Helmut Kohl (1930-2017): o chanceler obcecado pelo poder, o pai ausente e uma tragédia familiar

Fátima Lacerda

18 de junho de 2017 | 11h11

© Michael Urban/Reuters

Nesses dias, a imprensa europeia e por motivos óbvios, especialmente a imprensa alemã, tem como pauta principal, a morte de Helmut Kohl (1930-2017). O “Chanceler da Unificacao” e o “Arquiteto da União Europeia” vem sendo lembrado, homenageado pelos seus serviços prestados ao país.

Aquele que primeiramente foi subestimado enquanto a Alemanha tinha como chanceler o social-democrata Helmut Schmidt, representando da população do norte do país, um intelectual e um gestor de mão firme. Kohl era o caipira lá da região de vinhos de Rheinland-Pfalz e de uma cidade que, até então, ninguém conhecia. Oggersheim!

Me lembro ao chegar a Berlim no final dos anos ’80 a tempo de ver presenciar de corpo e alma a queda do Muro de Berlim, na minha escola de alemão, com professores social-democratas, as paredes eram decoradas com cartazes de sátira ao chanceler. Kohl (couve, em alemão) foi um banquete para a sátira política no país. Sua estatura de porte e sua cabeça de tamanho avantajado, fizeram a festa.

“O eterno chanceler”

Quando comecei a namorar o Christian e quando falamos de política pela primeira vez e o nome do chanceler surgiu, ele, que vem de uma família de social-democratas, na qual o Pai foi prefeito da província onde moram, disse: “Lachhaft” (Ridículo), quando se referiu ao político que governou a Alemanha durante 16 anos entre 1982 e 1998. Nesse meio tempo, sem muita escolha na época, pegou a então quase desconhecida Angela Merkel e seu o seu mentor e valioso instrutor. O estilo de governo da Merkel chanceler nao deixa quaisquer dúvidas que sua referência foi Konrad Adenauer, o primeiro chanceler da Alemanha depois de II Guerra Mundial, e Helmut Kohl, o “Eterno Chanceler”. 

O Caixa 2

No fim de 1999 quando Kohl já não mais estava no poder, estourou o escândalo da Caixa 2 do partido União Democrática Crista (CDU, na sigla em alemão), partido hoje, comandado por Angela Merkel.

Na época, foi aberto inquérito contra o ex-chanceler e Kohl teimou e bateu pé em não entrar na onda da delação premiada e divulgar o nome dos doadores de milhões de marcos alemães. No pacote contendo elementos do legado deixado pelo que foi marcado pela teimosia e por excelente capacidade estrategista (especialmente em neutralizar seus adversários) está também o ato criticável e inaceitável como colocar a sua palavra de honra acima da constituição e das leis do país que ele, na época, governava. Malas recheadas de dinheiro sendo entregues em estacionamento de carros para lobistas do setor de armas de fogo e outras lamas políticas mancharam a biografia do “Eterno chanceler”. Não foi a toa que na noite das eleições de 1998 o alívio que atravessou a nação como uma brisa de verão em pleno fim de outono foi ouvido por todos os cantos do país. A era Helmut Kohl havia terminado. Eu e Christian estávamos na festa do partido Verde. Ele, com uma jaqueta vermelha, cor dos socialdemocratas e eu com um casado verde, como se já tivéssemos adivinhado a coligação que viria a seguir, a do SPD com os Verdes e que teve Gerhard Schroeder como Chanceler e Joschka Fischer, dos Verdes, como Vice-Chanceler.

Tragédia familiar

Durante seu período de atividade política Helmut Kohl encenava as férias com a família, sua esposa Hannelore e seus dois filhos. Sempre no Lago Wolfgangsee na Áustria, Kohl, ainda longe dos tempos über-midiáticos em que hoje vivemos, já sabia muito bem manquetear e alimentar a percepção de valores do seu eleitorado, de uma família tradicional alemã curtindo férias. Porém, a realidade era bem outra.

O escândalo envolvendo o Caixa 2 do partido, na época sob o comando de Kohl fez tremer ainda mais o alicerce da família que ele gostava tanto de exibir como intacta e teria causado a piora do estado de saúde de Hannelore Kohl que sofria de uma alergia de luz e se confinava cada vez mais saindo de casa somente à noite e optando pela total isolação na época em que o terremoto envolvendo o caixa 2 e abertura de inquérito da Promotoria Federal. Enquanto isso, contra tudo e contra todos, Kohl, ainda como líder da oposição no parlamento da República Berlinense, se fazia ausente de casa em Oggersheim e, cada vez mais, se afastava da esposa, que na noite entre 04 e 05 de julho de 2001 cometeu suicídio através de overdose de soníferos. Nesse dia, Kohl estava em Berlim. Foi a arrumadeira que a encontrou deitada na cama.Na ocasiao da morte de Hannelore, o semanário DER SPIEGEL publicou a edição titulada: “A família Kohl. Um Drama alemão” que ainda iria ter o seu ápice bem mais tarde.

O abismo existente na família ficou ainda mais cristalino na época. O filho mais velho, Walter Kohl não recebeu do pai a notícia do falecimento, mas do seu escritório em Berlim. Depois de 7 anos vivendo sozinho e o inquérito da Promotoria concernente ao caixa 2 não ter dado em nada, fora uma grande mancha em seu incontestável legado. Ao mesmo tempo que Kohl entendeu a relevância histórica e a chance da Unificação das Alemanhas, o acaso também foi um protagonista nesse vento favorável.

Quebra de laços com os filhos

Depois de 7 anos vivendo sozinho, o ex-chanceler se casou com sua ex-referente atuante no Ministérios Federal da Finanças, uma mulher que, por toda a sua vida, venerou o chanceler, algo visível em sua apartamento, onde em todas as paredes se encontravam fotos de Helmut Kohl. Em 2008, no casório, nem seu filho Walter nem o mais novo Peter estiveram no casório. Na sequência, receberam um telegrama: “Nós nos casamos. Estamos muito felizes”, assinado Helmut e Maike Kohl-Richter”.

Segundo os boatos e testemunhas de ex-colegas de partido e amigos, foi Maike que conseguiu o isolar por completo para ter assumir o comando de cada passo como também da interpretação do seu legado. Parece coisa de paranoia, mas a notícia do tabloide Bild, que mesmo depois da exumação, o corpo do ex-chanceler “ficará na companhia de sua esposa” até ser enterrado, tem uma aura macabra e ratifica a inegável obsessão da viúva.

Na Alemanha, o enterro não é feito imediatamente ou mesmo 24 horas depois do falecimento. Em pessoas comuns, sem o bônus de ser mundialmente conhecido, existe um grande âmbito burocrático até o corpo ser liberado. No caso de Helmut Kohl, decerto, haverá uma cerimônia de luto que precisa ser organizada de forma logística em comum acordo entre a viúva do chanceler e o atual governo.

Pegando carona nas luzes do holofote

Jean-Claude Juncker é uma das figuras que mais se assemelham a uma caricatura de um “político barata tonta” ou aquele político que vai de acordo com o vento. Na manhã de domingo, (18) as agências citam Juncker: “Kohl merece uma cerimônia de luto em âmbito europeu e no que estiver ao meu alcance, eu irei ajudar a realizar“. A ingenuidade de Juncker não se exibe “somente” quando de trata de complexos problemas envolvendo os países membros da UE o fazendo o mais popular nas chacotas nas redes sociais e programas de sátira política, mas também quando ele quer pegar carona no holofote de “um grande europeu”, como ele se referiu a Helmut Kohl.

Filhos solitários

Os dois filhos do casamento de Kohl com Hannelore recorreram à emissoras de TV e aos livros com biografia da mãe. Neles, Kohl, o pai é citado como “ausente”, “frio” e que só teria em mente “o poder político”.

Sobre a morte do pai, Walter Kohl sobre na noite de sexta-feira (16) às 18 horas pelo rádio. Desde 2001, o ex-chanceler havia cortado, radicalmente, o contato com os filhos e também com os netos. Segundo Walter, em 2011 teria sido a última vez que ele teria falado com o pai ao telefone. Depois disso, teria sido impedido pela madrasta.

A culpa é de Merkel

Em entrevista publicada em 22 de fevereiro de 2017 no portal do jornal “Die Zeit”, o filho mais velho de Kohl faz graves acusações à protegè de seu pai e hoje a política mais poderosa do mundo.

http://www.zeit.de/politik/deutschland/2017-02/hannelore-kohl-selbstmord-walter-kohl-angela-merkel-vorwurf

Ná época em que estourou o escândalo envolvendo um Caixa 2, Merkel, em um artigo de sua autoria publicado no jornal conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ, na sigla), rompeu com Kohl, porém sem apelar que a opinião pública deixasse a família em paz. “Para mim, Angela Merkel tem grande participação na morte da minha mãe. Como política profissional Merkel sabia que, com essa declaração, ela iria causar uma avalanche que iria prejudicar a nossa mãe e a nossa família“.

Arquitetura para a eternidade

Acometido pelo poder e, correndo fora da política, Kohl queria assegurar sua eternidade, não “somente” nos livros de história, mas também nos de arquitetura. O prédio da chancelaria federal, apelidada pelos berlinenses como “Máquina de Lavar” teve sua influência, ele, um amante de hierarquias, mandou construir rampas infinitas entre um andar e outro, projeto executado pelos arquitetos Axel Schultes e Charlotte Frank. Na construção complementar do Museu histórico Alemão (DHM, na sigla), Kohl foi quem escolheu o arquiteto. O americano I. M. Pei.(Foto)

Em 1993, 4 anos depois da queda do Muro de Berlim, Kohl denominou o espaço “Neue Wache”, localizado na Alameda Unter den Linden, centro de Berlim, e que já obteve vários focos históricos ao longo de sua conturbada história, como o monumento central da Alemanha sobre guerra e ditaduras. A estátua da mãe com o filho morto, no centro do local e de autoria da escultora alemã Käthe Kollwitz, também foi “sugestão” de Kohl.

©AP

A reconciliação

O fim da era gelo com Merkel foi no preâmbulo do aniversário de 25 anos da queda do Muro de Berlim, celebrado em novembro de 2009 em que Kohl, Bush Senior e Gorbachev estiveram juntos em cerimônia de gala.

No meio tempo, Kohl, mesmo depois do derrame sofrido em 2008 que resultou em dificuldades de dicção, ele não poupou crítica á política europeia de sua Protege de outrora: “Merkel está estragando a “minha Europa”.

Qualquer semelhança…

Também como o Rei Roberto Carlos abaixo da Linha do Equador, também Helmut Kohl, representado por grupos de advogados, era constante presença nos tribunais para proibir biografias suas com “detalhes sigilosos”.

A biografia “O legado: os protocolos de Kohl” (Das Vermächtnis– Die Kohl-Protokolle“, em alemão) publicado em 2014 e de autoria Heribert Schwan, seu ex-escritor fantasma. O livro é resultado de 600 horas de material de áudio, nas quais Kohl fala de sua vida, sua carreira política e seus adversários. Já antes da publicação, os dois já não se davam bem. Os advogados de Kohl tentaram impedir a chegada do livro às lojas, mas também na Alemanha, a justiça é lenta.

Agora a briga é por quanto de dinheiro a editora terá que pagar. A cifra vai acima de 2 milhões de euros.

Antes do final desse artigo, pude constatar que o livro está sendo vendido no portal da Amazon por 19,90 euros com o lembrete em forma de etiqueta avisando: “incluindo as passagens permitidas pela justiça da cidade de Colônia”. Com passagens incluídas ou não, não é preciso ter bola de cristal para saber que, em breve, o livro estará esgotado e a história da família Kohl perdeu a chance de ter um final pacífico e digno para que os filhos possam lidar com a perda. Essa opção, foi dizimada com a morte do “Eterno Chanceler”. Angela Merkel precisa somente de mais 4 anos para se igualar ao seu mentor. Ela nunca teve tão perto de atingir essa meta, já que se candidata pela quarta vez ao posto de chanceler na ida dos alemães às urnas em setembro próximo.

Pouco antes de publicar o texto, foi anunciado que Helmut Kohl será o primeiro político a ter uma cerimônia de luto, em âmbito europeu e que será na cidade de Straßburgo. Na sequência, seu corpo será transportado via marítima para o outro lado do Rio, para missa de corpo presente na Catedral de Speyer. Juncker conseguiu pegar a onda no holofote. Pela grandeza e simbolismo, a viúva de Kohl nada terá contra. Se os filhos de Kohl serão convidados, ainda não se sabe. A data ainda nao foi confirmada. Até o dia da cerimônia, o corpo permanecerá na residência do ex-chanceler na cidade de Oggersheim.

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