Festival 11mm na capital: Cinema + Futebol fora dos padrões da FIFA

Fátima Lacerda

21 de março de 2016 | 09h58

Um dos mais simpáticos e divertidos festivais de cinema da capital é o 11 mm. Uma equipe competente, bem humorada, que tem prazer no que faz e a flexibilidade para quando nem tudo sai como deveria, encanta torcedores da capital sempre no início do ano. Na edição número 13, o festival que acontece no cinema Babylon, pertinho de Alexanderplatz, é um ponto de encontro de quem ama o futebol, daquele que não se enquadra nos padrões FIFA e muito menos é regido pelo dinheiro e pela corrupção, mas pela paixão ao clube, à sua cidade, ao seu país.

Brasil em dose tripla

Entre os filmes brasileiros na programação estão “Campo de Jogo“, de Erik Rocha, que provido de uma delirante beleza estética, acompanha o campeonato anual das favelas no bairro Sampaio, no Rio de Janeiro.

https://www.youtube.com/watch?v=NV_k51Yw-y8

Os Boias frias do futebol“, dirigido por Luciano Pérez Fernández mostra a superação de jogadores que tem uma vida dupla marcada por enormes dificuldades e decepções enquanto não chegam ao olimpo do futebol profissional.

https://www.youtube.com/watch?v=qkZSKpdPWX4

Para começar a projeção de filmes brasileiros que aconteceu logo no primeiro dia do festival (17), foi exibido o curta-metragem “Os Geraldinos“, sobre aqueles que foram banidos do Maracanã depois da construção moldada no Padrão Fifa e ficaram sem um solo futebolístico para viver suas paixões. O Maracanã se tornou um lugar frio demais para dar espaço para a catarse que era protagonizada na geral, debaixo de sol a pino ou de chuva torrencial, onde sentimentos de alegria, raiva, tristeza e desespero se alternavam em estonteante dinâmica.

https://www.youtube.com/watch?v=6ofLRR60nLM

Destaques da programação

A lenda do futebol inglês, Paul Gaiscoine “o Hooligan que jogava futebol”, é tema no filme homônimo da diretora Jane Preston, que, perguntada no debate depois do filme, se o âmbito do futebol não seria um clube do bolinha, ela, bem humorada, respondeu: “Quando chegávamos para filmar, as pessoas iam falar com o meu cenografista, quando ele dizia que não era o diretor, iam falar com o contra regra” até ele dizer: “A diretora é ela!“. No segundo filme que Jane faz sobre uma carreira cheia de altos e baixos sem deixar de fora os problemas com álcool e drogas daquele que viveu num tobogã, e que foi, na época, o jogador mais caro comprado 5,5, milhões de libras pelo Lazio de Roma e que amargara 8 meses no CT se recuperando de lesões no joelho. Mas quando voltou, se eternizou na história dos Derbys entre os arquiinimigos Lazio e Roma.

A cumplicidade entre os entrevistado e diretora é contagiante e se expressa num flow muito orgânico nas declarações de Paul, até mesmo quando o tema é o seu problema com o álcool e de como lidar com a fama e da permanente pressao e expectativa resultante dela. O frame da câmera colada na expressão facial mostra um universo paralelo, interior, da alma do jogador que virou um mito mesmo depois da derrota do time inglês na semifinal da Alemanha na Copa da Itália em 1990. Não fosse o filme um regozijo futebolístico para a retina, com os comentários do companheiro de campo Gary Lineker, Jane ainda trouxe dois enfant-terrible para o filme. São eles: O invocado José Mourinho e aquele que sai derrubando tudo que vê pela frente no campo, Wayne Rooney. Nunca se viu os dois tão solícitos, suaves como nesse filme, numa aura sinistra de admiriracão pelo jogador que no filme, inusitadamente, precisa de legendas por falar um inglês de New Castle.

https://www.youtube.com/watch?v=FMjmApzOo0A

Aqui você confere o filme na íntegra:

https://www.youtube.com/watch?v=3GDLD9elRac

Amor distante (Ferne Liebe)

Pelo título poderia se imaginar que se trata de uma amor geograficamente distante num período onde o geográfico é bem relativo. Durante meses, o diretor Martin Zeising acompanhou várias torcidas organizadas, existentes em Berlim. Torcedores de clubes alemães de outras cidades, encontram na capital um grupo para torcer pela sua equipe. Da perspectiva brasileira é, no mínimo, inusitado, quando alguém residente em Berlim fala de “Heimat” (Pátria) ser referindo à cidades de Colônia ou Augsburg ou Bielefeld. Além do incondicional amor pelos seus times regionais, o filme desvenda a percepção cultural da Alemanha, onde as características culturais de regiões podem ser muito diversas que se justifique em falar de Heimat, (Pátria). Segundo Zeising, em nenhum lugar da república se vê uma diversidade de torcedores como Berlim. O diretor também ilustra a cultura dos “Kneipen”, os bares de equina, onde torcedores do time x e y tem um encontro semanal para sofrer, chorar, beber cerveja e se sentir um pouco em casa. Se os de Colônia falam de Heimat quando estão em Berlim, do que eu, brasileira vou falar? Mais é assim. Os alemães tem uma conexão muito intrínseca com o aspecto regional. Instigante é também a variedade de bares de esquina- De quebra, descobri onde é o bar incluindo torcedores associados, onde são transmitidos os jogos do Borussia Dortmund e que a dona desse bar se diz “abandonada” quando Juergen Klopp, depois de chegar na rebarba da tabela do campeonato da Bundesliga, jogou a toalha. “É como num relacionamento”, disse ela. “Quando as coisas não vão bem, você tem que segurar as pontas”, disse em voz de lamento, sinalizando o seu forte laço com o time amarelo e preto.

Martin Zeising se auto-defiine como “contador de histórias” e se diz “ascinado” pela cultura que rege nesses bares, muitos dos seus visitantes formam uma associação que incluem reuniões para falar de atividades culturais, de como melhorar o clima para os torcedores e questões organizatórias. Zeising diz também estar fascinado pela diversidade de classes sociais que se encontram nesses clubes de torcida e acha “um barato, um torcedor do Borussia Moenchengladbach jogar totó com um fã do Fortuna Duesseldorf”.

Ferne Liebe é um filme que fala sobre a Alemanha que existe dentro de Berlim e de torcedores que sentem saudades “de casa” e tentam amenizá-la em clubes de torcida para o time de coração enquanto se movimentam em águas culturais conhecidas.

https://www.youtube.com/watch?v=7qEVz_xKnzo

Brasileiro no Júri

Naldo, que joga na defesa no time do VfL Wolfsburg e atualmente se recuperando de uma cirurgia no ombro devido a lesão que sofreu num jogo contra o vermelho e branco de Munique, é um rotineiro do Festival 11mm. Já pela terceira vez, o londrino faz parte do júri que elege o melhor filme na noite de segunda-feira (21). Um passarinho verde me contou que, muito mais do que uma estratégia de Marketing pela imagem do jogador, Naldo sente grande prazer em estar no festival, o que não é difícil constatar pela simpatia contagiante do brasileiro por onde passa. Sempre solícito com torcedores, com a mídia e um frequente requisitado para Selfies.

Conferir os filmes do 11mm é um prazer que vai além do futebolístico. É encontrar apaixonados pelo futebol como um todo e isso, independente da origem geográfica e cultural. Nada mais bem-vindo que, depois de visitar a sala de troféus do Fluminense, na pacata Laranjeiras, mergulhar num universo futebolístico recheado com as premissas: Qualidade dos filme e o amor pelo futebol.

 

www.11-mm.de

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