Governo alemão de portas abertas e a chance de uma selfie com Merkel

Fátima Lacerda

29 de agosto de 2015 | 09h48

É tradição no último fim de semana de agosto, antes do reinício das aulas nas escolas de Berlim e do fim das férias parlamentares. O governo alemão abre as portas de seus ministérios. Pessoas muito capacitadas explicam sobre o trabalho das diferentes pastas. O ponto alto do fim de semana chamado “Tag der offenen Tür” é a chancelaria federal, um prédio quadradão que foi concebido pelo ex-chanceler Helmut Kohl, que cultivava um fetiche em exibir claras hierarquias, tanto que era preciso descer uma rampa inteira para conversar pessoalmente com a sua secretária. Como os berlinenses não gostaram nada do feito arquitetônico, usando o indispensável sarcasmo apelidou o prédio de “Máquina de lavar” (Waschmaschine, em alemão). Nesse prédio, localizado estrategicamente na “vértebra governamental”, trabalha a mulher mais poderosa do mundo que fará, no domingo, as ordens da casa e o fará com uma disciplina prussiana.

A fila em frente à chancelaria é sempre enorme. É preciso entregar a bolsa, depois da visita, apanhá-la, mas como os alemães cultivam um estranho fetiche com filas, isso apresentará qualquer empecilho. A parte do abacaxi que a chanceler terá que descascar é que esse fim de semana das portas abertas não poderia mostrar uma pior fotografia do governo. Não é de agora que Merkel anda devendo aos alemães e aos que chegam pedindo ajuda, um posicionamento claro e nítido contra o verdadeiro terror que está sendo executado com os refugiados e com os lugares onde eles estão abrigados, sem falar na potência das redes sociais em recrutar pseudo-patriotas que, da forma mais oportunista possível, decidiram sair do armário e se mostrarem “patriotas” ou “cidadãos preocupados”, recitando “Eu não sou nazista/radical de direita…Mas…”

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A dramaticidade das 3 últimas semanas, com abrigos sendo incendiados quase diariamente, colocou Merkel, para dizer ao mínimo, em saia justa.

A chanceler, que sempre segue a estratégia de ficar na encolha até que uma pauta saia “naturalmente” da mídia”, desta vez, não teve saída. Recém-chegada da visita de 3 dias à Brasília na sexta-feira (21), Merkel já deparou com neonazistas na cidade de Heidenau, região da Saxônia (leste do país) que protagonizaram protestos violentos que se estenderam por  2 dias além de mostraremo despreparo da polícia em conter animais ferozes, movidos pelo ódio do racismo.

Ainda na noite de domingo (23), um usuário com o nome de XX Heidenau postou o vídeo que mostra o nível de animalidade desses auto-batizados patriotas. Depois que constatou o imenso número de cliques e se de seu conta da abrangência, ele o eletou. Porém, o membro do partido socialdemocrata da região da Saxônia, que com seus assessores está sempre de olho no que é postado na internet sobre o prisma do racismo, salvou o vídeo e prestou queixa na polícia. Agora é esperar que a pressão da mídia e resultante dela, a vontade política, torne possível encontrar desses criminosos.

https://www.youtube.com/watch?v=bthhGY6hVwk

Pressão midiática

Somente depois de teimosa e renitente pressão da mídia, Merkel anunciou uma visita ao abrigo dos refugiados em Heidenau. Antes dela e com ambições de ser o sucessor de Merkel, o vice-chanceler e ministros da economia já havia marcado presença no local. Porém nada dessa medida de impacto midiático, funcionou. Nos dias seguintes, os abrigos continuaram sendo incendiados. O terror, que lembra as tragédias das cidades de Rostock-Lichtenhaben (1992) e Hoyerswerda (1991), onde também o ódio pelo estrangeiro, pelos vietnameses e refugiados desafiou os órgãos policiais e o Estado de Direto, já chegou perto de Berlim. Na cidade vizinha de Brandemburgo foi incendiado um galpão de prática de esportes que estava planejado a virar um abrigo para refugiados. A policia já confirmou que o incêndio foi intencional, mas ainda apura se houve “motivação racista”. 

Uma Selfie com Merkel

Decerto que a esmagadora maioria dos visitantes da chancelaria federal terá como prioridade número 1, ver a chanceler de perto, em carne e osso e, caso as câmeras de TV estiverem por perto, angariar uma selfie com a mulher mais poderosa do mundo.

Para alemão ver

A ideia de abrir os ministérios é simpática, mas suscita a ideia de um tomar posse de um espaço físico. Claro que é bacana e, para muitos que vem do interior do país, poder chegar em casa contando “histórias da capital”. No ministério da defesa, visitantes poderão entrar na cabine e fazer um voo simulado. No Ministério Federal da Cooperação Econômica e do Desenvolvimento, que estará aberto somente no domingo, haverão “iguarias de todas as partes do mundo” e música de bandas internacionais. Porém tudo isso não tem quase nada a ver com política, e exatamente isso que Merkel intenciona. “Tomar banho” na multidão, angariar pontos positivos para o seu gabinete e não ter que se posicionar sobre nada.

Na segunda-feira (31) Merkel entrará na “cova dos leões”. A coletiva de imprensa para fazer um balanco sobre o governo foi adiada pela própria Merkel, em cima da hora e pouco antes do início das férias parlamentares seguindo assim a sua estratégia de sempre: Se “confrontar ” com a imprensa só quando isso se faz impreterivelmente necessário, mas a conta não fechou. Nessas 6 semanas que passaram, a situação calamitosa do país que se encontra numa mistura fatal de ignorância e disputa ideológica, se agravou tremendamente. Nem mesmo o calculismo merkeliano poderia desenhar o cenário que se faz visiível na Alemanha nessas semanas e faz recordar capítulos da época mais escura da história. 

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Merkel sendo alvo de várias críticas pela “falta de soberania” no lidar igualmente com a pólvora política e a pauta onipresente que é a dos refugiados (sejam eles em abrigos incendiados, naufragados na costa do Mar Adriático ou os 71 achados mortos no caminhão de frigorífico na Áustria).

A propósito alvo de críticas: A revista satírica “Titanic” publicou na capa de sua mais nova edição, uma caricatura de Merkel e seu Ministro Wolfgang Schauble, zoando com os gregos

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Já o programa satírico Extra 3, inspirado no filme “O Silêncio dos Inocentes”, zoou a chanceler no Twitter.

O silêncio da Merkel“.

SchweigenvonMerkelCM7IXiKWsAAAzCB-300x150.jpg©Extra3

No domingo (30), que promete ser a despedida do verão berlinense com a temperatura de 33 graus, o foco será bem outro: tudo menos política. Bem do gostinho de Madame Merkel, apelido que a chanceler ganhou da imprensa francesa sempre quando ela define o plano a ser seguido.

Uma frase memorável de Chico Buarque e eternizada “Outros (Doces) Bárbaros”, dirigido por Andrucha Waddinton, diz: “Com Milton e Bethânia, você não discute, você obedece”. Frase que pode ser transferida, sem escalas, para Madame Merkel.

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