Jazzfest Berlim 2016: no ocidente, nada de novo e a perda de vista do Zeitgeist

Fátima Lacerda

08 de novembro de 2016 | 18h57

Nessas horas em que escrevo esse texto, o mundo inteiro está focado nos EUA em estado de alerta e suspense. A maioria sensata torce para que o Bozo não angarie votos para levá-lo à Casa Branca e, consequentemente, um mundo muito mais imprevisível do que a contemporaneidade já nos empurra guela abaixo.

Na Alemanha, o silêncio por partes do políticos me lembra o mesmo silêncio na noite anterior ao referendo que decidiria sobre o BREXIT. Tomara que ao longo de terça-feira, dia 09 de Novembro, o mundo não esteja petrificado frente à uma outra variante Worst Case.

Um usuário alemão postou em seu twitter no #Hashtag A eleição de hoje é entre a peste e a cólera“. Nesse contexto pode parecer profano falar de Jazz. Por que logo Jazz? Porque a forma em que o festival de Jazz de Berlim é, teimosamente, mantido, desnuda a história da Berlim dividida, das duas Berlins. A de ontem e a de hoje incluindo muitas dicotomias.

Como na quarta-feira, dia 09, comemora-se mais um ano da queda do Muro de Berlim, a cicatriz mór de uma cidade tão ferida e tão cheia de cicatrizes, fecha-se o círculo e eu mesma me livro da autocrítica da paúra da alienação.

A polícia não tem Swing 

O memorável radialista e redator de cultura em várias rádios na Alemanha, autor de vários livros e um verdadeiro experto do Jazz, além de até hoje não deixar de contar sobre sua viagem ao Rio na época do “Beco das Garrafas” se chama Siggi-Schmidt Joos (1936). Siggi, como é carihosamente chamado pelos colegas e admiradores é fera, é Hours concours, quando se trata de música. Hoje, mesmo aposentado, não perde uma edição do Jazzfest, do qual ele, orgulhoso anuncia que  esteve em todas as edições. Ao todo 53. Uff!

Durante esso Jazzfest 2016, Siggi, assim os tratam os músicos e colegas como também a autora desse texto, já na época de cantora, fui convidada por ele e sua esposa Katrin, também ex-radialista e a alemã mais fanática por Elis Regina que já conheci, para entrevistas no estúdio da Rádio SFB. O currículo de Siggi tomaria todo um artigo, por isso, vamos direto ao assunto: no livro “Stasi swingt nicht”, (A STASI (polícia secreta da RDA) não dança o swing – Um fã de Jazz durante a Guerra Fria ) ele fala dos tempos difíceis, do jazz em vários solos, mas também de sua biografia. 

A revista Jazz Podium classificou o livro da seguinte forma: “Schmidt-Joos faz um abrangente apanhado entre a recepção do Jazz e se sua Freiheit no início em New Orleans, passa pelas dificuldades durante o nacional-socialismo hitleriano na Alemanha e vai até à percepção esquizofrênica dos incompetentes e responsáveis pela ex-RDA“.

Tristesse de Novembro

O mês 11 é o mais odiado em Berlim. O dia inicia tarde, termina cedo e a luz é algo raro, o sol mais ainda. Novembro, tempo de muita deprê e um clima totalmente diverso, dicotômico da Berlim na primavera e ainda mais no verão. Nada melhor do um tempo desses lá fora para adentrar no universo do Jazz, que na sua essência é a mistura irresistível de matemática e improvisação juntando à delícia do inesperado. Basta ouvir a interpretação de uma Melange de tempestade e eferverscência que é maravilhosa Dee Dee Bridgewater interpretando “All of me”, especialmente na versão ao vivo em Montreux com o francês Dede Cicarelli (70) na batera. Outro exemplo é o baixista virtuoso Marcus Miller quando, honrando Miles, executa “Tutu”. A essência do Jazz está ali.

O Jazzfest Berlin ainda teima e por um motivo muito específico consegue manter o status, sim, o elitismo da época de Berlim Ocidental, cercada por um muro. Em outro artigo eu já mencionei que o bairro em que está localizado o principal palco do festival se chama Wilmersdorf, um solo urbano adormecido depois das 20 horas. Um ditado popular chama esse fenômeno bairrista de “calçadas suspensas”.

Mesmo no dia de abertura, 01 e, pela primeira vez, com a presença de Monika Grütters, a Ministra da Cultura e que também foi minha professora na faculdade de “Gestão Cultural e de Mídia” na cadeira de “Assessoria de Imprensa e Relações Públicas”, as ruas ao redor se mostravam varridas .

Depois da ministra, que, para a consternação da plateia se revelou “fã de Jazz”, foi a vez da jovem norueguesa Mette Henriette, que foi expansivamente anunciada pelo curador do festival, o inglês Richard Williams, que provavelmente serviu de magnética para um surpreendente número de ingleses na plateia, o que não deixa de ser irônico, logo agora que a “novela Brexit”, depois do approach da advogada Gina Müller, a “viúva negra e através dela homérica derrota para a Premiê, Theresa May.

Esse aspecto involuntariamente irônico me faz lembrar de uma frase de uma colega atuante para um famoso jornal inglês. Com seu alemão com um inconfundível sotaque inglês, ela disse: “O mundo todo está em convulsão. O único lugar que é tranquilo é a Alemanha, mas os alemães estão cegos para isso“. Essa astuta percepção do país como um todo é também aplicável para a ilha de bairros que é Berlim.

Em 1237, ano da primeira menção da cidade, vilarejos diferentes foram unificados, mas cada um manteve sua característica e isso persiste até hoje, mesmo na Berlim mundana, centro cultural da Europa e capital da República. O Jazzfest honra essa teimosia e perdeu o trem da hora, o trem da contemporaneidade e o trem mais gostoso e necessário quando se trata de Jazz: O trem do desconhecido, o trem da improvisação, do surpreendente”.

O menos é mais de Henriette

Com somente 24 anos a saxofonista norueguesa com nome de sangue azul, Mette-Henriette adentrou o palco e, fazendo pirraça ou desestruturando a rotina de saxofonistas com solos intermináveis e de volume estarrecedor, ela simplesmente não tocou durante 2 minutos. Depois, em arranjos de uma letargia insuportável, ela começou a tocar ao contrário, ou seja, sugava do instrumento o ar e isso era tudo. De vez em quando, os músicos no palco como por exemplo o pianista Johan Lindvall, uma notas soltas no piano. Tudo muito em clima conspirativo, über-econômico de uma forma tão exacerbada que não dava para suscitar a pergunta se valeu a pena pagar a passagem aérea de Oslo para Berlim. Clima de cemitério. Depois vieram os solos de Henriette e me irritaram ver uma linda jovem mulher tao bela e tao über-intelectualizada musicalmente. A propósito intelectualização. As escolas de Jazz, especialmente da Europa, formam turmas que descascam o jazz até o bagaço, dominando a harmonia, mas sem incluir nela o inesperado, o susto, o surpreendente e na linguagem do ballet, o Elevé, o impulso de querer levantar da cadeira. Quando cheguei em casa, fui imediatamente ouvir bem alto Dee Dee Bridgewater na versão de “All of me” para dizimar a aura de intelectualidade injetada durante o show estéril, perfeito demais e demasiadamente calculado da saxofonista.

A falta da ousadia estilistica de um sueco maravilhoso

Ah, que falta faz o sueco e brilhante músico no trombone de vara, Nils Langdren. Esse sueco maravilhoso era o cara perfeito para a curadoria do Jazzfest. Agora, com o desloucamento do point do Jazz do bairro de classe alta Charlottenburg para o bairro de Neukölln, sudeste da cidade e polo de migração e efervescência cultural, a curadoria do Jazzfest perdeu a chance de apostar não somente no desconhecido, mas no inesperado, no inusitado e numa trilha estilística mais livre; não necessariamente com faz, há ano, o Festival de Montreux, mas algo que seja coerente e autêntico com a metrópole-bairro que é Berlim.

Em 2010, no ano da Copa do Mundo na África do Sul, Nils, trouxe para o festival a cantora sul-africana Lira, até então totalmente desconhecida na Alemanha. O show que consegui gravar por felicíssimo acaso, foi realizado com a minha primeira câmera digital comprada por 36 euros e que ainda funciona até hoje. Naquela noite de 2009, o adormecido e letárgico bairro de Wilmersdorf virou um caldeirão de um instigante e surpreendente Melange musical.

A dobradinha África do Sul-Suécia funcionou tão bem entre os dois músicos, que em fevereiro de 2014, Nils convidou Lira para se apresentar em Estocolmo.

Também na época de sua gestão como curador e diretor artístico do Jazzfest, Nils trouxe o trio da época: Moreno, Domenico & Cassim. Anos antes, em 2005 e sob a curadoria de Peter Schulze, o inesquecível Hermeto Pascoal, com sua genialidade e seu temperamento explosivo, marcou presença e chocou a plateia quando Schulze teve a ideia de mandar o multi-instrumentista holandês Han Bennik, espontaneamente, fazer Jam com Hermeto no palco. O brasuca, que não gostou nada da ideia, ficou vermelho de raiva, deixou o palco sem olhar pra trás, angariando vaias do público sempre muito solícito do Jazzfest. Hermeto que trazia Fábio Pascoal na percussão, Marcio Bahia na batera, Itiberê Marques no baixo elétrico, André Marques no Piano e Vinícios Dorin sax e flauta.

Anos ainda mais remotos, em 1975, Hermeto marcou presença com Egberto Gismonti no evento que, na época, tinha o nome emperrado de Berliner Jazztage. Na percussão, ninguém menos que Naná Vasconcelos.

Exceções em 2016

Tudo bem que uma agenda apertada não me permitiu conferir todos os shows, mas as exceções o oásis numa programação emperrada e sem tesão pelos riscos foi a formação do grande Jack DeJohnette que tocou com Ravi Coltrane (51) que não deixa nenhuma dúvida de qual  DNA carrega e com Matt Garrison no baixo. Também a banda de uma verdadeira pérola do Brooklin foi o octeto liderado pelo saxofonista Seven Lehmann que trouxe uma super rapaziada para Berlim com destaques para Jose Davila, na tuba, o elegantérrimo Mark Shim no saxofone tenor e Chris Dingman, sua meticulosidade ao trocar os tapetes do instrumento enquanto Lehman mandava no solo, roubando a cena total.

Um espetáculo e não um show, que aconteceu fora de Wilmersdorf, num Museu de Arte e Fotografia chamado Martin-Gropius Bau, foi a única experiência ratificada por uma ousadia estética com “For Pina”. Marta Robins fez uma homenagem a Pina Bausch (1940-2009), a pioneira do teatro-dança-contemporaneo que está sendo relembrada neste mesmo museu com uma exposição que vai até 09 de janeiro de 2017.

Shows também aconteceram no Instituto Maison de France, assim como na Igreja da Memória, no clube de Jazz, A-Trane e no Museu Martin-Gropius, todos os lugares na parte ocidental da antiga Berlim. A eferverscente parte leste da cidade ficou, totalmente, de fora do programa.

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