Governo de Angela Merkel: um eterno balança mas não cai e o inimigo mora ao lado

Fátima Lacerda

15 Setembro 2018 | 13h48

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O volume do poder da chanceler alemã sofreu imensa erosão nas eleições de setembro de 2017 , depois de perda vertiginosa de percentual de votos para o seu partido (quase meio milhão de votos), o CDU e depois de terem sidos necessários seis meses para formar um governo, algo até então, inusitado na história da Alemanha. O processo de formação de governo faz uma roleta russa das mais vertiginosas, parecer brinquedo de criança.

Entre o velho e o novo governo com a chanceler no seu quarto mandato, não há muita diferença desde sua posse em 2005. A picuinha que parte sempre do chefe do partido bávaro, o CSU, continua a mesma, só toma mais dramaticidade do que em tempos passados. Ele é o verdadeiro opositor de Merkel, o inimigo que mora ao lado. A ex-aprendiz e Protegè de Helmut Kohl (1982-1998) sempre se mostrou avessa a conflitos e um despreparo visívelpara resolvê-los. Com esse solo fértil, Seehofer vai tirando capital político às custas da chanceler. Nas últimas semanas o capítulo da “Novela Seehofer” ficaram mais dramáticos.

Em 14 de Outubro, um domingo e por acaso o dia do meu aniversário, os bávaros marcarão presença nas urnas. O futuro político de Seehofer está trançado com esse dia.

Atualmente, a guerra de forças de Seehofer envolve Hans-Georg Maaßen, seu subordinado e no comando do Serviço de Proteção a Constituição e também conhecido como o Serviço Secreto Alemão, o mesmo que já fracassara por completo no escândalo da NSA, envolvendo o grampo do telefone celular de Merkel em 2013.

Durante os dias de Guerra Civil na cidade leste de Chemnitz ( o Blog reportou), Maaßen, que já deu vários tiros no pé como chefe de um dos mais importantes órgãos da Alemanha, está envolvido num escândalo que está fazendo tremer o governo em Berlim.

A cronologia

As imagens de Chemnitz, cidade no leste do país, correram o mundo e ninguém, em sã consciência, seria capaz de negar, pior do que isso, taxá-las de Fake News. Foi isso que o chefe do Serviço de Proteção da Constituição declarou ao tabloide Bild: “Não consta nenhuma prova que teria havido uma *progrome e caça a estrangeiros em Chemnitz, assim como não há provas de que os vídeos que cursam na internet sejam verídicos. Ao meu ver, tudo indica que essas imagens foram intencionalmente postadas para distrair a opinião pública sobre o assassinato” (cometido contra alemão Daniel Hillig e seus dois colegas).

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Em depoimento na quinta-feira (11) na CPI do Parlamento, Maaßen tentou relativizar afirmando que foi “mal entendido” em sua declaração ao jornal. Seu chefe, Horst Seehofer e que ocupa as pastas dos Ministérios da Pátria e do Interior se mostrou solidário com o seu subordinado evitando demiti-lo. Além dele, a chanceler poderia também demitir Maaßen, mas implicaria em “desafiar” Seehofer e arriscar uma crise ainda maior no governo. Merkel faz vista grossa para muitas coisas e muitos acontecimentos graves no país, mas é inteligente aquele que sabe com quem entrar numa briga e com quem não. Merkel, mesmo em detrimento a sua soberania frente aos eleitores e aos partidos do próprio governo, segue firme em sua postura de vista grossa, de “esperar a tempestade passar”. No caso do galopante avanço da direita nacionalista e populista no país, o detrimento será da democracia como um todo num país que nunca esteve tão divido  e que vem mostrando claros sinais de que a estruturas fundamentalistas-populistas e com fortes conexões formam um conglomerado que une membros de organizações da extrema direita, que chegou no centro da sociedade e vem quebrando tabus. Na retórica pronunciada no parlamento, mas também nas ruas.

A saudação hitleriana, o chamado Hitler Gruß, previsto como crime pelo artigo 86 § 1 e  2 do Código Penal (StGB, na sigla), já não é um tabu, como mostram vários videos nas ruas de Chemnitz e como mostra reportagem no programa Spiegel TV, que mostra a cooperação entre membros do partido “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla), grupos neonazistas e membros do movimento “PEGIDA”, criado originariamente na cidade leste de Dresden e que se define “Patriotas Contra a Islamização do Ocidente”.

Na corda bamba

A afirmação de Maaßen, de que o video com imagens de Chemnitz seria “Fake” mesmo antes de sua repartição tê-lo investigado. Durante seu depoimento na CPI, Maaßen afirmou ter sido “mal entendido”, ao mesmo tempo em que alegou que daria a “entrevista de novo”. Como tentativa de justificar o tiro no pé em forma de incompetência ele afirmou que não queria “aflamar ainda mais o clima no país”.

Um chefe com tanta importância precisa ser transparente em suas declarações e meticuloso em suas investigações. Com a entrevista ao jornal Bild, Maaßen minimizou os acontecimentos em Chemnitz, esses que, de fato, mostram um país dividido e uma boa parte da população com ódio da chanceler e com a crença abaixo de zero em instrumentos democráticos. O próprio Maaßen teve que ouvir severas críticas, entre elas,  “simpatizar com a extrema-direita”. O conglomerado de TV aberta, ARD, descobriu que Maaßen também divulgou para representantes do partido “Alternativa para a Alemanha”, dados estatísticos de criminalidade de um dossiê que ainda não havia sido apresentado à imprensa, priorizando assim, os membros desta partido antes que o parlamento fosse informado. Só este fato já deveria ser suficiente para que Maaßen fosse demitido, mas para seu chefe, Seehofer, tem muita coisa em jogo.

Depois do depoimento de Maaßen na CPI e não ter convencido nem mesmo membros de partidos aliados, a crise do governo alcançou seu ápice. Enquanto os social-democratas (SPD) não veem outra saída a não ser a demissão de Maaßen, botam a boca no trombone no Twitter e ameaçam romper a coligação, o chefe do CSU da Baviera, desesperado com as eleições regionais e com a paúra em perder a maioria ainda existem naquela região, ele, assim como Merkel, faz vista grossa e espera a poeira passar no melhor formato de que quanto mais você mexe, mas a coisa fede. 

Uma entrevista gera o desdobramento de mais uma crise num governo que, apesar de excelentes números no setor da economia, mostra um país divido e governantes somente equacionando a sua permanência no poder, em detrimento da democracia e da credibilidade dos eleitores na política como um instrumento de mudança para melhor. O fenômeno de perda de realidade, de afastamento da base nao está somente restrito à política. Também no futebol alemao, a cobra já está fumando há muito tempo. A Federação de Futebol (DFB, na sigla) se tornou motivo de constante chacota por parte dos torcedores e de “imprensa negativa” por parte dos meios de comunicação. Mesmo assim, o presidente que nada entende de futebol, colou na sua cadeira com a teimosia que ele já conhece da chefe do seu partido e do seu estilo de governo.

A conversa para equacionar os ramos dessa crise atual e o destino de Maaßen, e que aconteceu na Chancelaria Federal da última sexta-feira (14), foi adiada para a dia 18/09 sobre o destino de Maaßen e sobre a capacidade do governo em administrar crises.

A opinião unânime dos analistas políticos é que seria melhor para todos que Maaßen renunciasse, Assim ele possibilitaria Merkel em continuar com a coalizão entre CDU, CSU, SPD e sem que os membros do governo tivessem que “sujar as maos”. Mas assim como Seehofer, Merkel é bem improvável a renúncia de Maaßen.

Essas e tantas outras crises anteriores no gabinete Merkel mostram, de forma crassa, o teor de erosão do poder da chanceler que já vem se arrastando já no início do seu quarto mandato que acaba de iniciar.

 

*O termo pogrom tem múltiplus significados mais frequentemente atribuída à perseguição deliberada de um grupo étnico ou religioso, aprovado ou tolerado pelas autoridades locais[3], sendo um ataque violento maciço a pessoas, com a destruição simultânea do seu ambiente (casas, negócios, centros religiosos). Historicamente, o termo tem sido usado para denominar atos em massa de violência, espontânea ou premeditada, contra judeus, protestantes, eslavos e outras minorias étnicas da Europa  (Fonte: Wikipedia)