Ignorando a base, Merkel conduz seu partido (CDU) com rédias curtas

Fátima Lacerda

08 Dezembro 2016 | 16h23

German Chancellor Angela Merkel smiles after addressing delegates during her conservative Christian Democratic Union (CDU) party's congress in Essen, western Germany, on December 6, 2016. German Chancellor Angela Merkel launches into campaign mode for elections taking place in 2017. / AFP PHOTO / TOBIAS SCHWARZ

Sob o meu governo não será implementada nenhuma medida que cobre pedágios nas rodovias alemães“. Essa frase, Merkel declarou num debate ao seu adversário, o socialdemocrata Peer Steinbrück, no preâmbulo das eleições federais de 2013.

O projeto é o bebê do seu “parceiro” no governo, Horst Seehofer da Baviera, do partido-irmão CSU. Depois de anos lutando contra a Comissão Europeia ajustando os critérios estipulados por ela, o sistema de cobrança de pedágio para carros com placa estrangeira passando por rodovias alemães está para ser aprovado pelas câmaras.

Alhos e Bugalhos

O exemplo da “Maut”, assim a descrição em alemão, para a medida mais irracional que a Alemanha já tomou nos últimos anos, nos da uma grande lição sobre o peso da palavra da chanceler. O que é um “Nein” absoluto hoje, pode ser um talvez amanhã e mais lá pra frente, virar realidade. Tudo vai depender das circunstâncias e de quanto capital Merkel pode tirar.

O “Vale a Pena Ver de Novo” da novela dupla nacionalidade

Viver na Alemanha como estrangeiro não é coisa para quem tem nervos fracos e muito menos pra quem sofre de crise existencial. É preciso saber quem você é, em que chão está pisando e o que veio fazer aqui.

Há anos atrás, quando a Alemanha ainda era co-governada pelos Neoliberais (FDP, na sigla em alemão) em parceria com o partido de Merkel, foi sacramentado que filhos de estrangeiros que nascem no país, ganham automaticamente duas nacionalidades e tem entre as idades de 18 e 23 anos para se decidir por uma delas. Essa medida confrontava jovens com uma decisão que teria desdobramento por toda a sua vida. Vale ressaltar que a maioria desses jovens são de origem turca.

Se mesmo estando na Alemanha há décadas, a pergunta “O que você veio fazer aqui?” ainda existe. Eu não queria estar na pele desses jovens que, decerto durante 5 anos, eram permanentemente confrontados com a pergunta: “Então, já se decidiu?”, “Pra qual nacionalidade você irá optar?” e se ver rotulado por toda uma vida. Quando você tem entre 18 e 23 anos é muito barra pesada ter que se confrontar com a pergunta sobre a identidade. Isso porque tem pessoas que acoplam a cor do passaporte com a identidade, entretanto  essa pode ser relativizada e associada a muitas coisas. Aos 20 e poucos anos tudo é muito mais absoluto e isso é que era o pérfido dessa lei que esconde em sua essência um processo de exclusão que pode ter consequências péssimas para a autoestima de quem tomou a decisão cedo demais e terá a vida inteira para se arrepender. Nao é a escolha pelo passaporte alemao que implica a imediata aceitacao dos tão proclamados “valores” e “formas de vida”. Quantos alemaes nascidos e crescidos aqui optvam para lutar pelo IS?

A geração mais descolada e que tem que optar somente por uma nacionalidade, resolve esse conflito político burocrático com muita malemolência e leveza. Eles fazem o requerimento da nacionalidade alemã, entregando o passaporte turco. Depois de pegar o alemãozinho, retornam à embaixada turca, alegam ter perdido o passaporte ou que ele tenha sido roubado e fazem o requerimento de outro. Simples assim.

2014 o acordo com os socialdemocratas

Merkel, juntamente com os socialdemocratas, seu parceiro júnior no governo, extinguiram a exigência de optar por uma ou outra nacionalidade a ampliaram o terreno para a dupla nacionalidade sobre seguintes condições:

Ter nascido na Alemanha combinado com as seguintes opções:

– Poder comprovar residência na Alemanha, por ao menos, 8 anos

– Ou ter frequentado pelo menos 6 anos uma escola alemã

– Ou tem um diploma de uma escola ou universidade alemãs

O CDU de Merkel

Na convenção nacional do partido que terminou na quarta-feira (07) o grupo “União Jovem”, (Junge Union) fez um requerimento para que o acordo formado entre o CDU e os socialdemocratas (SPD, na sigla) seja anulado.

A situação do CDU, que há 10 anos é o partido de Merkel, é como é não apesar da chanceler, mas por causa dela. Durantes anos foram, meticulosamente, sufocadas as tentativas formação e cristalização de personalidades de liderança, para em um momento, seguirem os caminhos de Merkel, melhor que isso, faz da transição entre a chanceler e seu sucessor ou sucessora algo pouco dramático e sem traumas e vaidades feridas.

A “Jovem União”, geração entre 20 e 30 que se mostrou nessa convenção é o claro retrato do desdobramento além de tirar proveito do vento favorável que os direitistas vem tendo na Europa como na  Hungria, França, Inglaterra, Eslovênia, Suécia.

MerkelParteiTAG©DPA

Mesmo que o requerimento tenha tido uma vitória apertada (319 a favor/300 contra) esse resultado foi uma afronta à diretoria do partido. O ministro Thomas De Maizière, que ocupa a pasta do interior, criticou o resultado afirmando que ele “dificulta a integração”.A diretoria do partido foi pega de surpresa e se mostrou extremamente contrariada com o resultado da votação.

Do lado dos socialdemocratas que, assim como Merkel já começaram a campanha eleitoral para a ida às urnas em setembro de 2017. Sigmar Gabriel, chefe dos socialdemocratas fez questão de convocar a imprensa, especialmente para declarar: “Com o SPD não haverá esse tipo de compromisso”. Com a cara séria de quem sente o cheirinho de tremor de terra político, Gabriel somou pontos com seu eleitorado e aproveitou para dar um contorno em sua postura habitualmente turva.

Merkel sozinha em casa

Como num jogo de xadrez, os aliados de Merkel vão, um após o outro, sumindo no horizonte: primeiro Cameron, que pelo notório erro de cálculos, perdeu o referendo que decidiu sobre a saída do RU da UE. Depois foi a pauleira do tipo daquelas que o Barney dava na cabeica do Fred Flinstons com direito a muitas estrelinhas de consternação sobre a vitória de um Donald Duck chamado Trump que, assim en passant, ameaçou sair da OTAN, tocando na ferida mór de Angela Merkel. Em sua menina dos olhos: O Tratado Transatlântico e a estreita parceria com os EUA, espinha dorsal de sua percepção política.

Depois foi a vez de Nicola Sarkozy que, por perder as primárias do seu partido conservador RPR, anunciou se recolher à “vida privada”. Não restou a François Hollande, o presidente francês com menor percentual de popularidade de toda a história do país, para sair com um pouco de dignidade, avisou não mais se candidatar. Com isso, o “escorregar político” da França para a direita vai de vento em popa.

Ciao Itália!

No último domingo foi a vez do premiê Renzi que, também como Cameron, errou nos cálculos sobre a perpecao dos italianos perante à consideráveis mudanças na constituição. Há 3 semanas Obama esteve em Berlim. Dos Chefes De estado que se encontraram na Chancelaria Federal, Hollande e Renzi já foram. Mesmo que não está de acordo com partes ou com toda a política da chanceler alemã é preciso constatar: ruim com ela, muito, muito pior sem ela. Inusitado como também irônico, que a Alemanha gozando de tal importância geopolítica na Europa Central teima em se mostrar um oásis em meio de tanto caos incluindo afundar do país grego, mas isso não é novidade, mas somente um agravante na infernal crise de identidade que a UE sofre.

O resultado da votação na convenção do partido de Merkel é a melhor campanha eleitoral para os populistas de direita que se batizam, “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla). Ser estrangeiro, não pertencer à sociedade alemã, aliás não ter nada para fazer aqui, é pilastra mór.

E agora Frau Merkel?

Quem pensa que o resultado, mesmo que apertado mas significativo, causa uma reflexão por parte da chanceler, se engana. Em seu discurso durante a convenção, Merkel afagou a alma da base do partido. Falou o que eles queriam ouvir. Se mostrou a favor da Burka: “Na nossa sociedade a gente precisa mostrar a cara”, polemizou e arriscou pescar eleitores do que o jargão chama de “terreno de direita”. Merkel foi desonesta em declarar tal frase. Se os próprios alemães não se olham no olho, não se suportam, imaginem os estrangeiros os alemães. A realidade é bem outra e Merkel sabe disso, mas como diz um ditado muito usado e expressado em “baixo-alemão” que se ouve no norte da Alemanha, o  Plattdeutsch: “O que tem que ser feito, tem que ser feito” (wat mutt dat mutt) em tradução livre. Não tem lamúria nem choradeira.

Resoluta, Merkel declarou à imprensa que o tema de “nacionalidade dupla” não será tema da campanha eleitoral. Além disso, Merkel ignorou o resultado na convenção, sendo fiel à sua postura de fazer vista grossa e esperar a tempestade passar.

Merkel mede com duas balanças diferentes. Por um lado ela se mostra a favor de proibir a Burka, algo que juridicamente é muito difícil e demorado, ela jurou que “uma situação como a do verão de 2015” (a avalanche de refugiados chegando na Alemanha) não irá mais acontecer.

Assim como Merkel, a maioria dos alemães sabe ela não pode e nem tem como garantir isso, mesmo que o acordo com o estado ditador que é a Turquia e em troca de muitos bilhões e uma promessa de entrar na UE esteja (ainda) ajudando a diminuir consideravelmente o número de refugiados que chega à Alemanha. Merkel e ninguém sabe como irá se desenrolar a tragédia da Guerra da Síria, especialmente diante de uma realidade muito recente de que as tropas do governo retomaram Alepo por completo.

As consequências do inverno que acaba de iniciar, ninguém pode prever. Como essas promessas mais furadas do que um queijo suíço, Merkel quis ganhar tempo e somar pontos com a base do partido, a mesma que tem que enfrentar eleitores enfurecidos nos sábados nos estands do partido em frente à shoppings e supermercados e em comíssios. O hino da direita e da extrema direita é: “Merkel muss weg” (Merkel tem que sair). A chanceler tem muito terreno político perdido. Precisa mostrar serviço. Avançar.

Maestria no calculismo

Merkel, com sua formação e título de doutora em física sabe fazer cálculos como ninguém. O que aconteceu com Cameron (Referendo BREXIT) e com Renzi (Referendo sobre mudanças na constituição) não teria acontecido com Merkel. Pra isso ela é uma estrategista brilhante que pesa, meticulosa- e repetidamente os riscos e como certa vez relatou seu porta-voz em encontro com jornalistas estrangeiros radicados sobre a “forma de trabalhar” da chanceler: “Quando há um problema complexo, se for preciso, ela passar uma noite inteira considerando, ponderando, procurando possibilidades até chegar a um resultado satisfatório”.

Em suma: Depois da convenção a campanha eleitoral, ainda um tanto velada, mas já iniciou. O que se pode afirmar, com certeza, é que a campanha será uma mas mais acirradas que o país já viu.