Jeff Beck retorna a Berlim depois de um jejum de três anos

Fátima Lacerda

20 de junho de 2018 | 19h03

Quando numa janela temporária de sete dias, se tem a escolha entre o virtuoso da guitarra, Jeff Beck, o show do Queens & Adam Lambert na Arena Mercedes Benz e para coroar, o show dos Rolling Stones no Estádio Olímpico (22/06), você percebe, mais uma vez, que Berlim é mesmo a capital cultural da Europa. O verão berlinense não poderia ter um melhor começo.

Desobediência circense

Na Berlim da época da Cortina de Ferro, Tempodrom era uma lona de circo localizada numa terra de ninguém, no centro verde de Berlim, o Tiergarten. Aquela então tela de lona foi testemunha mór da convulsiva Berlim Ocidental. Inúmeros super estrelas passaram por ali. Só para citar algumas: Caetano e Gil, num show depois do Brasil ser campeão em 1994. Milton Nascimento, Marisa Monte, Carlos Santana, Bob Dylan, Paco de Lucia, numa lista memorável e histórica e que é a bíblia dos tempos da Berlim cercada pelo Muro.

A dinâmica dos fatos foi delineando o destino do Tempodrom. O Muro foi colocado abaixo, Berlim se tornou capital da República e a ex-lona do circo se tornou uma lona de metal, a dois quarterões da minha casa. Na noite de terça-feira (19), o dia do aguardadíssimo show de Jeff Beck, finalmente, havia chegado.

O guitarrista do Rock ‘n Roll Hall of Fame, ganhador de oito Grammys e eleito pela Rolling Stone um dos melhores de todos os tempos já chegou na faixa dos 74 anos. Sua fisionomia revela que o cirurgião plástico deu umas retocadas, mas o que interessa isso, quando a musicalidade e virtuosidade do ex-guitarrista do Yardbirds e um dos pioneiros da Fuzz Distortion te transporta para um lugar metafísico, bem perto do divino. Sensação parecida quando se vê rodeado pela musicalidade de BB King, Miles Davis, Carlos Santana, Bob Marley e Gilberto Gil.

Beck está em casa em estilos musicais como o Rock Psicodélico, Sinfônico, Funk-Rock clássico, Blues Elétrico, Chicago Blues, Texas Blues, Folk Rock e o escambal, quase foi guitarrista do Pink Floyd, mas seu destino era para ser bem diferente mesmo que não tenha, durante tempo demais, angariado a fama da dimensão de Eric Clapton, Rod Stewart, Ron Wood e outros companheiros de estrada.

Em Berlim “El Becko” como chamado pelos aficionados que o seguem por toda a Europa, ele optou por um quarteto. Na bateria o eclético Vinnie Colaiuta, que já tocou com a metade do mundo musical, entre eles, Andrea Boccelli, Michale Bublé, Frank Zappa e Joe Satriani. O sensacional Jimmy Hall, cara de gringo cara-pálida, mas com uma voz que é a passagem direta para Chicago e o melhor da música negra Sua presença de palco tinha algo passional e urgente.

Rhonda Smith brilhou, como sempre, no baixo. Ela, poderosa, por poder exibir em seu CV ter sido parceira de palco de um dos mais exigentes perfeccionistas que a música pop já teve: Prince.

No violoncelo, Vanessa Freebairn-Smith, que apesar de inquestionável talento, tem tarefa árdua nas águas Fusion/Rock Garage e Design de sons da música de Jeff Beck.

O show que teve duração de uma hora e meia só teve uma única palavrinha do virtuoso da guitarra, dirigida ao público que, apesar da concorrência do The Queen & Adam Lambert do outro lado do Rio Spree e dos jogos da Copa do Mundo, enchia o Tempodrom pagando valores salgados pelos ingressos que variam entre 50 e 100 euros. Na noite de quarta-feira (20), Beck marca ponto no memorável Circus Krone em Munique. Cidades menores como Karlsruhe (Sul) e Mönchengladbach (vizinha de Düsseldorf) também constam no programa de shows da Alemanha.

Como em Berlim a imperfeição prussiana sempre se faz perceber, o microfone estava mais pra lá do que pra cá, o que resultou que a maioria do público, não percebeu o “Boa Noite, Berlim” de Jeff.

Ao conversar com o Christian depois do show e mencionar que “ele nem falou com o público”, o aficionado pelo Beck desde a época dos Yarbirds, revidou: “Ele falou sim,e estava super bem humorado”, além de acrescentar que falar com a plateia é algo muito raro. Christian ainda adicionou que “Beck fica super aliviado quando tem um cantor na turnê, assim ele deixa a responsabilidade das falas com ele“, assegurou.

Repertório

Uma feliz união de velhos e novos sucessos fez a alegria dos berlinenses: “Morning View“, “Big Block“, a aguardadíssima e um verdadeiro Must, “Brush with the Blues“, do disco “Who Else?”. O grande Jimmy Hendrix não poderia faltar com “Little Wing”, mas tudo isso não foi nada quando, sentada na primeira fila do lado esquerdo do palco, lugar onde o mais virtuoso e ousado dos guitarristas preferiu ficar. Mesmo quando de costas para a fileira da esquerda, sua pulseira de prata no braço direito que ele tanto gosta de exibir, brilhava de todos os ângulos. Porém o banquete musical teve seu ápice nos primeiros acordes de “Diamond Dust” e “Cause We’ve Ended as Lovers“. Além da lista primorosa de músicas no repertório, ele foi comedido em manter as músicas em duracao curta, não se deixando, como muitos outros, seduzir pelo refrão “conhecido” e “groovy”. Aquela coisa de Everybody clap your hands foi até ensaiada e instigada por Jimmy Hall, mas não colou.

A última vez que Jeff Beck marcou presença em Berlim foi em 2014, show em que eu não estava. Minha lembrança dele em Berlim é de 2011 e anos antes em várias edições do festival de Montreux, à beira do Lago Lemán no país do chocolate, dos quais participei. E por falar na cidadezinha mais linda e mais atrativa da Suíça. Ao contrário de Montreux, um cidade que vira palco de peregrinos que vem de toda a Europa não para assistir, mas para venerar, inalar seus ídolos, seus deuses musicais. Os berlinenses estão bem longe dessa paixão desenfreada. Os alemães consomem cultura através do intelecto. As cadeiras não cocam, as entranhas não tremem. Pra mim é impossível me sentar comportadinha numa fileira, onde que ali está segue uma postura de ser “servido” com o banquete musical. Além disso, o cara sentado exatamente na frente do Christian não “somente” tem um pescoço de girafa, mas como também consumia sua porção de Nachos, enfiando os dedos no molho e falando de boca cheia com a sua cara-metade, sentada ao seu lado direito. Isso também é Berlim: por um lado, pode-se interpretar esse comportamento como desprendimento de regras pré-estabelecidas. A outra forma é interpretar como uma super falta de percepção do que é comportamento social adequado à hora e ao lugar. Por minha sugestão, levantamos dali daquele lugar e fomos nos postar no canto esquerdo, em pé até a promotora vir me oferecer dois lugares na primeira fila, onde fiquei até ouvir, já no final do show, os primeiros acordes de “Supersticion” canção que Beck apresentou juntamente com Stevie Wonder no aniversário de 25 anos de shows do Hall of Fame . Corri para atrás onde ainda estava Christian e a dança frenética iniciou. Como tem que ser, com essa música.

Os funcionários de “apoio” da firma BEST são, no Tempodrom, sempre os protagonistas de corta tesão, impedindo que os fãs mais apaixonados chegassem na frente do palco. Decerto que é bem legal ter o Jeff Beck tocando a dois quarteiros da minha casa, onde nem mesmo se faz necessário tirar a bicicleta do bicicletário, mas a paixão do público em Montreux é incondicionável, visceral e isso, Berlim fica (quase sempre), devendo.

Para parâmetros berlinenses, o show foi um dos Highlights da semana de início de um verão que, musicalmente, promete. Além do show dos Rolling Stones, um outro aguardadíssimo músico estará presente no calendário musical da cidade à beira do Rio Spree: Ninguém mesno que o baiano Gil em 19 de julho.

 

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