Inverno atrasado e gélido implica hibernação involuntária

Fátima Lacerda

03 Março 2018 | 10h39

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No meu último artigo eu postei que a Berlinale, neste ano tardia, havia fechado o inverno. Um dia depois eu tive, e milhões de alemães, tivemos exibidos na nossa cara que o inverno, pra valer, acabara de chegar. No final de fevereiro. Não em dezembro e nem Janeiro e muito menos com essas temperaturas. Isso é outras coisas me fazem perceber cada vez mais que nesse 2018 tudo está mesmo tudo diferente. tudo muito estranho.

Em Berlim, o sol continua firme e forte. Todos os dias. Um inverno sem neve é sempre bem-vindo na terra plana que é a capital. As noites de céu claro e luar avisam o gelo que está a cidade com temperaturas de 11 graus negativos. Corajosos que se atrevem a sair na rua, ficam irreconhecíveis. É muito tecido sobre a pele. Os alemães pregam a eficiência do formato cebola, ou seja, varias camadas de roupa uma em cima da outra. Eu nunca faço uso disso, mas o Christian gosta de me explicar, sempre, que é o melhor sistema regulador da temperatura corpo. Eu, prefiro casacos, pulôver de lã e muito cachecol. No final do dia, quando chego em casa, tiro tudo com uma raiva de quem tem fobia de não sentir a própria pele e ficar imóvel durante tanto tempo com quilos de roupa no corpo. Isso, juntado ao ar da calefação que caisauma secura na boca que eu penso toda hora em parar no mercador de frutas para comprar uma melancia. Quando a secura é aumentada por um vírus de gripe, você pode andar com a garrafa de água mineral debaixo do braço igual a um dependente, que a maldita sede não passa. Até a minha saliva essa gripe maldita roubou. Meu médico exigiu repouso absoluto, muitas horas de sono. Quando está escuro lá fora, fica fácil, mas quando o sol brilha, eu não consigo dormir. Nao importa a estacao do ano! Da uma fissura! Como socializada em solos tropicais, eu sempre acho que o sol significa calor. Ledo engano!

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Aquecimento global

O que faz esse 2018 em seu inicio parecer estranho é o canto dos pássaros que já não mais imigram para o sul, devido ao aquecimento global. Eles ficam por aqui mesmo. Na árvore em frente à janela do quarto de dormir, fica cheio deles “estacionados” durante a noite.

Da janela da cozinha, o canto do pássaro rola durante horas, o céu claro com sol e a janela com o vidro resfriado desvendam a temperatura externa. Ate o relógio biológico já foi pro beleléu. Que tempos aqueles em que a primavera trazia o canto dos pássaros recém-chegados da imigração? A Alemanha é um pais de rituais. Alguns, exagerados, confesso, mas eu não tenho nada contra quatro estações bem diferenciadas com suas influencias nos hormônios e na disposição de sair, fazer ginástica, andar de bicicleta no verao, fazer longos passeios a pé na primavera e colher cogumelos no outono.

Hibernação involuntária

Numa semana ainda me recuperando de uma infeção gripal com remédios de homeopatia e a mente não tão rápida como de costume, sair na rua se tornou um luxo, alguma atitude que precisa ser muito bem considerada. Quem conhece a terra plana Berlim não tera lembrança de ventos fortes. Pois e. Até isso 2018 trouxe de novo. Inverno gélido com vento!

Fui ao supermercado na quinta-feira à noite. O que lá encontrei, foram todos os Et’s que vivem confinados em seus porões, apartamentos e esconderijos das mais diferentes formas, mas que tem uma coisa em comum: A Paúra de ficar sem mantimentos. Um burburinho na fila do caixa. Um olhar ansioso para a ponta da fila, cada vez que uma demora se delineava. Decerto: todos somos filhos de Deus, mas em Berlim eles podem tomar (des) formas de surpreendentes a aterrorizantes quer você sente vontade de fugir dali. E isso, num bairro central, com excelentes possibilidades de transporte, gastronomia e infraestrutura. Imagina em bairro do leste, afastado e escondido. Para ir até à loja de produtos naturais, que fica na minha rua a 400 metros da entrada do meu prédio, eu preciso pegar a bicicleta, da qual eu (como poucos berlinenses) não abdicam, mas é barra pesada, é muito barra pesada, mas não deixa de dar um orgulho ao passar no ponto de ônibus cheio de empacotados e me transportando pelas minhas próprias pernas. Só para fechar o cadeado da bicicleta demora sentidas horas. Os dedos duros, mesmo dentro da luva, são somente alguns impecílios contra a força da natureza. O frio é tanto, que chega a doer a parte traseira do olho devido à pressão pela temperatura gélida. A vontade de falar e ainda muito menos de discutir com alguém é menos que zero. Na pior das hipóteses, você tem aquela sensação de que você, a qualquer momento, terá o cérebro congelado. Não se consegue formular um pensamento claro. É como se o cérebro estive na reserva e só consegue processar as coisas mais imprescindíveis.

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Escritores de vários países se dizem “inspirados” pelo “silêncio do frio” e a sensação de ouvir, com mais intensidade, a voz interior. A mim, esses silêncio que vem de uma hibernação involuntária e necessária me da gastura, causa monotonia. Começa a dar uma aflição, um desejo que parece inatingível de jogar pingue-pongue, comer comida mexicana, dançar ao ar livre, ou seja, tudo que se faz quando a vida se faz do lado de fora em Berlim. Enquanto isso, berlinenses vão se trancando em seus esconderijos, apartamentos, fechando portas, janelas e ligando a calefação e as chaminés dos edifícios fazem um ballet inusitado na Skyline dos telhados com uma leve camada branca de gelo. Até a ave no lago está de saco cheio de tanta penúria. Chega!

Tem gente que é muito feliz enclausurado. Eu não. Um das coisas mais legais em viver na Europa Central é poder curtir o sol de verão ate as 22 horas. Na Noruega, tem uma época perto do ápice do verão europeu por volta do 21 de junho, que o dia quase não fica escuro para no 21/06 exibir o sol da meia-noite. As noites de verão, com lua e estrela são indispensaveis, mas até la, e muito chão pela vida de hibernação involuntário. Na vitrola, digo, na biblioteca digital, só rolando a música da banda germânica “Die Phantastischen Vier” (com a música “Um dia no mar” e muita Adriana Calcanhoto em sua composição com Antônio Cícero, relevando que nos momentos mais felizes, eu vi um avião, chegando em Salvador, chegando em Berlim, que ando escrevendo linhas pra ninguém, que tanto aconteceu antes do Ocidente se assombrar e que o inverno, em Berlim, é glacial...