Berlinale: Jia Zhangke por Walter Salles

Fátima Lacerda

16 de fevereiro de 2015 | 13h38

201507267_2.jpg©Berlinale

No fim de um dia insano de trabalho, ao invés de uma entrevista em formato clássico , a assessoria de imprensa ofereceu para a imprensa digital um encontro informal com o diretor Walter Salles e 5 jornalistas brasileiros. Chegamos na secura para finalmente executar a tão aguardada entrevista num momento de permanente luta contra o relógio, na corrida para o próximo filme que seria exibido bem longe dali.

‘Não senta na cabeceira, senta no meio, fica mais informal”, disse Anna Mueller, a coordenadora de imprensa.

Iniciou-se uma conversa informal, quase todos presentes na mesa eram velhos conhecidos, incluindo a autora deste artigo, que esteve presente na cerimônia de premiação dos Ursos de Ouro e Prata naquela noite de triunfo dobrado para o cinema brasileiro em 1998. 

Falou-se sobre os filmes exibidos no festival. ‘Ate agora eu só tive tempo de assistir o filme Guatemalteco “Ixcanul Vulcano“, comenta Walter.

‘Me agradou profundamente a percepção dele do cinema como arte de abstração”, disse Walter que naquela noite assistiria o filme de Wim Wenders,   Tudo vai dar certo”.

Dias anteriores já havia presenciado o bate-papo entre Walter e o diretor alemão Sebastian Schipper (guarde bem esse nome, que ainda vai dar muito o que falar!!!) na plataforma de jovens cineastas, o Berlinale Talents.

Uma das razões que me faz ratificar que Walter se encontra no melhor momento de sua carreira é a autenticidade e simplicidade do discurso.

Entrevistá-lo, seja no formato clássico de pergunta-reposta ou no âmbito de uma conversa de grupo, é um passeio para todo jornalista porque você sabe que vai sair dali com um material tão abrangente e consistente que toda a espera, terá valido a pena.

O que você vê de especial na Berlinale?

A percepção de que Berlim continua sensível ao cinema latino-americano. Eu gostei muito do filme guatemalteco, dos silêncios que o Jayro (Bustamante)posicionou entre os diálogos. Se você sente o cinema como a arte da subtração, o silêncio do filme mostra que o diretor entendeu isso.

201507267_1-1024x377.jpg©Berlinale

Como você conheceu o trabalho do Jia?

Eu soube dele aqui (em Berlim) em 1998. Na época assisti “Xiau Wu” (Um artista batedor de carteira) e fiquei impactado e sensibilizado pela maneira em que a memória pessoal que ele traduzia pro cinema, se mesclava ao registro de uma memória coletiva que era a transformação que o país estava sofrendo aquele momento. Essa sensação se aprofundou quando eu vi “Plataforma” e mais ainda no filme “Em busca da vida”, que pra mim  é um  marco do cinema contemporâneo. Como esse trabalho ele havia se tornado um dos mais importantes realizadores do cinema moderno. ‘‘Aconteceu de uma maneira muito fluída com o debate que nós tivemos na mostra de São Paulo em 2007. Com esse debate criou-se uma relação que culminou na ideia do livro e do filme. O difícil foi conciliar a nossa agenda, mas acho que foi bom ter demorado 7 anos para a realização porque a obra dele se tornou mais ampla. Eu queria entender de onde ele era, por ser uma geografia física e humana muito especifica já que o dialeto que se fala em Fenyang é em tudo diferente do mandarim. O engenheiro de som entendia tão pouco do dialeto quanto os brasileiros que estavam lá filmando, o que faz com que os filmes do Jia, muitas vezes precisam de legendas em mandarim na própria China ou seja, Jia e um realizador entre fronteiras dentro do próprio país. Além do imenso talento que ele tem, ainda há um olhar muito específico.

Num dos momentos mais poéticos do filme, o Jia declara que quandoas filmagens ocorrem sem transtorno, ele fica intrigado, acha que perdeu o olhar para o essencial e abdicou por tenhas novas trilhas. Como você lida com os imprevistos?

Você filmando um documentário você esta constantemente confrontado ao inesperado. Durante as filmagens o próprio Jia foi nos possibilitando atravessar situações inesperadas, possibilitando acesso a lugares para os quais nós não tínhamos requerido autorização para filmar. Dentro da cidade de Fenyang, o Jia  era abordado por pessoas, não como diretor, mas como um amigo, “Um filho de Fenyang” que tem muita admiração no mundo do cinema. Não existe essa barreira de diretor ou amigo, porque o Jia não as coloca. Ele possui extrema sensibilidade ao mesmo tempo que permanece simples. Talvez exatamente por isso, ele esteja a escuta do seu tempo.

O que o Jia faz de melhor?

Ele propõe um reflexo no tempo em que ele está vivendo. Ele fez isso em “Plataforma”, “Em busca da vida”. E muito difícil você falar do tempo presente e ele consegue fazer isso de uma maneira muito colada ao presente, de uma forma que o tempo se torna personagem do filme. Ele percebe o cinema ao mesmo tempo como algo coletivo e bem pessoal.

Uma outra coisa que exerce grande impacto sobre mim e que o Jia diz:” Isso pode ser assim. Essa capacidade de relativizar, de não da uma definição apressada das coisas. Isso caracteriza tanto o homem quanto a obra que ele construiu. Talvez haja nessa forma de se expressar, um paralelo com a pintura clássica chinesa. Nela, você tem varias partes do quadro escondidos, instigando inúmeras possibilidades de interpretação. Essa é uma boa definição de cinema. Lembrando o (Abbas) Kiarostami, que diz: “O cinema e sobre o invisível que complementa o visível” e o Jia carrega isso dentro dele, em sua forma de se expressar. Traduz isso nos seus filmes. Nunca julga os personagens. Isso também é bastante particular no cinema.

Você também fica instigado quando as filmagens ocorrem sem quaisquer transtornos?

Eu gostaria que fosse assim o tempo inteiro…

O que o Jia faz é de uma equação quase que única, de conseguir fazer das memórias daquilo que ele capta nos jornais chineses, ele transforma em materia fílmica ao tempo que a memória pessoal se transforma em memória coletiva porque ele registra um país em mutação e a partir do momento que aquilo vira filme, volta a ser pessoal pra ele. Por isso que a gente pediu que ele voltasse aos locais de filmagem, porque buscamos uma camada adicional que é a questão da memória.

Próximas estações da carreira do filme que iniciou com a exibicao paralela em Roma e Sao Paulo seguida da projeção na Berlinale:

Convite de festivais na França

Convite de 2 festivais da China

Vários Festivais da América Latina

Já confirmada  a participação no Festival de Guadalajara

Estreia no circuito nacional: Final de Abril

Estreia em Portugal: Final de 2015

Quanto ao livro: Surgiu a possibilidade de impressão nos EUA, China e Japão.

 

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