James Taylor: um gentleman na estrada por um mundo melhor

Fátima Lacerda

13 de abril de 2015 | 09h59

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O final da tarde de um domingo (12)  de primavera foi o perfeito preâmbulo para o show daquele que eternizou a cidade maravilhosa.

Os anos 80…

Do fundo do poço ele foi arrancado com o convite para ir ao Rio de Janeiro na primeira edição do maior festival da terra, o Rock in Rio onde chegou consumido, Sim, devastado por problemas com drogas e fracassos na carreira. Com essa bagagem, James Taylor aterrissou no Rio.

A receptividade do público, ao vê-lo cantar, o calor humano do publico brasileiro arrebataram James, arrebate esse espelhado nos versos:

“More than a distant Land, more than a shining se a…I was there on the very first day and my heart came back alive”.

Ele fez amizade com (Gilberto) Gil, de quem ganhou uma violão, Milton (que depois participou de uma versão nada dogmática da canção das canções: “Only a Dream in Rio“) e declara, até hoje, que a estada na cidade maravilhosa o fez renascer para a música.

Adriana Calcanhoto diz : “Eu presto sempre atenção no que o meu irmão ouve. Assim fazia eu.  O gosto musical do meu irmão, Paulo César,  sempre foi um horizonte a vislumbrar  para a garota de colégio que eu era na época. No dia do show do James Taylor, sair do meu universo tijucano e de aluna CDF que jamais cogitaria matar aulas para “partir para a selva” chamada “Cidade do Rock”?. Nem pensar! Paulinho, um romântico declarado e com um faro musical sempre antenado, encarou a viagem e tinha histórias pra contar: Do Rod Stewart, do Queen e de James Taylor.

O caráter histórico de James Taylor cantando “Only a Dream in Rio“, eu pude constatar depois, através das imagens de TV durante os meses que viriam…

Passaram-se os anos…

Paulinho se foi. Sua herança musical vive em mim.

2012.

Dessa vez eu não tinha que encarar o buzao para a caravana em direção a cidade do Rock. Dessa vez, já em solos berlinenses, para ver James eu preciso andar um quarteirão da minha casa. Nem é necessário pegar a bicicleta. Ontem, no final de uma tarde de cinema daquelas que só a primavera europeia pode oferecer, James voltou a Berlim, cidade com a qual ele se declara “muito conectado”.

Outros países, outros costumes…

A forma dos alemães de consumir um produto cultural é, primeiramente intelectual, acompanhada de muita cerveja. Assim foi no domingo (12) no Tempodrom, um objeto arquitetônico em forma de tenda de circo de metal derivante da tenda de circo que efervesceu a Berlim quando gozava do status de ilha.

Lugares marcados. O Tempodrom em 85% ocupado. Pontualmente, James abdica do petite comitê de deixar a banda entrar, fazer uns acordes e preparar o terreno. Não. Ele entra, primeiramente sozinho, faz reverência ao público enquanto tira o seu boné de cor caramelo e estampa quadriculada. Aplausos. Reverência dos dois lados. Dali segue para o banquinho esbanjando um alemão de excelente pronúncia, mas limitado no vocabulário. “Já que o meu conhecimento da língua inglesa é melhor do que a da alemã, o resto das conversas serão em inglês”, arrancando “Ooohhhs!!!!!!” da plateia. Depois de um minúsculo enquanto plugava o violão, ele soltou: “Wahrscheinlich!” (Provavelmente).

Esse foi o sinal para os músicos se posicionarem no palco. Na bateria, ninguém menos que Steve Gadd. “A bit of a legend”, anunciou James ao apresentá-lo. “Ver Steve Gadd em carne e osso!!! Uau!” disse um alemão ao amigo ao lado. Assistir James Taylor, sentado e tomando cerveja é como estar em casa assistindo um DVD. Mas assim decidiu o promotor local. Cadeiras numeradas e uma pausa de 20 minutos que dilaçera a dinâmica já com dificuldades em deslanchar.

“Vamos tomar mais uma música antes de… uma pausa”, disse ele como cumprindo ordens. “Não sabemos porque devemos fazer isso. Eu, particularmente fico ali atrás das cortinas, olhando meu relógio esperando ansiosamente a hora de voltar”. Irônico, continuou: “Mas o segundo Set é muito legal também. Nós gostamos muito”, arrancando um riso tímido da plateia. Aliás a delonga no anunciar das músicas, continua a mesma que conheci em 2012. A história do nascimento do sobrinho e que ele quando o foi visitar “all the way to Carolina”, escreveu a música. “Fire and Rain”, tem o texto informativo obrigatório sobre Susan, a mulher com que James fez poucas e boas e hoje não cansa de ratificar a gratidão: “A Susan é tão generosa comigo” e quando diz, é autêntico, mas mesmo assim não evita o Deja Vú e ousa no lânguido, vagaroso, meticuloso, num período pós-digitalizado, onde as notícias se espalham em tempo blitz. Nos arranjos filigranos que vão de econômicos a minimalistas James ousou, exigiu atenção máxima do público. Sua performance no palco tem sempre a mesma característica. Ele chega tímido,politicamente correto, um cavaleiro. Inicia com músicas do disco que “sairá em breve” e pra não dizer que só pensou no Marketing, manda ainda no primeiro Set, “Caroline”. Seu gestos são econômicos. Depois vem algo que é anunciado “para vocês balançarem” e o clima vai esquentando muito levemente.

Na vinda pro segundo Set, a banda inicia um groove, enquanto James, deitado no chão na ponta do palco, distribui, exibindo a calma de um budista, inúmeros autógrafos, faz Selfies com fãs. Na minha fileira, um alemão (que vê o valor do ingresso sendo desperdiçado), grita: “Weitermachen!” (Continuar!!!!). O alívio vem quando uma das cantores do back-vocal vai até James, dá um tapinha nas costas do tipo: “Hey, bora lá!”. Aplausos excepcionalmente calorosos enquanto ela retorna ao seu posto frente ao microfone e James teima em continuar assinando autógrafos.

Os alemães não brincam em serviço, já que o consumo do produto cultural é uma atividade meticulosamente planejada, no relógio e no bolso, ou seja, os alemães são, em primeira linha, pragmáticos no consumo de um produto cultural (e não só nesse quesito). Nesse pacote, o consumo da cerveja é um dos principais elementos até mesmo quando isso implica, fazer uma fileira toda levantar para, no meio do show, reabastecer o estoque.

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Somente quase no final do show, fãs se grudaram na beirada do palco e o clima começou a esquentar. Quando James “ameaçava” sair do palco, for real, ele se virava para os músicos, sussurrava algo em seus ouvidos e lá ia outra música. A derradeira, claro, “You got a friend”. Até nesse estágio avançado da noite, o Mestre de Cerimônias não se deu por rogado. Em tom igualmente autêntico e emocionado, agradecer a Berlim “por nos trazer de volta”. “Essa música que vou tocar fala de amizade e foi escrita por Carole King. Quando a ouvi pela primeira vez, não podia acreditar” (em tal beleza). E lá foi ele, nos levando pro Evergreen cantando com uma postura religiosa. Cada palavra. Cada sílaba não mostrava nenhum cansaço daquele que está na estrada há muitas décadas e lida de forma diferenciada com o Business e na dialética miltoniana, é um artista que vai aonde o povo está. Que esse povo é um público voltado demasiadamente para o caráter pragmático e chegado ao comportadinho, para ele, não importa.

Antes do show, na entrada dos ônibus gigantes parados no estacionamento, perguntei ao cantor de back-vocal, se “Only a Dream in Rio” estaria no repertório. Seco, ele respondeu um “Eu acho que não”, com uma intonação de que tinha toda a certeza que esse MEU clássico não estaria incluído, mas também como se o meu pedido fosse inusitado. Olha eu ai com a vida inteira pra me arrepender de não ter matado a aula naquele dia. Se a vida começasse agora!

Já o Paulinho sacou a importância do momento. Ainda não foi dessa vez que presenciei ao vivo a performance de “Only a Dream in Rio“.

Um show longo demais na duração, ousado na estilística, executado por excelentes músicos e uma mensagem de paz e amor entre as pessoas, algo espiritual para a noite de domingo como “Things are gonna just fine, if you only will” ou “How sweet it is to be in love by you”, criando um clima de gospel na ateia e mundana Berlim. James não escolhe seu público. Ele o recebe e faz o melhor para agradá-lo e sente-se visivelmente à vontade em fazê-lo.

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