Hungria em 1989 e 2015: quando um país engata a marcha ré na história

Fátima Lacerda

10 Setembro 2015 | 10h32

Em setembro de 1989, quando a Hungria, como primeiro país do Pacto de Varsóvia e seguindo a linha a política de transparência de M. Gorbatchev, abriu a fronteira com a Áustria, o Muro de Berlim ganhava mais buracos do que um queijo suíço e essa medida levava ao ápice, a crise política e pela qual passava o então governo da RDA.

Para os alemães orientais, essa notícia foi um convite para ir acampar na Hungria, destino turístico já conhecido por férias anteriores, já que só eram permitidos fazer férias em países aliados. Os que já estavam na Hungria, deixaram tudo pra trás: roupas, fotos, utensílios e inclusive o Trabant (vulgo, Trabi) e só levaram a roupa do corpo. Apesar da polícia húngara patrulhar a chamada “Fronteira Verde”, não havia ordem do governo para atirar em ninguém só „para dar um susto“, declarou o chefe de policiamento da fronteira em entrevista à TV alemã. Quando nem todos sabiam da novidade, os próprios húngaros organizavam “Pique niques” para os usuários do acampamento. Tinha até folheto divulgando hora e local do encontro no acampamento em Sopron. Os alemães chegavam para o “passeio”, faziam a trilha e se mandavam em rumo à liberdade.

https://www.youtube.com/watch?v=0i33hFhGB2Y

Muitos anos se passaram. O socialdemocrata Gerhard Schroeder (1998-2005) foi um dos motores para o aumento dos países fazendo parte da UE. Em 01 de maio de 2004 foi o grande dia esperado por gerações de vários países do leste, entre eles, os húngaros.

Ninguém esperava e nenhum órgão da UE estava preparado para os efeitos da Guerra civil na Síria ou faltou vontade política em desenhar um cenário, ao menos, semelhante ao que se faz realidade todos os dias em vários lugares da Europa: na estação ferroviária de Budapeste, na “fronteira verde” da Hungria com a Sérvia, nas estações ferroviárias de Munique, de Frankfurt e nos alojamentos provisórios em Berlim.

O populista arbitrário

Viktor Orban é premiê húngaro desde 2010, adepto ao populismo e à mudanças na constituição que restringem tanto a liberdade de imprensa, quanto medidas que tolem e tiram a autonomia do judiciário e que volta e meia fez “deslizes” históricos em discursos de teor antissemita. Em 17 de junho passado, o seu governo anunciou a decisão de fechar os 175 km da fronteira entre a Sérvia e a Hungria “para reduzir o uso de seu país como “transito”, (especialmente usado por sírios, iraquianos, afeganistãos) em direção ao ocidente.

https://www.youtube.com/watch?v=mVjLQXPy0Kk

A medida que vai na contra-mão da ideia de “UE, comunidade de valores” foi ideia de László Toroczkai, prefeito da cidade fronteira Ásotthalom no sul da Hungria. No início do mês de setembro, o governo já colocou 2100 soldados ao longo das cercas de 4 metros de arame farpado e segundo infos de organizações não governamentais, fazem uso de gás de efeito moral frente em quem quer fugir para o ocidente. A maioria dos refugiados provenientes da Síria passam por uma odisseia geográfica, via Turquia, Grécia, Sérbia, Macedônia até chegarem a fronteira com a Hungria, em Röszke, com destino à Alemanha.

Durante a coletiva de imprensa, exibida em 03/09, Martin Schulz, o social-democrata presidente do Parlamento Europeu repetiu várias vezes, de forma clara e por entre linhas, que “Há muitas posições antagônicas” que se cristalizaram entre o governo húngaro e a UE. “Apelei para que concebamos um plano conjunto para o problema de imigração legal, a proteção temporária de refugiados e o trâmite de requerimento de asilo político. Todos esses 3 itens”. Já a linguagem corporal dos dois, Schulz com a faca no pescoço e Orban com uma postura de nada de bons amigos, torna claro o abismo político que existe na percepção do problema mais complexo da UE nas últimas décadas. Schulz é, com certeza, o Presidente mais incapacitado, o mais travado que o Parlamento já teve. O bater na mesma tecla, sobre a necessidade de uma “solução conjunta” é dar murro em ponta de faca. Orban é coerente com seu estilo arbitrário, ao mesmo tempo em que quer voltar para a sede do seu governo, com o peito aberto e cheio de orgulho por “ter mostrado ao pessoal da UE quem manda no pedaço”, ao mesmo tempo em que é desonesto em ser especialmente fiel ao tratado de Shengen, enquanto na verdade ele quer tirar proveito político e midiático nas costas dos mais fracos.

A atitude de expulsar os refugiados da estação, depois reabrí-la, cancelar trens e em seguida, liberá-los, retirar aleatoriamente pessoas dos trens causando tal desespero que mães com filhos no colo se jogam na trilha do trem. O escândalo em torno da cinegrafista húngara, cena filmada por um cinegrafista da TV RTL exibe a funcionária da emissora N1TV, que apoia a política de Orban.  Esse cena é sintomática para toda a situação política de um país.

Nas redes sociais o tema é foco de críticas severas, mas também de memes de sarcasmo. O programa de jornalismo investigativo, Frontal 21 que tem 2 minutos de paródia no final, usou as imagens da coletiva em Bruxelas e fazendo paródia da reacao de Martin Schulz sobre a declaração de Orban que o problema dos refugiados é “um problema alemão”, lançou o comentário: “O Schulz nesse momento com certeza pensou que foi uma ideia de m…. aceitar a Hungria na UE“.

O fluxo de migração no velho continente irá mudar suas características, talvez sua percepção de si mesmo. Talvez a UE não seja mais essa comunidade de valores que Merkel tanto jura e defende de forma tão determinada. As imagens que foram divulgadas durante dois dias da Dinamarca, ratificam essa tese. 240 pessoas, vindas da Alemanha, foram retiradas dos trens na terça-feira (8) e impedidas de entrar no país scandinavo. O Premiê, Lars Rasmussem, declarou em entrevista à EuroNews: “Não queremos ter aqui uma situação, como na Hungria. Somos um país pacífico, tranquilo. Vendo que muitos querem usar a Dinamarca somente como trânsito, vê se o que é um problema de refugiados, mas também de migração“, 

Os próximos dois anos, e como a UE resolveu ou não o problema dos refugiados, vai dar a resposta para perguntas que surgem numa dinâmica insana dos acontecimentos e desdobramentos de fatos.

O que se pode constatar, desde já, é que com a escolha populismo, a Hungria perdeu a chance de, mais uma vez, ter uma importante contribuição histórica e ajudar a arrumar a “Casa Europa”.A Polônia não quer saber de refugiados e alega que os 1400 provenientes da Ucrânia são “suficientes”. A Inglaterra só se disponibilizou acolher sírios, depois de muita pressão política e midiática.

https://www.youtube.com/watch?v=usXo2GvRJqA