“Eu não queria chorar” diz Dede em jogo de despedida no estádio do Borussia

Fátima Lacerda

06 Setembro 2015 | 09h56

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Foi em 1998 que Leonardo de Deus Santos, vulgo Dede, vestiu pela primeira vez a camisa das cores amarelo e preto. Vindo do Atlético Mineiro, ele já chegou beijando a camisa do Borussia como se tivesse adivinhado que se tornaria o Darling da torcida. Mesmo 4 anos depois da sua despedida do clube, ele não foi esquecido e, mesmo que de forma indireta, continua ligado ao clube. No sábado (05), seu clube de coração o presenteou com o jogo de despedida no “melhor estádio da Europa”, o Signal Iduna Park (Ex-Westfallenstadion) que registrou a lotação de 81.359 espectadores para homenagear “O Mito Dede” em “Um dia para a eternindade”.

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A performance futebolística do brasuca não foi excepcional: foram 12 gols em 321 partidas pela Bundesliga. Os 13 anos foram coroados com a conquista de campeonatos alemães. Dede participou da disputa pela taça da Federação Alemã de Futebol (DFB) e da final da Copa da UEFA. Talvez o seu feito mais representativo e, decerto, inesquecível na história do clube, foi em 2002 juntamente com o compatriota Ewerthon no jogo contra a equipe do Werder Bremen. O placar era de 1 x 1 (o primeiro gol do atacante Jan Koller). Aí vai Dede, sem pestanejar, passa a bola pro Ewerthon que acabara de completar um minuto no campo, faz no melhor estilo futebol-arte o gol nos 74 minutos que no final jogo, sacramentou o BVB campeão da Bundesliga. O estádio “explodiu”!

https://www.youtube.com/watch?v=sjfm_LhZT4M

Em 2011, ele foi comunicado pelo então recém-iniciado diretor esportivo Michael Zorck, que devido à várias lesões, o clube não contaria com ele na temporada seguinte. Dede partiu pra Turquia, onde terminou sua carreira em 2014. Hoje, atua como ex-treinador no clube Eskişehirspor com Michael Skibbe, ex-co-treinador da seleção alemã na época de Jürgen Klinsmann. Porém, o que fez de Dede um fenômeno na torcida foi seu imenso teor de identificação com o clube, sua postura humilde, autêntica e honesta. Ele não cansava de elogiar aspectos da cultura alemã como pontualidade, firmeza nas declarações: “No Brasil você marca às 2 e o cara chega às 3”, disse certa vez em entrevista e garantiu: “Quando eu tiver filhos, eu vou voltar para a Alemanha para que eles aprendam esses valores”. Todas essas características, além da fidelidade imbatível ao clube e a emocionalidade, algo bem mais frequente na região da Westfália (Westfalen), grande polo de imigração de países eslavos na época em que a região tinha suas principais atividades econômicas nas áreas de mineração de carvão, fundição de ferro e agricultura. A emocionalidade e a ternura do mineiro caiu como uma luva na cultura da região e conquistou, para todo o sempre, a torcida do clube dos clubes.

Decerto um dos momentos mais inesquecíveis de Dede no Borussia, será a temporada de 2000, quando o clube, na lanterna da tabela e com o perigo de cair, contratou a lenda entre os técnicos: Udo Lattek (ex-Bayern de Munique, Borussia Mönchengladbach, FC Barcelona) para salvar o time e, ratificando o mito em volta do treinador, o Borussia se tornou campeão em 2000. As imagens de Dede junto com o também brasuca Evanilson abraçando do treinador na comemoração, não tem preço.

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Dede 17

Jogando com a camisa 17 no jogo que iniciou as 17:30 (horário local) e foi transmitido ao vivo pelo canal Sport1, Dede escalou dois times: A seleção nacional e a internacional.

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A nacional reunia um monte de companheiros brasucas: entre eles, Marcio Amoroso, que se eternizou no Borussia com a camisa 22 numa época em que o Brasil ainda não tinha descoberto o Pré-Sal, ainda não havia se tornado uma potência econômica e por isso, era não somente atrativo mas impreterível para jogadores brasileiros, atuarem no exterior. Ironicamente, no jogo de sábado, além de Amoroso, outros jogadores usavam a camisa 22 (veja na tabela de escalação). Paulo Sérgio (ex-Bayern de Munique), Ewerthon (ex-Borrusia), que se eternizou no Borussia por motivos mencionados acima. No campo, os dois pareciam sintonizados como se nunca tivessem jogado separados e ninguém diria que, hoje, o Ewerthon joga pelo América FC de MG. Sua astúcia, seu sorriso inegavelmente brasileiro e suas jogadas perigosas deram O TOQUE brasuca na partida. O jogo contou também com a presença do impagável Aílton (ex. Werder Bremen, Hamburg SV, Duisburg) que devido à seu precário conhecimento da língua de Schiller e Goethe, principalmente na hora de aplicar os artigos, desde sua participação em um formato que famosos do tipo B e C ficam 15dias enclausurados numa floresta na Austrália somente a pão e água, é carinhosamente chamado de “Das Ailton” (Das é o artigo para substantivos neutros). Bem mais acima do peso, que possibilitaria alguém de dar sequer um chute na bola, Ailton mostra que, apesar dos quilos a mais frearem a velocidade daquele que outrora foi chamado de “Bola relâmpago” (Kugelblitz), ele ainda consegue ser dissimulado e enganar o adversário e ser perigosamente estratégico na passagem da bola para um companheiro de equipe.

O jogo de despedida em formato de total confraternização possibilitou a torcida do Borussia de matar a saudade de alguns jogadores que marcaram a história do clube. Entre eles, o “Monstro”, “Dino”, “Girafa” e ex-jogador da seleção tcheca, o atacante Jan Koller com seus 2,02 metros e presenteou o clube com lindos gols. Thomas Hessler, ex-Hertha BSC, também integrou o time da “Seleção Internacional”.

Juiz de boa

Num jogo de confraternização, só tem juiz bem humorado e cada vez que algum jogador se aproxima, e o anfitrião fez isso várias vezes, isso era “quitado” com tapinhas no ombro, risadas ou até mesmo gargalhadas. Dede se sentia visivelmente orgulhoso no papel de regente. Na hora que o juiz deu o pênalti e Dede foi marcar nos 38 do segundo tempo, Jens Lehmann (ex-Borussia, ex-seleção alemã em 2006) não seria louco em estragar a festa. Seu pulo pro lado direito teve somente um efeito álibi e jamais continha a intenção de pegar a bola.

No intermezzo dos lances do jogo, repórteres do Sport1 entrevistavam jogadores “de reserva” ou que esperavam sua escalação. Um dos entrevistados foi Lars Ricken, o David Beckman do Borussia em tempos de outrora. Instigado a revelar alguma anedota inusitada sobre Dede, ele revelou: “Logo que ele chegou no clube, fazia treinamentos meticulosos e no final deles, levava o gelo quebrado pra casa. Achávamos: “Nossa, ele é mesmo profi. Vai fazer compressa gelada até em casa. Entretanto, quando uma vez ele me convidou para ir à sua casa, avistei um monte de gelo quebrado dentro de um isopor e constatei que ele o levava, para oferecer Caipirinha para seus amigos“.

Vale a pena ver de novo

O jogo de despedida de Dede não “só” deu ao torcedor do Borussia um espetáculo inesquecível e meticulosamente preparado pelo clube. Não faltou camisa de comemoração, vendida anteriormente no Borussia Fan-Shop. Não faltou gráfica temática para cada lance de repeteco na transmissão de TV. Mas teve muito mais do que isso. O jogo nos presenteou com a escalação do sumido Kevin Kurany, nascido no Rio de Janeiro e ex-jogador da seleção alemã. Kevin foi aquele que caiu na desgraça do treinador Joachim Löw, quando depois de um jogo da seleção, quando foi retirado antes do fim da partida, sumiu sem avisar e nem dizer tchau. Isso lhe custou um boicote sem perdão e a possibilidade de jogar a final de uma Copa do Mundo na sua cidade natal. Mas Kevin não seria brasileiro de geografia e de coração, se não fosse mestre na superação e soberano no lidar com a imprensa esportiva. Depois de 5 anos (2010-2015) jogando em Moscou, Kevin voltou para a Bundesliga em agosto pela equipe do Hoffenheim, que não é um dos melhores do campeonato, mas só a volta de Kevin para o campeonato alemão é um presente para o torcedor, que ansiava pela sua volta, seu sorriso carioca e seus drilbes. Outro regalo foi a escalação  de David Odonkor, o coringa usado por Jürgen Klingsmann na lateral direita na Copa de 2006. Na época, sofrente fortes crítica da mídia esportiva, Klingsmann ousou em escalar um cara baixinho, de uma velocidade surreal, que correndo pela direita se fazia invisível. Excepcionalmente fazendo uso da linguagem do Galvão: Odonkor: “Se deixar, ele vai embora!”, como demonstrou várias vezes na Copa de 2006. Ele vai embora, chuta para o meio de campo, o atacante faz o gol e ninguém sabe “como isso aconteceu”. Odonkor, que depois da Copa não conseguiu se firmar na trilha do sucesso, acabou de participar de um formato do tipo “Big-Brother para os famosos”. Ao mesmo tempo que foi motivo de pena da mídia, ele levou o prêmio, dotado de uma boa quantia de dinheiro e como mostrou ontem: ainda continua jogando muito!

O diferencial

O que faz toda a diferença no Borussia é o respeito pelos atletas que fizeram a história do clube, mas também pela afinidade que permanece mesmo depois do final da carreira ou mesmo de ter deixado o clube. Nessa galeria de “Lenda eterna” e “Você sempre será um de nós” ou “Amor eterno”, „Família BVB“ da qual Dede, desde ontem se eternizou e, não farão parte jogadores como Mario Götze, aquele que fez o gol da Alemanha no Maracanã e que hoje é vítima da impiedade de um Pep Guardiola e que nunca será tão forte no Bayern como foi no Borussia. Mas quem troca do clube amarelo e preto para o poderoso Bayern de Munique, cai na desgraça, pra sempre, na desgraça da torcida. O mesmo destino terá Robert Lewandoswski, que por um tiro no pé do seu empresário, anunciara a transferência antecipadamente (assim como Eurico Miranda que garantiu 90% da ida de R10 para o cruz-maltino) e que acabou não rolando. Ficar jogando uma temporada no Borussia, com meio pé no Bayern, é um destino que nem mesmo o time da colina desejaria para o Clubs de Regatas da Gavea. A crucificação da torcida, durante toda a temporada, é certeira.

Dede teve um jogo merecido. Escalou um time maneiríssimo e, além de presenteado pelo amor da torcida borussiana, nos presenteou com inesquecíveis momentos de grandes jogadores, muitos deles, sumidos das competicoes atuais e para cororar a grande festa, com o gol que todos esperam: o gol da longa distância, alterando para 13 o placar da “Seleção Internacional. Wunderbar, Dede!

https://www.youtube.com/watch?v=BZnbNQXVl4g

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