar como ela vai descascar esse abacaxi. A aura daquela que resolve qualquer crise exatamente pela falta de qualquer ideologia e que é mestra em forcas tarefa quando a cobra está fumando no velho continente, nao vai colar dessa vez.

Agora os problemas de Merkel são de fabricados em casa.

 


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