Festival das Luzes 2016: um deleite cultural-histórico no centro de Berlim

Fátima Lacerda

16 Outubro 2016 | 19h12

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Depois do final do verão berlinense o calendário de eventos da cidade não para, mas muda de perfil. No final de setembro, pontualmente no final do verão inusitado deste ano, iniciava, em sua décima edição, o “Festival das Luzes”(30.09.- 16.10.2016).

Cada ano junta mais participantes, mais prédios que se destacam por sua arquitetura e relevância histórica, como também lugares de espaço físico amplo para que a imaginação dos programadores e designers de luz possam ousar.

Esse ano, o festival não decepcionou. Nem em imaginação e nem visitantes. O “Festival of Lights”, ao longo desses 10 anos, se tornou, além de uma atração para os berlinense, um importante fator de turismo para a cidade.

A Visit Berlin, agência oficial da cidade, oferece, todos os anos, um pacote para turistas dos 4 cantos da Alemanha. A oferta em 2016 com um valor mais do que razoável, somava viagem de ida e volta de qualquer parte da Alemanha com em segunda classe com a ferrovia alemã (Deutsche Bahn) assim como 3 pernoites com o café da manhã incluído em um hotel de 3 estrelas pelo valor de 149,00 Euros (aprox. 525 Reais) por pessoa.

Os Highlights

A minha última visita ao festival foi em 2011, um dos melhores anos e que teve, Potsdamer Platz, o centro de turismo e comércio como o foco urbano das instalações de luz.

Na fachada da sala de concertos de música clássica, a Konzerthaus, a criatividade dos designers e programadores também se mostrou presente.

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Esse ano, porém foi o centro histórico de Berlim, em volta do Rio Spree, que mais, literalmente, brilhou . A instalação que colheu olhos com maior teor de arrebatamento foi a instalação no prédio da faculdade de direito da Universidade Humboldt a qual é muito cobiçada pelos aspirantes da área de direito que exige Numerus Clausus para acesso à cadeira. 

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A universidade que foi fundada em 1809 por iniciativa do Rei Frederico Guilherme III e primeiramente levara seu nome, foi rebatizada em 1949, em homenagem ao letrado e diplomata Wilhelm von Humboldt (irmão de Alexander von Humboldt, considerado o “Pai da Geografia Moderna Universal”). A universidade localizada em volta da Praça- Bebels, (Bebelsplatz) é cobiçado endereço e por muitos motivos: a Humboldt além de, por uma parceria de âmbito federal e com a cidade de Berlim denominada “Iniciativa Excelência”, é uma das universidades de formação de elites da Alemanha além de estar entre as 20 maiores do país.

Depois da Universidade Livre de Berlim (FU, na sigla em alemão) onde o ex-presidente FHC recebeu em 1999 o título de Doutor Honorius Causa, a universidade no centro histórico de Berlim é segunda maior da hoje capital. Para literalmente coroar a fama que já goza de âmbito internacional, a universidade contabiliza 29 prêmios Nobel da Paz de ex-estudantes.

No prédio principal, instalações mostravam bicicletas viajando entre as janelas de austera arquitetura. A leveza das bicicletas com fundo amarelo conquistou olhares e atenção numa noite privilegiada do outono berlinense. Depois de toda uma semana de chuva, na sexta-feira (14) durante o dia, o sol apareceu fazendo jus à característica de “Outubro dourado”. À noite, depois de dias de chuva, a massa foi pra rua. O “Festival das Luzes” teve um público de show de Rolling Stones, um clima de Reveillon com um mar de pessoas nas ruas e caos no trânsito. Nossas bicicletas se mostraram impróprias e se tornaram um verdadeiro transtorno.

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O prédio da faculdade de direito da Humbold foi a instalação mais surpreendente que já vislumbrei em anos visitando o festival. Um mar colorido de flores meticulosamente harmonizando com cada detalhe arquitetônico do prédio, me fez não querer mais sair dali, da praça que, aliás, não traz boas recordações. A antiga Opernplatz, hoje, Bebelplatz (assim denominada em homenagem ao fundador da Socialdemocracia na Alemanha, August-Bebel) foi o lugar em em em 10 de maio de 1933, aproximadamente 20.000 livros de autores comunistas, liberais e autores críticos ao sistema de Hitler, foram queimados ali.

Desde 1995, uma instalação do artista israelense, Micha Ullmann, em forma de uma estante branca e visível no subterrâneo através de uma camada de vidro grosso, relembra o tempo do capital mais escuro da história da Alemanha. A beleza da instalação não instigou a alienação. Durante todo o nosso tempo ali, perdi as contas de quantas pessoas passaram pela instalação, fotografam, discutiam, comentavam.

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1736 – ©Johan David Schleuen                                  1900  ©Arquivo Federal/Bundesarchiv

A Basílica de Berlim (Berliner Dom)

Com uma história arquitetônica (para dizer ao mínimo) movimentada que nos remete até ao século XV e que passa pelos estilos Alto Renascentismo, barroco e classista, com o toque de vários arquitetos e de vários estilos, a igreja que iniciou como católica, depois se tornou o centro da religião evangélico luterana na Alemanha. Sempre durante o “Festival das Luzes” a basílica é um dos points mais visitados.

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Devido sua forma e seus nuances, sua arquitetura se mostra igualmente um desafio e um deleite para os designers e programadores.

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O cartão-postal

Mais claro que o cartão-postal da cidade, não poderia faltar, mesmo exibindo bem menos público do que a Basílica. A dramaturgia da sequência de 6 minutos mostra grande parte da história de Berlim fazendo do Portão um monte de areia, onde a história é escrita: a mão.

As variações: Teve o portal como Rádio, como pilastras de água e o escanbal. A Quadriga, monumento que mostra a “Deusa da Vitória”, e que exibe a própria numa carroça puxada por 4 cavalos foi a cereja do bolo. Por vezes iluminada em prata, por vezes em ouro. Um deleite.

A propósito Quadriga…

Nas batalhas travadas simultaneamente em 14 de outubro de 1806 em Auerstedt e Iena, o então imperador francês que supervisou pessoalmente as tropas, contava com 90 mil soldados frente a 44 mil prussianos. A batalha dos prussianos foi perdida e Napoleão não deixou barato. Botou o pé na estrada para a triunfal entrada em Berlim, capital da Prússia. Enquanto o Rei Frederico Guilherme saia fugido para Königsberg, leste do país, Napoleão que era useiro e vezeiro de ir roubando monumentos e estátuas por onde passava, em 1808 roubou a Quadriga, empacotada em 12 caixotes para Paris. Ela, e outros “souvenirs” adquiridos pelo imperador estariam planejadas para integrar o acervo do “Museu Napoleão”, que acabou não se concretizando, assim como,  bem mais tarde, a sonhada e megalomaníaca capital “Germania” de Hitler,, também só ficou na prancheta de seu arquiteto preferido: Albert Speer.

Outrora era Napoleão que ia se apropriando de monumentos e estátuas. Depois foi a vez de Adolf Hitler queimando obras literárias e edições históricas de várias obras que, com seu regime bárbaro além de ter sido responsável entre tantos outros crimes de bárbaros, também por 80% de destruição da cidade de Berlim. Cultura, acervos culturais e patrimônios da humanidade nunca foram prioridade de ditadores e de antidemocratas. A situacao na Síria mostra que o inglês Sting estava certo quando no seu LP “Nothing like the Sun” gravou a música: “A História não nos ensina nada“. (History will teach us nothing).

Somente 1814 a Quadriga e Vitória encontraram o caminho de volta para casa. Porém, em alto todo, 16 caixotes que precisaram de um mês até chegar ao Castelo de Grunewald, onde foi armazenada. Mesmo que a atual  Quadriga não seja a original, que está guardada no arquivo de tesouros culturais da Fundação de propriedades culturais da Prússia.

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Grand Finale

Menção “Muro de Berlim – 1961-2016. Um presente para o Selfie obrigatório foi a escrita final “Berlin 2016”. 

De fato esta edição do “Festival das Luzes” que termina  domingo (16) ficará na memória de muitos, ainda durante muito tempo.

As fotos do artigo, concernentes ao “Festival das Luzes” foram disponibilizadas ao Blog por Christian Könneke.