Eurocopa: o sonho alemão acabou, mas a saudade dos Vikings teima em permanecer

Fátima Lacerda

08 Julho 2016 | 16h23

Quando a Itália eliminou a Espanha da Eurocopa, o jornal Gazetta dello Sport publicou em manchete: “Podemos voltar a sonhar”. O sonho durou pouco e o Expresso alemão teve um gostinho especial no jogo de sábado, valendo uma vaga na semifinal. Viria a Equipe Tricolor, aquela pela qual, da perspectiva brasileira é, normalmente, impossível torcer.

Naquele fatídico 1998 eu me encontrava na sala de imprensa do Festival de Jazz de Montreux, cercada de franceses e suíços por todos os lados. No final da partida, um fotógrafo resumiu a tragédia Ronaldo-Nike e o mistério eterno em volta disso, dizendo: “Aniquilou!” Mesmo tendo falado, pensado alto e não diretamente para mim, depois de vários anos ainda presente no festival, eu nunca dei nem um boa tarde para o carcará suíço. O trauma do Ronaldo dopado no campo já bastara. Não era necessário pisar em que já estava no chão.

Os italianos pararam de sonhar no sábado, quando “Gigi” Buffon perdeu os nervos enquanto Manuel Neuer se mostrou mais frio do que Angela Merkel e isso é, sim, uma nova dimensão. Até na derrota, Neuer mantém postura. Isso, nem o titânico Oliver Kahn conseguiu em 2002, quando Ronaldo Fenômeno teve sua revanche na Copa da Coréia do Sul e no Japão.

O grito de gol preso na garganta

A Nationalelf super cool e um técnico achando que não há outra opção senão a vitória, irão se juntar à Squadra Azzurra no próximo domingo quando haverá o duelo do metrosexual CR7 e Antoine Griezmann. Na coletiva de hoje (08) Löw (e não Love como insiste em pronunciar o Galvão Bueno) ficou devendo na soberania e pecou por não conseguir ser um perdedor digno: “Nós jogamos melhor do que a França. Investimos muito. Tínhamos uma expressão corporal muito boa, ganhamos muita posse de bola. Claro que é um azar um pênalti um minuto antes do final do primeiro tempo”. O budista declarado falou muito de “azar”, palavra também que usou para descrever a bola na mão do capitão Schweinsteiger que gerou o pênalti para a Equipe tricolor.

A noite do jogo “final” foi a mesma em foi agendada a anual Festa de Verão de Confraternização dos jornalistas. O anfitrião é o socialdemocrata Frank-Walter Steinemer, Ministro das Relações Exteriores e um aficionado pelo futebol. Quando fala do esporte, é autêntico e não reprodutor de uma estratégia de Marketing, afinal, para quem viajar o mundo afora é sempre bom “levar na mala” o título de “Campeão do Mundo de Futebol”.

Antes, uma passada na UEFA Fan Fest ao redor do Portão de Brandemburgo já mostrara que os torcedores e torcedoras alemães já haviam perdido a motivação no quesito fantasia. Nada mais de inusitado como na ocasião dos jogos da fase preliminar. Ganhar sempre não é algo que instigue a criatividade.

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No pátio do Ministério encontravam-se os jornalistas mais conhecidos da Alemanha e os correspondentes estrangeiros. Uma recepção muito simpática que contou com a presença do Embaixador francês em Berlim, sempre usando o seu cachecol azul e branco para não deixar dúvidas para qual time torce. Poucas semanas atrás, quando Steinmeier recebeu os embaixadores de todos os países participantes da Euro Copa, ele, muito ousado e muito brincalhão, alegou: “Eu estou super curioso para saber qual a equipe que irá enfrentar a Alemanha na Final em Paris”. Durante 2 horas o silêncio se espalhava pelo pátio, apesar de cerveja e salsicha à vontade. Mesmo assim. Um fenomenal Griezmann, a sorte não querendo fazer a bola entrar no gol dos franceses e só se aproximava para bater na trave. Os primeiros 10 minutos do primeiro e os 12 do segundo tempo foram caracterizados com a equipe da Franca atacando a Nationalelf em formato de assalto. Dribles, bolas passando por debaixo das pernas de Schweinsteiger. Ai veio a dor na coxa de Boateng. A defesa, já desfalcada com a ausência de Mats Hummels , contundido na partida contra a Itália, ficara sem um chefe de responsa. Insegurança pairava no ar.

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Começou a se desejar um milagre. O comentarista da rede aberta ZDF que rolava no imenso telão no pátio ficava com a voz cada vez mais pessimista. “Se a Alemanha quiser virar o jogo, a hora de fazer um gol é agora”, disse ele com voz deprê quando faltavam 30 minutos para acabar o jogo. Entra Mario Götze e com ele, a esperança do “milagre do Rio”. Antes de entrar no gramado do Maraca, Löw havia sussurrado no ouvido de Mario: “Vai lá e mostra que você é melhor do que o Messi”. Mario fez o gol e por isso a camisa da Nationalelf tem 4 estrelas. Porém, melhor do que Messi ele nunca foi e nunca, nunquinha será. Isso ficou transparente nesse torneio. No jogo de quinta-feira (07) Mario era invisível no campo: “Onde está o Mario Götze?” indagou Bela Rethy, comentarista da emissora aberta ZDF que tem Oliver Kahn como comentarista de futebol: “Nós precisamos de jogadores como Miroslav Klose. Precisamos plantá-los” (para colher num futuro próximo), foi a crítica de Oliver Kahn depois da derrota da seleção de Löw. Um colega jornalista é useira e vezeira em zoar com o 7 x 1. Sabendo da minha atividade de também escrever sobre o futebol alemão (desde abril para o Esporte Interativo) eu tenho instrumentos para rebatê-lo. Quando e começa com o 7 x 1 eu retruco: “Você como torcedor do Eintracht Frankfurt não tem muito motivo para sorrir. Já nós borrussianos (Borussia Dortmund) fazemos história“. “Fátima, até o fim da sua vida você lembrará dos 7 x1”. “Cinco, digo eu, ratificando com os dedos da mão insinuando os 5 campeonatos mundiais (e não 4 como a Alemanha) que o Brasil tem. Nada disso adianta é tatuagem. Para sempre.

Depois da partida, só os torcedores para a Equipe Tricolor ficaram no pátio. Steinmeier, como bom diplomata que é, manteve a postura, se mostrou simpático, mas sim, abaixou a crista quando conversava com Philippe Etienne, embaixador francês em Berlim, que se manteve comedido, por estar em “terreno inimigo”. Meu colega polonês, o mesmo que semanas atrás me entrevistou para a TV polonesa perguntou:

Você estava torcendo para a Alemanha ou para a França?”. “Para a França, mas fica na tua”, disse em tom conspirativo.

A razão foi mais de cunho político do que, propriamente, futebolístico. A equipe francesa espelha muito a sociedade multicultural que a França é. Para constatar isso basta fazer uma viagem no metrô de Paris e não precisa nem ser lá pelos arredores de Gare du Nord ou Chateau Rouge, linha 4..Em qualquer lugar a miscigenação está ali. Gostei da unidade da equipe, gostei ainda mais da falta de respeito pelo atual campeão mundial e gostei também porque a derrota da Alemanha vai acalmar os ânimos dos nacionalistas, esses coitados, por muito tempo reprimidos em expressar “orgulho pela nação” (algo que os franceses sempre puderam fazer de forma natural) extrapolam na dose.

O autor da revista futebolística “11Freunde” (11 amigos, em tradução ao pé da letra) classificou esse fenômeno como “a perda da inocência do patriotismo”. Torcer pela seleção e querer que ela vença é uma coisa, querer impedir todas as outras de vencerem e questionarem sua legitimidade é estar no caminho do hooliganismo e do nacionalismo. O clima estava esquentando em Berlim. Foi um alívio o fim de um círculo que tomava uma dinâmica preocupante. Talvez a cena que presenciei dos neonazistas executando a saudação hitleriana na UEFA Fan Fest durante o entoar do hino nacional no jogo contra a Itália tenha sido o motivo para ter “mudado de time” e não espeicalmente por uma verdadeira simpatia pela Equipe Tricolor que, sem qualquer dúvida foi a melhor equipe no estádio, Stade Vélodrome em Marseille com uAntoine Griezmann brilhante e dono de insuportável leveza, fazendo dribles incríveis e com uma divertida forma de comemorar o gol.

Depois do jogo, meu colega polonês decidiu “dar uma palavrinha” com o Ministro. Os dois tiveram uma prosa informal sobre a conferência da OTAN que iniciou hoje (08) em Varsóvia. Houve uma conversa em off e que se sabe que dali ela não sai. Aproveitei a oportunidade e conversei com o Ministro sobre os Jogos Olímpicos, perguntei se ele estará presente como também qual a sua modalidade esportiva: “Atletismo”. “Se houver um avião do governo nós iremos também”. Sobre a atual situação política do Brasil também conversamos, mas a boa ética me proíbe de mencionar em detalhes. Steinmeier um perfeito anfitrião. Um ministro que, apesar da complexidade do cargo que ocupa e da gravidade de um mundo cada vez mais imprevisível, ele mantém o bom humor e ainda sabe alinhavar uma boa prosa, algo muito raro para um político de alto-escalão.

Saudades da Islândia – Huh!

Foram os países pequenos como o de Gales, a Albânia, Irlanda do Norte e a Islândia que nos devolveram aquilo que parecia perdido:a ingenuidade do futebol.

https://www.youtube.com/watch?v=PVq0MrmezpI

Na Euro Copa de 1992, quando a Jugoslávia ficou de fora devido à crise nos Bálcãs, a Dinamarca foi chamada para participar. Os jogadores já estavam de férias e foram chamados de urgência. Chegaram de cabeça fria, viram e venceram o campeonato. A Islândia marcou a volta dos Vikings ao velho continente. Um país com uma seleção que ninguém conhecia, encantou a competição pela garra, pela paixão e pela teimosia de vencer. Só o gol contra a Áustria já foi uma sensação. Ninguém imaginaria que o um país tão escondido, com 320.000 habitantes e no mâximo 100 jogadores profissionais de futebol e que é famoso por um outro esporte, o handebol, pudesse ser a maior e mais deliciosa surpresa do torneio.

A Islândia deixou sua marca registrada na Euro Copa. Prova disso: a Equipe Tricolor deu um show de coreografia-viking em Marseille imitando o ritual das palmas em cadência exata. Os alemães não teriam nunca tal atitude. Nunca expressaríam tal paixão e no futebol, além da eficiência é preciso ter paixão

https://www.youtube.com/watch?v=PVq0MrmezpI

Ver os jogadores italianos se abraçando fortemente antes da cobrança do pênaltis, ver a garra com que os islandeses cantavam o hino nacional, ver unidade na sintonia na recepção triunfal que obtiveram nas ruas da capital Reiquiavique: tudo isso ficará registrado e cravado na nossa retina ainda durante muito, muito tempo. A ausência do país do gêlo na semifinal se fez presente na torcida tricolor, bálsamo para os torcedores que pensaram nunca mais ouvir o som dos vikings.

E a Alemanha?

O capitão Sebastian Schweinsteiger (7) declarou em entrevista: “Eu não consigo explicar”. Já o técnico Löw, fez um discurso bonito sobre a Nationalelf, mas parece ter esquecido que futebol se ganha fazendo gols e não jogando estrategicamente e taticamente perfeito. No mais tardar agora sabendo que um elevadíssimo percentual estatístico de posse de bola (67,9% da Alemanha comparados aos 32,01% da Equipe Tricolor) não é a garantia de vencer o jogo.

O técnico pediu uns dias para refletir sobre “o seu futuro”, ele que tem um contrato até 2018 com a Federação Alemã de Futebol (DFB, na sigla). Os analistas esportivos estão certos que ele não vai jogar a toalha e preparar o time para a Copa na Rússia em 2018. Em suma: ainda é possível sonhar e que esse sonho nunca mais inclua o “falso 9” o jogador que era para ser melhor do que Messi e nunca cumpriu a sua missão.