Futebol de Luxe: Borussia Dortmund jogando em casa contra o Real Madrid

Fátima Lacerda

27 de setembro de 2016 | 15h11

Borussia

Berlim tem um invejável número de grupo de torcedores de clubes espalhados pelo país. Existe uma verdadeira cultura de preservação da torcida e um hábito sagrado em se encontrar em grupos para torcer pelos times “de longe”.

O diretor Martin Zeising eternizou essa cultura futebolística no filme “Ferne Liebe” (Amor distante”) filme que foi exibido na edição 2016 do festival “11 mm “, focado na temática do futebol e que tem como  parceiro de longa data, o CineFoot, festival do mesmo formato e itinerante nas principais capitais do Brasil.

Pra quem cresceu em Hamburgo ou em Dortmund pode ser doloroso ter que assistir o jogo na TV desde Berlim. Mas como os berlinenses não são de choramingar, os torcedores e torcedores fundaram associações. Até do próprio FC Kaiserslautern, clube que já teve seu tempo de glória, tem associação em Berlim e ainda com veia social. O fã-clube FC Bagaasch organiza torneio de futebol para refugiados. Na noite de hoje (27) os dois bares de torcedores do Borussia Dortmund, um no bairro de Kreuzberg e o outro no bairro de Wedding, norte de Berlim e o mesmo bairro em que nasceu Jerôme Boateng, o número 17 da Nationalelf, estarão arrebatados de fanáticos pelo time de Dortmund. Lugares serão disputados, não a tapas, mas quase isso.

Futebol muito além do gramado

Já não basta mais o foco nos 90 ou 120 minutos da partida. No pós-globalizado, no qual não se vive sem Instagram, a chegada no estádio, a passagem pelo túnel, o alinhado das camisas e chuteiras no vestiário, tudo é importante. Também o post do microfone deitado no campo ou uma criancinha brincando de repórter com a camisa do time sobre o qual se faz matérias. O cult praticado ininterruptamente sobre as figuras de Neymar, CR7, Ibrahimovic, esses que oferecem um banquete para os fotógrafos.

O Mario Balotelli foi tirado da turma dos caras e bocas. O Enfant Terrible agora amarga o ostracismo no FC Nice juntamente com o brasileiro Dante (ex-FC Bayern e VfL Wolfsburg) e não mais interessa, já que o fator sucesso é determinante no instrumento marqueteiro. A exceção nesse jogo estratégico é o argentino Messi, isento de qualquer apelo sexual e que abdica de carrões importados e coleção de modelos e o Suarez. Esses dois feios que doe, mas jogam muito.

O jogador mais aperfeiçoado no quesito em auto-marquetear sua carreira não é, como se poderia supor, o Neymar, mas sim o Mesut Özil, o jogador do FC Chelsea. Na época em que namorava um tipo ex-bbb Mandy Capristo não havia um aniversário, onde a mesa do bolo não fosse postada. Assim um tipo de Luana Piovani com o (ex) maridão surfista que exibiram seus momentos como numa vitrine de uma lanchonete. Özil também se separou da aspirante de cantora Capristo e jurada de programa de calouros, mas orientado e monitorado por uma agência de publicidade, continua na estratégia em aumentar o valor do seu passe e se manter, permanentemente, em foco. Quando postou foto de peregrino na cidade de Meca, Özil angariou a ira nas redes sociais, já que a cotação do Islã, ainda mais sendo praticado assim sem medo de ser feliz, está muito baixa da Alemanha. Nesses tempos, não é popular sair do armário, principalmente no âmbito religioso, mas como tudo é Marketing, Özil conseguiu transcender esses percalços. Depois de passada a onda nas redes, tudo voltou ao normal.

Ainda forcando em estratégia marqueteira: Marco Reus, um jogador que vive contundido, não participou na Copa de 2014, não participou da Eurocopa neste ano e mesmo assim: Reus continua sendo estilizado, especialmente no Brasil, por ter dito “Nein” para o arquirrival FC Bayern.  Reus não tem nenhuma prática de jogo e não goza de um terço de atenção da mídia alemã como na mídia brasileira. Porém, para ilustrar capa de jogos virtuais, o Marco é um prato cheio. Para ser usado como garoto-propaganda, ainda serve.

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Clubes administrados como empresas

Até os dois clubes de futebol mais rebeldes do país e que se encontram na segunda divisão também tiveram que mudar seus perfis de “anticomércio”. Depois de quase sucumbirem na miséria financeira, tanto o St. Pauli, de Hamburgo, e o 1. FC Union de Berlim na pessoa de seus diretores tiveram que mudar o rumo da carruagem. Um dos passos foi fecharem contratos de patrocínio, ambos até 2019. O St. Pauli com o provedor de redes de celular, o Congstar, e o 1. FC Union com um produtor de cereal, Layenberger, ambos contam com valores por volta de quase uma milhão de euros e para o chefe clube berlinesnes, só o céu é o limite: “Queremos ousar o passo de uma marca regional para uma nacional”, alegou.

Futebol de luxe e a muralha amarela

#echteliebe (amor verdadeiro) é a permanente #hashtag do clube de Dortmund que, na noite de terça-feira, no jogo de ida contra o Real Madrid joga em casa. Isso significa um apoio sinistro das várias correntes de torcidas que, juntas, formam a muralha amarela, ela que já alcançou tanta fama no exterior que também é usada como um instrumento de Marketing. Vale mencionar que é o Borussia Dortmund e não o FC Bayern que tem o maior número de torcedores espalhados pelo mundo, diz a pesquisa divulgada pela Federação Alemã de Futebol (DFB, na sigla).

Durante todo o dia, as redes sociais estão bombando com prognósticos, estatísticas, supersticioso.

Desde 2012 o real não ganhou do Borussia nem uma vez, quando esse jogava em casa no Estádio Iduna Park (ex-Estádio Westfallen).

Os dois clubes que pertencem à nata do futebol europeu se confrontam, na partida de ida, num momento em que a equipe de Borussia ainda está se adaptando. Muito dolorosa foi a saída do maestro da defesa, Mats Hummels. Mais dolorosa ainda a saída para o clube arqui-inimigo, aquele que eu chamo de „fração da calça de couro“.

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O fim da modéstia?

Desde que iniciou no cargo de técnico do Borussia, Thomas Tuchel (ex- FC Mainz) é só elogios para os adversários: seu preferido era Pep Guardiola e, para o desespero dos torcedores do clube amarelo e preto, não poupava elogios antes de partidas decisivas, como a valendo a Taça da Alemanha, partida habitualmente disputada no final de maio no Estádio Olímpico de Berlim. Fair Play, é necessário, mas a rasgação de seda pro time adversário, ainda mais se esse time é o da „fração da calca de couro“ custa paciência dos torcedores do Borussia.

Em coletiva de imprensa antes da partida e uma coletiva cercada de teorias, Tuchel foi confrontado com a afirmação de que CR7 não estaria em boa forma: „

Quem avalia isso? Quem constata isso? Isso será mesmo na partida relevante?” e acrescenta: “CR7 é um dos melhores jogadores do mundo. Um verdadeiro vencedor, que em qualquer fase do jogo está apto a ajudar sua equipe, seja através de sua presença ou de sua aura“, elogiou Tuchel e declarou „Temos que esperar o melhor Real Madrid possível“´ e desejou um jogo “cheio de possibilidades” para a sua equipe. Decerto que ainda falta muita sintonia na nova equipe do Borussia, mas parece que modéstia ainda será a pilastra do discurso do técnico do Borussia. Nessas horas, e nao só nelas, bate uma tremenda saudade de Jürgen Klopp, que tinha cabelo nas ventas do nariz e uma garra de vencer, contagiante, para dizer ao mínimo. Porém, como a vida (e nao a fila) anda, o carinhosamente chamado de Klopp está feliz com outro amor, na Ilha, comandando os Reds no FC Liverpool.