Europa em convulsão política enquanto Alemanha teima em ser um oásis

Fátima Lacerda

18 Abril 2017 | 11h30

Há exato 1 ano atrás, um presidenta era arrancada do cargo, acusada de Crime de Responsabilidade. Bem depois de Dilma Rousseff ter sido escorraçada do Palácio do Planalto, ela, mesmo tendo feito um péssimo governo e nunca tendo conseguido se emancipar da sombra de seu antecessor e mentor, ela foi eleita de forma legítima. No processo do Impechment, a democracia brasileira exibia toda a sua fragilidade.

Por falta de visão, ao mesmo tempo que acometida de uma cegueira crônica que, pelas suas declarações em ocasião de um triste aniversário, ainda persiste, a sua expulsão de Brasília representa um momento trágico na história da democracia brasileira. Esse momento de fragilidade acontece, paralelamente e numa dinâmica insana e temerosa, em outros países. Desse e do outro lado do Atlântico.

Desestruturando teses

Até bem pouco tempo, a tese de que democracias fortes e robustas superam bem vendavais e tempestades políticas, porém nem mais essa premissa parece valer e se está, seu percentual se vê reduzido de forma radical.

Turquia

Erdogan, o déspota turco acaba de chegar ao ápice do seu plano “Make Turkey Great Again” e dar uma banana para a UE de forma tao definitiva que me lembra a cena de “Avenida Brasil” que Marcelo Novaes, no papel de Max, depois de tanta humilhação e esculacho, em cena memorável para a dramaturgia brasileira na obra-prima de João Emanuel Carneiro mandou uma banana notória para os habitantes mansão do Divino quando, em inusitada postura emancipatória deixou tudo pra trás.

O passo que Erdogan toma com a implementação do presidencialismo é uma notória banana para a UE e suas restrições para a entrada da Turquia no clube dos escolhidos. Ele jogou tudo no ventilador e com isso, se emancipou para o pior lado possível, mas da sua perspectiva é a carta de alforria das correntes dos burocratas de Bruxelas e de sua percepção de que a Turquia nunca teria cacife para integrar e Erdogan sempre soube disso.

TheresaMay

Uma novela chamada BREXIT

Enquanto políticos alemães ainda tentavam digerir a vitória do déspota turco, o Twitter já começava pipocar a última cartada da premiê britânica, Theresa May convocando eleições antecipadas para junho próximo, opção que em 30 de junho de 2016 ela havia, categoricamente, negado garantindo eleições gerais somente em 2020.

Em depoimento hoje (18) frente à sua residência oficial na Downing Street, a Premiê alega que não há maioria robusta no parlamento para executar o procedimento de alta complexidade do Brexit. Porém, há razões suficientes para suspeitar que os motivos de May são de outro âmbito. Vendo o país altamente dividido, ea pode querer usar a última carta da manga esperando que os britânicos acordem e votem, claramente, a favor da permanência no bloco dos 27. Assim, May não terá que administrar a amarga herança de um antecessor Cameron que cometeu histórico erro de cálculos convocando o referendo achando que assim iria zerar com o pleito dos contra a Europa, assim como não terá o fardo histórico de ter sido a “empresária” do BREXIT. O montante de dinheiro que o Reino Unido teria que pagar para deixar o bloco que se delineou depois que foram feitas as contas, também pode ter sido um dos motivos da medida repentina e, de acordo com declarações das últimas semanas, inesperada da Premiê. O paradoxo mais irônico é que enquanto membro, o Reino Unido vivia reclamando do montante de dinheiro que tinha que depositar nos cofres de Bruxelas e agora, possivelmente, o monte de dinheiro para sair, pode ser um dos motivos para convocar os britânicos para ir, mais uma vez, às urnas.

A #Hashtag Exitfrombrexit já está a postos e vai de vento em popa. Depois do requerimento para sair do grupo dos 27, para Berlim o Reino Unido já era carta fora do baralho e Berlim se negava a reagir aos comentários e boatos. Com essa cartada de hoje, May consegue tirar o holofote virado para Ancara e virar pauta principal no cenário europeu depois da hibernação resultante do feriadão da Páscoa.

Melenchon ©Alain Jocard/AFP

França

Jean-Luc Mélenchon, candidato esquerdista dos inúmeros candidatos à presidência foi, até agora, o responsável pelo entretenimento nos debates e nas trasmissoes de programas e streming nas rádio francesas. Enquanto a equipe de François Fillon ameaça jornalistas quando esses querem mostrar mais do que “o necessário”, o candidato sem partido e fundador do movimento En Marche, Emmanuel Macron vai correndo por fora e vai correndo bem. Não há um açougue, um bairro da periferia de Paris e nem mesmo uma entrevista de rádio que ele não comparece e sempre, excelentemente e meticulosamente preparado com estatísticas e números. Foi Macron que, no LeGrandDebat o único que expressou o intuito de “uma estreita parceria entre França e Alemanha”, ao mesmo tempo em que, em entrevista à mídia francesa e alemã na manhã de terça-feira (18) ele criticou a “supremacia na política de comércio alemã” e sugeriu um “rebalanceamento”. Mas isso pode ser somente uma estratégia para conquistar o eleitorado que não quer ver o chefe do governo francês, como “Vice-chanceler”, no sentido de “Garoto de Recados” e capacho de Madame Merkel (como a imprensa francesa se refere à chanceler) e que esse argumento seja esquecido na primeira visita oficial à Chancelaria Federal em Berlim. Retórica aqui e lá. Macron é astuto o suficiente para saber que quem manda na Europa é Angela Merkel. O candidato do centro alegrou ter “sincera relação com os dois” (Merkel e Schulz). É também coerente e astuto, deixar as duas portas abertas para o que vier depois das eleições francesas. Não existe Europa sem a dobradinha Paris-Berlim olhando na mesma direção, que é ditada por Berlim. 

Macron ©JEFF PACHOUD. AFP

Entre os candidatos mais populares, Melenchon (esquerda), Le Pen (direita nacionalista), Merkel e seu adversário Martin Schulz, do partido dos social-democratas (SPD, na sigla), estão torcendo para que Emmanuel Macron (centro) vença a corrida presidencial numa eleição que goza de dramaticidade mór na recente história da França.

Não é o referendo da Turquia, nem mesmo a saída ou permanência do Reino Unido no clube dos 27 que irá definiar o destino da “Casa Europa”. Enquanto Alemanha e França andarem de braços dados, como outrora a imagem de alto simbolismo protagonizada por Helmut Kohl e François Mitterrand, o projeto da Casa Europa, de valores comuns, mas com a aceitação de diferentes intensidades, ainda tem chances de sobreviver.

Alemanha: um oásis frente à um tremor de terra político

Desde sempre, a doutora em física, Angela Merkel, sempre optou pela postura de  esperar a tempestade passar usando de uma teimosia prussiana. Na política interna, essa estratégia sempre funcionou e, teimosamente, continua funcionando como se a Alemanha fosse uma esquina esquecida no mundo. A postura de “se fingir de morto” como chefe de governo do país mais poderoso da Europa e a segunda maior economia do mundo é estrategicamente coerente no caso da Turquia, mas moralmente repreensível, oportunista e nada mesno perigosa. Na manhã de terça-feira (18), Merkel tem o poder de decisão: ou compactuar com um déspota que rasgou os valores do Estado de Direito e já planeja um novo referendo sobre a adoção da pena de morte ou ela arrisca a quebra do “Acordo da Turquia com a UE” e Erdogan abrir os portões para refugiados sírios e do Iraque e, consequentemente, arrisca refugiados batendo nas portas das fronteiras da Alemanha. A perda das eleições federais agendadas para setembro próximo, é certeira.

MerkelErdoganII©Kay Nietfeld/DPA

Depois do anúncio do resultado do referendo na Turquia, Merkel e o Ministro das Relações Exteriores, Sigmar Gabriel, divulgaram um comunicado em conjunto: “Esperamos que a Turquia entre em diálogo com as forças de oposição”, mostrando querer continuar a retórica de água com acúçar com Ancara. Se Erdogan já não se lixava para a oposição, melhor, o que restou dela antes, quando tinha poderes mais restritos, agora que chegou ao ápice de seu projeto megalomaníaco, nao irá reverter o quadro “em pro da democracia”. Por sua mensagem de cunho de professora que manda o aluno fazer o trabalho de casa, a chanceler foi criticada pela imprensa da Alemanha que considerar “errado” seu posicionamento. Segundo o edital do jornal berlinense Der Tagesspiegel (O espelho do dia), Merkel deveria demonstar a frieza germânica. Nas redes sociais, entretanto, usuários exigem linha dura do governo de Berlim concernente ao caminho sem volta, tomado por Ancara.

Em sua quarta candidatura Merkel apresenta sinais de esgotamento físico e político. Qualquer movimento mais do que estritamente necessário, pode significar o minguar ainda mais do seu poder de influência em âmbito europeu Entretanto, que a estratégia do se fingir de morto ainda funciona, é surpreendente. De um lado, a Alemanha, um país absolutamente avesso à expansividades e celeumas. Do outro lado, a insana dinâmica dos tremores de terra em âmbito político.