“Fassbinder agora”: Exposição comemora os 70 anos do diretor mais polêmico da cinematografia alemã

Fátima Lacerda

16 de julho de 2015 | 05h19

mgb15_fassbinder_02_rwf_ballhaus_warnung_grauhe_litebox.jpg© Fassbinder Foundation

Em cooperação com o Museu Cinematográfico de Frankfurt e a Fundação Rainer W. Fassbinder, a exposição “Fassbinder jetzt” (Fassbinder agora) pretende “lançar novos impulsos para a reflexão do que foi a obra” do diretor workoholic. A exposição, inaugurada em maio segue até 23 de agosto no Museu Martin-Gropius, localizado à beira da faixa de bronze que relembra por onde passava o Muro de Berlim e em frente ao parlamento. A “Estação Berlim” da exposição é financiada pelo Fundo Cultural da Capital, um fundo de orçamento bem robusto que financia projetos culturais a serem exibidos na capital, mas de relevância nacional e a exposição sobre o obcecado pela arte do cinema, preenche bem esse quesito de justificativa político-cultural.

mgb15_fassbinder_04_die_ehe_der_maria_braun_1979_fassbinder_schygulla_c_rwff_litebox.jpg© Fassbinder Foundation

Não vale somente o escrito

A justificativa cultural dos promotores fica devendo naquilo que é primordial na obra de Fassbinder: a complexidade na criação das suas personagens, principalmente das femininas que nos abrem verdadeiros leques de abismos emocionais de caráter vertiginoso ao mesmo tempo que as personagens são construídas e alinhavadas em histórias palpáveis, cheias de momentos de Dejà Vu que e que por isso, colhem empatia imediata.

mgb15_fassbinder_12_rwf_berlin_die_bitteren_traenen_der_petra_von_kant_litebox.jpg© Fassbinder Foundation

O foco temático da exposição se divide entre a pessoa de Fassbinder e suas idiossincrasias, essas expressadas logo ao entrar na sala de exposição. 9 aparelhos de TV, exibem, cada um, uma entrevista em uma época de sua vida. Logo ali mesmo fica claro que ele era além do seu tempo e viveu numa época, em que a sociedade alemã ainda se debatia e afogava num discurso reacionário. Fassbinder era feio, barbudo, louco, bissexual, perverso e sei lá mais o que.Uma personalidade que instigava questionamentos aos quais a Alemanha da época não estava preparada.

Um documento histórico

Os diálogos em seus filmes são um arquivo de alta relevância histórica sobre a vida na Alemanha Ocidental.

O foco da exposição no Museu Martin-Gropius é mais sensorial do que intelectual. Placas penduradas nas paredes com machetes dos mais importantes jornais do mundo sobre a obra do Enfant Terrible alemão são, com toda a certeza, a parte mais digerível da exposição. Perfeito para americanos visitando Berlim e querendo “adentrar o universo” do diretor.

Um dos objetos expostos que possibilitam um olhar além do ofício de forma estreita, é a bicicleta usada por Fassbinder durante as filmagens de “Berlin Alexanderplatz”. “Franzl II” ele a denominou, depois que a “Franzl I” foi roubada. Sua memorável jaqueta preta de couro e outros utensílios mundanos.

Ratificando a meticulosidade no preparo de seus projetos, estão exibidas planilhas dos 13 episódios gravados para a TV de “Berlin Alexanderplatz”. Juntamente com elas, 78 horas de gravações em fita cassete que Fassbinder ditou, onde ao fundo houvem-se barulhos do dia a dia.  Chuva, o bater da porta, alguém entrando na sala.

Cartas e mais cartas protocolando brigas com produtores. Cartas com papel timbrado de um hotel de Cannes, rascunhos, esboços e anotações exigem bastante tempo do visitante.

As 78 horas de gravação foram transcritas num período de 3 meses, de forma prussiana e regada a muita paciência, por Liselotte, a Mãe de Fassbinder, que como ele declara no filme exibido na última Berlinale “Fassbinder, amar sem pedir nada em troca”, do diretor Christian Braad Thomsen, era a sua maior inspiração. “Eu chamava-a pra atuar nos meus filmes para poder ficar perto dela”, declara ele com o sorriso de filho astuto.

Em entrevista, em inglês, gravada a Berlinale deste ano, o diretor dinamarquês fala de como e onde conheceu Fassbinder e sobre o que pensa da importância do seu trabalho.

https://www.youtube.com/watch?v=c8s1ZQPKu9w

Um colírio estético- cinematográfico

De grande apelo visual e orgânico são as vestimentas dos personagens. Em grandes telões, são exibidos trechos dos filmes, enquanto ali do lado estão expostos os guarda-roupas, concebidos pela figurinista Barbara Baum, A Figurinista de clássicos alemães e que tem uma estrela no “Bouvlevard das Estrelas” na capital. Barbara hoje com 71 anos, atuou como figurinista também em filmes de Peter Lilienthal (Os Profissionais, 1979) e Hans-Jürgen Syberberg (À Noite, Quando o Diabo Veio, 1957).

“Uma comunicação sem palavras” resume Fassbinder o trabalho com a figurinista que sabia, com excelência, ratificar o caráter e o estilo das “mulheres de Fassbinder” de forma às vezes com excelência, exotismo, ingenuidade. Para arredondar essa que eu chamaria de uma viagem estilística cinematográfica, pode-se também vislumbrar amostras de tecidos e esboços de figurinos.

Na última sala da exposição, totalmente escura, vê-se trechos de filmes da época final de Fassbinder, que morreu no auge de sua fase de produção. Dois roteiros datilografados, de filmes não realizados, também tem lugar na exposição.

Fassbinder Jetzt” em Berlim é uma menos abrangente do que a já exibida em Frankfurt e não esclarece o mundo Fassbinder por vias de intelectualidade, mas fornece um ampliar de horizonte no que diz respeito a sua forma de trabalhar: uma obsessão (no melhor sentido) diabólica pela Sétima Arte.

Links relacionados:

http://www.berlinerfestspiele.de/de/aktuell/festivals/gropiusbau/programm_mgb/mgb15_fassbinder/ausstellung_fassbinder/veranstaltungsdetail_mgb15_fassbinder_111766.php


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