Grécia x UE – O iminente fim de uma disputa primeiramente ideológica

Fátima Lacerda

03 de julho de 2015 | 08h38

Os “avisos” de (Angela) Merkel, (Martin) Schulz, presidente do parlamento europeu (Jean-Claude) Juncker, Presidente da Comissão Europeiae (Wolfgang) Schäuble, Ministro Alemão das Finanças não obtiveram o resultado almejado em formato de catequização, botar governo grego para “andar nos trilhos”.

Durante no mínimo dois anos a chanceler alemã repetia como um mantra a frase: “Se o Euro fracassar, fracassa também a Europa”, o projeto da “Casa de Valores Comuns” idealizado pelo ex-chanceler Helmut Kohl e pelo ex-presidente François Mitterrand, botando fim em uma rivalidade sentida infinita entre os dois países e para construir uma união europeia sem guerra para as futuras gerações.

Com o mantra em todos os seus discursos, Merkel, que é craque no executar de estratégias meticulosamente elaboradas, contava com o apoio dos eleitores movidos pelo medo que a casa caísse. Vislumbrando um cenário dramático, a chanceler garantia o respaldo eleitoral sempre que o parlamento votava “mais um pacote” para a Grécia sem perder um nada de simpatia por partes dos eleitores e se mantendo – invicta – no primeiro lugar na lista de políticos com maior percentual de respaldo, como ratifica todas as sextas-feiras o programa da rede aberta ZDF. o  “Politbarometer” (Barômetro político).

A casa caiu

Os políticos Anti-Euro se veem ratificados em suas inabaláveis certezas de que “os portugueses e os gregos”, ao entrarem para a UE, iriam jogar tudo no ventilador. Nessa justificativa de caráter pseudo-econômica, reinava a antiga rixa entre os países do norte e do sul, motivada por uma fronteira que só existe na mente de políticos conservadores e vítimas de crônica perda da realidade. Que o país verde, a Irlanda, também teria grandes dificuldades financeiras e as iria superá-las, não faz parte do cenário do meio-copo-vazio dos “Céticos do Euro”, mas que bom (!) que a Grécia oferece o adubo para servir de bode expiatório.

Há meses, a mídia alemã se deixa levar pela histeria motivada pela tradiconal  síndrome do copo vazio e de que a ordem mundial vai desmontar logo ali na frente. Leitores do tabloide Bild acreditaram piamente que cada euro saído dos cofres alemães vai direto parar na conta bancária dos “gregos ociosos”. Não deixando barato na trilha polêmica e para polemizar ainda mais, o tabloide realiza o seu “Referendo Grécia“. Os leitores devem votar “sim” ou “não” se  “nós devemos continuar apoiando os gregos com a liberação de milhões de euros”.

Griechenland1472551374-thom-feeney-1bjTo7ra7.jpgScreenshot Facebook

A crise e a impotência dos políticos dos dois lados e que se encontram numa permanente medida de forças, instiga o “Do it yourself” para ajudar no combater da crise. Thom Feeney, inglês de 29 anos, criou na terça-feira (01) no portal indiegogo.com uma petição para angariar fundos para a Grécia, mais precisamente a quantia de 1,6 bilhões de euros, o valor da parcela que a Grécia deve ao Bando Mundial. “Eu imagino que as pessoas pensam que isso é uma brincadeira, mas nesse caso, o Crowdfunding pode realmente ajudar”, diz ele otimista.

Quando os políticos fracassam pela vaidade, teimosia e acirrada disputa ideológica, é a hora dos cidadãos europeus mostrarem iniciativa. A de Feeney é só um exemplo de como a política estabelecida fracassa no empresariado de crises, onde Merkel mostrou várias vezes ser exímia. No caso da Grécia, entretanto, pela ingenuidade de achar que iria “catequizar” o premiê grego, entre outros, o convidando a Berlim e fazendo as honras da casa, a chanceler fracassou por completo. Assim veem de forma (quase) unânima os analistas políticos. A razão disso é que “seu” Ministro das Finanças, há tempos, já contava e favorizava a saída da Grécia da zona do Euro, o que causou “um clima de frieza” entre os dois políticos que se conhecem e se aliaram num casamento de conveniências desde 1999.

Toda a racionalidade e o comedimento necessários especialmente em momentos de crise, foram por água abaixo em diversos capítulos de uma novela aparentemente interminável. A histeria já chegou até mesmo ao setor de turismo, a maior fonte de renda da Grécia quando alemães se mostram inseguros devido à situação de rixa em caso de viagem de férias ao país no Mediterrâneo. Temem que ao se revelarem alemães, serem destratados De fato, os gregos percebem o governo Merkel como principal sujeito, mais do que isso, como locomotiva da política de austeridade regente e levada à mão de ferro na UE. Essa medida tem origem intrínseca na percepção merkeliana de como um governo deve funcionar. Merkel foi socializada num regime comunista e também mão de ferro.

Em sua primeira campanha eleitoral, Merkel criticava duramente o “viver as custas das próximas gerações ” e almejava o  um orçamento mento federal sem novas dívidas e finalmente sair do vermelho. Dez anos depois de assumir o poder, Merkel atingiu seu objetivo. 2015 é o primeiro ano depois da Unificação Alema (1990) em que o orçamento não é baseado no fazer novas dívidas para a União. A  taxa de desemprego, outro problema mór no país depois da Unificação, caiu em índice de recorde. A estatística atual, divulgada no dia 30 de junho, é de 6,2%.

Austeridade para a Europa

O que Merkel realizou com sucesso na política interna, ela projetou para a UE. Todo o conflito como uma novela esticada nos capítulos pela grande audiência do tema, é de cunho ideológico, mas quase nenhum meio de comunicação ousa em mencionar e muito menos analisar dessa perspectiva. É mais fácil para a imprensa amarela, demonizar os “vagabundos grego” e um país desgovernado. Repórteres e repórteres aparecem ao vivo e em cores em todas as horas do dia em frente às ruínas de Atenas ou exibem imagens de gregos mendigos, tomam depoimentos de atuantes no setor de turismo avisando que, “em breve, não haverão mais turistas”. A vaidade midiática de muitos jornalistas está em primeiro plano e não uma análise fundida e independente. O User, como diria William Bonner “não entende”, e como no JN, se deixa levar pela opinião dos âncoras.

Recentemente, num dos “capítulos” da novela Grécia X UE, um membro do partido CDU, o partido de Merkel, deu o ar de sua graça na Associação de Imprensa Estrangeira (VAP, na sigla em alemão), onde estão os correspondentes estrangeiros cobrindo na capita. Logo depois de turbulentos debates na fração do CDU, ele foi “informar à imprensa o clima regente na bancada”. Vale lembrar que o dito cujo, pau-mandado de Merkel nem membro do governo é e o que ele disse, não acrescentou nada de novo, mas foi a leitura da cartilha que lhe foi dada pela chefe. Nada que não tivéssemos ouvido anteriormente de âncoras, repórteres, analistas políticos e econômicos.

Se a Grécia não cumprir o acordo de pagar as parcelas que venceram em breve” o país vai sucumbir num caos”. Perguntado por mim por que ninguém da nome aos bois e aceita que entre a Grécia e UE, especialmente a Alemanha como economia mais robusta do velho continente ocorre uma luta de ideologias. “Não é absolutamente uma luta de ideologias. Na UE temos governos de várias tendências, meio esquerda, meio direita, etc. Retrucou me explicando como a coisa funciona.

O referendo agendado para o próximo domingo (05) é a prova mais cabal dessa luta ideológica. As pesquisas divulgam uma corrida acirrada entre as tendências entre continuar na zona do Euro e deixá-la. Tsipras apelou em discurso nacional via TV para que os gregos votam contra a política da UE.

Recordar é viver…

Em janeiro passado, na noite da vitória do Syriza, o Alex Tsipras apareceu frente aos seus aliados e eleitores como o Robin Hood europeu. Numa das faixas gigantes estava escrito: “Gute Nacht, Frau Merkel”, frase que significa algo como “Já deu”, “Já foi!” Se essa faixa gigante nao ratifica o clinch ideológico entre a UE e a Grécia, outras coisas o fazem: a capacidade de dissimulação do primeiro-ministro Tsipras, a aura intencional de James Dean da política do Ministro das Finanças, Varoufakis, só para citar algumas. No contexto do plebiscito convocado por Tsipras para que os gregos decidam se querem permanecer na zona do Euro, Varoufakis já avisou: “Se perdermos o plebiscito eu vou renunciar”. Lá de onde eu venho (e não só de lá) isso se chama chantagem, caso esse que não é de exclusiva fabricação brasileira ou grega. O ex-chanceler Gerhardtita Schröder não pestanejou quando chantageou seus colegas do partido, quando encenou a “Votação de Confiança” em 2005 no parlamento alemão. Caso ele não fosse apoiado em sua decisão em enviar tropas militares alemães para a Guerra no Afeganistão, ele renunciaria. O resultado seriam novas eleições e a probabilidade de perder a maioria, o que aconteceu logo depois. Até hoje, os adeptos e convencidos sobre a qualidade do sistema de democracia parlamentar na Alemanha, não o perdoam por essa medida oportunista.

Um dos únicos jornalistas que deu nome aos bois foi Rainald Becker, da Rede aberta ARD: “Caso os gregos votem pela permanência na zona do Euro, essa batalha ideológica e insana, terá um fim e o Varoufakis vai poder ganhar uma boa grana com palestras em universidades de todo o mundo”.

Uma das cenas emocionantes no cenário apocalíptico, é uma menina grega de 10 anos, que escreveu uma carta aos pais e colocou toda a sua mesada no valor de 55 Euros à disposição. Um amigo meu comentou nesses dias que vai passar as férias na Grécia no mês de agosto. O meu comentário foi: “Vai sim, eles estão precisando de dinheiro”.

A pindaíba da UE em horário nobre

A fama de UE já chegou até aos ouvidos do Aderbal, personagem vivido pelo Marcos Palmeira em “Babilônia”. Em cena com Adriana Esteves que aos poucos tá mostrando mais e mais a “Carminha” dessa vez batizada de “Chicão, o Xerife da cadeira, ela sugeriu uma alternativa à de carregar a propina nas meias. “Você pode enviar esse dinheiro para a Europa”, disse ela. “Que nada, lá eles estão na maior pindaíba”, retrucou o corrupto prefeito de Jatobá.

O cenário GREXIT já não é mais algo macabro, mas está bem perto de se tornar realidade. Nessa altura da dramaticidade, quebra-se um tabu discursivo e o mantra merkeliano “Se o Euro fracassar, a Europa ftambém racassa”, se tornou irreversivelmente obsoleto.

Merkel não faz segredo que torce para que os gregos mostrem o cartão vermelho para a atual constelação de governo e espera, em poucas semanas, depois de novas eleições, ter que negociar com alguém que não seja a dupla buscapé Tsipras/Varoufakis.

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