Hotel Kempinski: sombras do passado, ignorância política e ironia histórica

Fátima Lacerda

11 Agosto 2016 | 16h13

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A alameda Kurfürstendamm, mais popularmente conhecida como Ku’damm era o lugar de passeio dos sangue azul assim como eletrizante centro cultural e gastronômico da então Berlim Ocidental quando Berlim ainda gozava do status de uma ilha.

Depois da queda do Muro e da erosão urbana que a parte ocidental (todo o foco comercial e turístico passara para o bairro de Mitte) amargou no marasmo dos novos tempos. Até hoje é nessa alameda que se vê o maior número de Porsches e carros de luxo, corridas de Ferraris nas madrugadas dos fins de semana. As lojas de grife como Louis Vitton, Budapester Schuhe, Cartier assim como a Mega-Store da Apple, entre outras, reativaram a alameda e a resgataram a importância urbana. Um dos pouquíssimos ainda restantes originais (o tradicionalíssimo Café Kranzler acaba de ser fechado) é o Hotel Kempinski (Bristol) que fica na esquina entre a Kurfürstendamm e a não menos prestigiosa Fasanenstrasse.

Marketing

Em sua conta do Twitter, o hotel se gaba da localidade privilegiada “no centro pulsante da cidade” de Berlim. De fato, a outrora prestigiosa alameda é hoje escolha preferida de Nouveau riche, de decadentes e muitos mauricinhos e patricinhas, também do Brasil como na semana passada quase em frente ao Hotel Intercontinental, quando dois casais, elas com copos de plástico de uma loja de café e eles, apontando os nomes dos carros estacionados na rua paralela. Eu só tive o “privilégio” de acompanhar a conversa porque tive que parar porque a luz da “Vilma”, a minha bicicleta não funcionava.

Quem realmente tem estilo, não se hospeda na Ku’Damm, mas no metro quadrado mais caro da capital, em Mitte (Centro ex-lado oriental). As estrelas de Hollywood como George Clooney, Julianne Moore e músicos como Lenny Kravitz escolhem o hotel Soho House, muito discreto, muito discretamente luxuoso , especialmente nos detalhes, e localizado atrás de Alexanderplatz. Lá ficam as verdadeiras estrelas que não gostam de paparazzis.

O Four Seasons também é uma boa pedida, já que fica pertinho do centro histórico de Gendarmenmarkt e de lojas de grife e da Galeria Lafayetts, área priorizada pelo que os marqueteiros da área de turismo denominam de “segmento superior” ou “segmento de luxo”.

claude-lanzmann-der© Kai Nedden

Ironia histórica

Não fosse o diretor francês Claude Lanzmann ter se hospedado no Kempinski nos últimos dias, o mundo não ficaria sabendo de uma falta de tato político e uma ironia histórica que Lanzmann divulgou em artigo de próprio punho veiculado quinta-feira (10) no jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung.

O título pode parecer dramático demais para os mais jovens, mas para um ex-membro da “Resistência Francesa”, totalmente, intendível:

Aqui, Israel não existe“.

O fundador do hotel, Berthold Kempinski era judeu. Junto com sua família. ele foi perseguido e desapropriado pelos nacionalsocialistas. 

Coincidência

O diretor do filme “Shoah”, obra de nove horas e meia de duração sobre o extermínio dos judeus na Europa e que foi homenageado em 2103 na Berlinale com o “Urso de Honra” por sua contribuição à arte cinematográfica, ficou irritado ao não encontrar o prefixo do Estado de Israel na lista telefônica do hotel. Ao ligar para a recepção do Kempinski, o diretor ouviu do outro lado da linha: “Monsieur, eu me senti feliz em ser questionado sobre isso. Eu mesmo sou judeu. Isso (a falta do prefixo na lista) é uma decisão consciente da diretoria do hotel. A maioria dos hóspedes do hotel são árabes e por isso, exigiram que o número contendo o prefixo de Israel fosse banido da lista”, declarou o funcionário.

Lanzmann, nascido em Paris em 1925, é filho de judeus, lutou na resistência francesa contra o regime nacional-socialista de Hitler, cursou faculdade de Filosofia na França e na Alemanha. Entre 1948-49 ele foi professor convidado na recém-fundada Faculdade Livre de Berlim (FU Berlin), instituição decisiva na história política cidade recém- dividida.

Na FU Berlin cursei 2 anos na cadeira de Ciências Políticas. Foi no auditório principal da mesma universidade que o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu o título de Honores Causas, numa cerimônia com o auditório pipocando de todos os lados e especialmente emocionante, já que FHC contava com a presença de ex-companheiros sul-americanos na época da ditadura militar no Brasil.

Lanzmann, o multiplicador

A matéria do Frankfurter Allgemeinen Zeitung foi reproduzida por todos os jornais, além de emissoras de TV, incluindo a RBB, TV regional de Berlim no noticiário “Abendschau” no horário nobre de quinta-feira (11).

Depois quando tudo já estava no ventilador e mesmo se negando a falar com a emissora de TV, a porta-voz do hotel foi atrás do prejuízo, alegando que “de forma alguma” eles teriam excluído intencionalmente o prefixo de Israel. “Nós não temos a pretensão de termos uma lista completa com os 193 números dos respectivos países” e ainda alegou que isso “não foi, de forma alguma, uma decisão intencional da diretoria“. A nota divulgada na quinta-feira (10) assegurou que a lista foi “complementada”. “Se com essa situação nós ferimos os sentimentos de hóspedes judeus e do Monsieur Lanzmann, nós pedimos desculpas”, concluiu. 

Depois de toda a louça quebrada, tudo no ventilador ou (como prescreve um ditado popular que diz) ter deixado terra queimada pra trás assim como a tentativa da diretoria em minimizar o arranhado na imagem do hotel, fica a pergunta no ar: Como pode um grupo de árabes delinear medidas internas de um hotel e, com isso, tornar o Estado de Israel inexistente? Esse caso que poderia ter uma importância mínima em outro país, mas na Alemanha, especialmente em Berlim, centro logístico do regime nacional-socialista de Hitler é, no mínimo e na melhor das hipóteses, sinal senão de um posicionamento político ou mesmo marqueteiro para satisfazer a robusta clientela árabe, uma tremenda falta de atenção.

Como se toda a ironia não bastasse, em toda Berlim, somente o Hotel Kempinski é que teima em manter a prática de listas de prefixos nos quartos. Todos os outros hotéis, da categoria de 3 estrelas pra cima, usam a prática de conectar os funcionários do balcão. Nos hotéis de 3 estrelas não haverá nunca um caso vergonhoso desses, já que nesses hotéis não há telefone nos quartos.