Greve de maquinistas atropela o feriadão de Pentecostes e divide a Alemanha

Fátima Lacerda

19 de maio de 2015 | 20h27

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Outrora, os alemães debochavam dos franceses como “grevistas de plantão”. Greves gerais como praticadas na França e conhecidas no Brasil são “termo estrangeiro” no país de Schiller e Goethe.

O governo Merkel tem com mandamento número 1, estabelecer e administrar o sossego no âmbito social. Com isso, as manifestações de massa nas ruas diminuíram consideravelmente no governo da chanceler que acredita que “no âmbito do exercício político é preciso saber se calar”. Até nos últimos dias, mesmo com o estouro do escândalo envolvendo o Serviço Alemão de Inteligência, a BND e a Agência NSA que mostrou exibiu graves mazelas e fracassos de competência de Ministros no governo Merkel e levantou a questão do que Merkel sabia e quando, ela consegue ficar quieta até a tempestade passar sem maiores sequelas e sem qualquer perda de autoridade.

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O homem do bigode

O fim de semana de Pentecostes, um feriadão para alemão nenhum botar defeito e que inclui o esperadíssimo Carnaval das Culturas em Berlim com direito à desfile e tudo, é um dos mais esperados pelos alemães e pelos vizinhos europeus que vem pra Berlim exatamente nessa época. A agência de turismo Visit Berlin estima um volume de 2 milhões turistas no feriadão.

Nem uma semana após o fim da última greve, o sindicato anunciou no início de segunda-feira (18) que haverá outra greve. 3 horas depois, foi divulgado o início. O fim será anunciado somente 48 horas antes do término. O que ficou claro de primeira é o que todos temiam: a greve vai durar mais do que a última e vai atropelar o feriadão onde quase a Alemanha inteira está em trânsito.

Claus Weselsky, nesses dias o homem mais odiado do país, está num beco sem saída. Ao mesmo tempo que sabe que já perdeu essa luta, precisa manter a pose para continuar se legitimando perante aos membros do sindicato que conduz. A melhor coisa que poderia acontecer é a greve ser proibida pela justiça. Assim, ele sairia do beco como um herói, um verdadeiro Robin Hood lutando contra a poderosa Ferrovia Alemã, a Deutsche Bahn. A tentativa da DB de no encontro de hoje pela manhã (horário local) para evitar a greve

3% de diferença entre a oferta da diretoria da DB e o pleiteado pelo sindicato colocam o país em estado de tensão.

Nas redes sociais, os alemães não poupam críticas ao diretor. A mais arrojada foi a de um alemão no Facebook do tabloide Bild: “Homens com bigode acima dos lábios nunca fizeram bem para o nosso país“.

A DB prometeu a divulgação do “Plano de Emergência” para os trens regionais e inter regionais à ser disponibilizado no seu portal no dia de hoje (19).  Quem está ou estava com viagem já marcada, como a autora desse texto, não sabia se iria poder viajar. Isso é raro num país, onde o planejamento é um esporte muitíssimo bem praticado. O ditado popular “Planejamento é a metade do aluguel”, ratifica isso. O número de telefone disponibilizado gratuitamente serve para se certificar. Mesmo assim: ao ser perguntada se vale o escrito no Portal, a voz do outro lado diz: “Podem sempre haver mudanças de última hora”. Ao ser perguntada se essas “mudancas” significariam o atraso da partida ou se também incluem o cancelamento dos trêns, ela disse sim para os dois. Ou seja, até mesmo poucos minutos antes de sair para ferroviária e olhar no portal e constatar o trêm nao excluído, não significa garantia alguma. Por que então o trabalho de conceber a planilha?

Para mudar para avião é tarde demais. Ônibus, que tem sido uma procurada alternativa aos valores salgados dos trens, estão abarrotados. Nem mesmo o aumento das frotas e dos destinos, aliviou a necessidade súbita criada desde ontem (18). Alguns poucos do maquinistas gozam do status de funcionário público e consequentemente proibidos de fazer greve. Entretanto essa é uma partícula mínima, que assegura uma outra partícula mínima de que não haverá parada total dos trens.

A discussão sobre o “elevar do status” de todos os maquinistas a funcionários públicos é onipresente na mídia alemã das últimas semanas.

EVG – O outro sindicato

A disputa espelhada pela greve não é tanto para enfrentar a DB, mas para evitar que o outro sindicato, o EVG com mais de 100 mil membros, saiam com melhores salários dessa disputa. Cômico é que as negociações desse sindicato com a diretoria da DB nem vazam na imprensa, ninguém nem toma conhecimento, tal o grau de harmonia e sigilo em que elas acontecem.

A fatura não fecha

Na próxima sexta-feira, a câmara baixa do parlamento irá aprovar a lei que implementa que funcionários na mesma função não tenham salários diferentes, independentemente do sindicato a que pertencem. Como a EVG tem o maior número de funcionários atuantes na ferrovia alemã, serão os vencimentos desse sindicato que definirão os vencimentos dos funcionários a partir de julho deste ano.

Greves na Alemanha, exceto no setor ferroviário, são raras. Uma memorável foi em 01 de Fevereiro de 2008. A empresa responsável pelos transportes berlinenses, a BVG, executou uma greve que nunca houve antes e nem depois. Ônibus, Metrô, Bonde. Parou tudo. Táxi não havia motorista que parasse em algum sinal. Nesse dia, Berlim teve seu dia parisiense. Entretanto, o que o sindicato dirigido por Weselsky (GVL) está fazendo não “somente” prejudica a economia do país com um prejuízo de milhões de euros por dia, mas instiga o ódio dos passageiros, não por esses não acharem a greve algo legítimo, mas por saberem que essa luta já está perdida e que por questões de vaidade e para manter as rédias no poder do sindicato, Weselsky joga tudo no ventilador, instiga o ódio dos passageiros e compromete a credibilidade do sindicato como um todo.


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