Jogando pelo Wolfsburg, Dante ainda é um peixe fora d’água

Fátima Lacerda

24 Setembro 2015 | 08h50

danteDPA-graetsche-hannover-16x1.jpg©DPA

Vestir a camisa vermelho e branca de um dos clubes mas poderosos da Europa é o sonho de qualquer garoto que sonha ser jogador de futebol. Para o mineiro Dante Bonfim Costa Santos, o Dante, jogar no Bayern era mais do que ele poderia sonhar em seus tempos de Belo Horizonte. Durante os 3 anos que ficou em Munique, ele pode perceber e se integrar perfeitamente na filosofia do clube: vencer, vencer, vencer. E não é do tipo, levar 3 pontos pra casa e ficar feliz da vida. A filosofia do Bayern é: “Depois do jogo, é antes do jogo”. O próximo desafio está batendo na porta. Não é como o Cruz Maltino, atualmente com a corda no pescoço, só consegue vislumbrar um horizonte pequeno, de jogo pra jogo, de derrota pra derrota.

Enquanto vestindo a camisa vermelho e branca, Dante ganhou o campeonato alemão, a Liga dos Campeões e a Taça da Federação Alemã de Futebol (DFB) na temporada em que o Bayern conquistou o Triplo, isso tudo antes da Era-Guardiola.

O início do fim

Com a chegada de Guardiola no Bayern e a pressão de defender o Triplo, deixado como legado pelo antecessor Jupp Heynckes, o catalão começou a restruturar o time. Todo mundo sabe que Guardiola é adepto da polaridade no quesito simpatia. A forma que ele salda um jogador à beira do campo, ele estando de saída ou entrando pra jogar, é sintomática e já se tornou um critério midiático para analisar, operativamente, a situação do clube.

Foi no jogo em março desse ano, contra a equipe do Hannover 96, que foi lacrado o fim do brasuca no clube bávaro. Atípico em trocar jogadores no primeiro tempo, Guardiola não pestanejou em trocar Dante pelo atacante Robert Lewandowski (ex-Borussia Dortmund) já nos 33 minutos do primeiro tempo. Para ratificar o seu imenso desagrado, ignorou os costumes e não deu aperto de mão e nem mesmo olhou para a cara do brasuca, o que na Alemanha é um sinal de total reprova. Nesse momento, os analistas da TV paga, Sky, já prognosticaram a saída de Dante no verão de 2015, mesmo com contrato, na época, vigente até 2017.

Na coletiva de imprensa, na sequência, Guardiola justificou em voz de poucos amigos: “Eu não gostei do que vi, por isso tive que mudar a tática”. Depois desse jogo, foram poucas as vezes que Dante jogou os 90 minutos. Na maioria das partidas, ele amargava o banco de reserva.

Veio o verão e Dante não voltou para o seu antigo clube, o Borussia MönchenGladbach. Ele foi para Wolfsburg, uma cidade industrial, chata e monótona. Uma exceção acontece nesses dias com a renúncia do diretor da Volkswagen, Martin Winterkon, devido ao escândalos envolvendo os carros movidos a Diesel que a VW vendeu nos EUA. A cobra está fumando na VW em Wolfsburg e Dante, jogando pelos Lobos, se mostra um peixe fora d’água. Agravantes sao a diferenca de mentalidade. O norte é evangélico-luterano, frio e nada festeiro. O sul é rico, católico e muito, muito festeiro, casando muito bem com características da cultura brasileira.

DanteDPA1.jpg©DPA

Na partida de terça-feira, Dante teve um desafio especial para enfrentar: jogar contra a sua ex-equipe no Estádio Allianz Arena, em solos bávaros. O placar final de 5 X 1 para o Bayern, permite, pela dinâmica do jogo, associações com o trauma dos 7 X 1 naquele fatídico julho de 2014 durante a Copa do Mundo do Brasil. Lewandowski marcou 5 gols em 9 minutos. Com um placar final desses, até se esquece que Dante jogou bem no primeiro tempo e até foi coautor do primeiro gol e que ainda segurava a barra enquanto outros Lobos já se mostravam desorientados em campo devido ao ataque fulminante dos bávaros. Ai se viu a falta que faz um (Kevin) De Bruyne, atualmente vestindo a camisa 17 do Manchester City.

Até o sexto gol do Bayern, dante conseguiu evitar em mano a mano com seu ex-colega de equipe, Robert Lewandowski, o mesmo pelo qual foi substituído no jogo contra o Hannover 96 em marco desse ano. Aqui se faz verídico o ditado popular das terras daqui, que promete: “Na vida a gente se encontra duas vezes” (Man sieht sich immer zwei Mal im Leben). Porém, o “elogio” de Lewandowski frente às câmeras de TV com a frase: “Dante é um bom jogador” deve ter ferido ainda mais o brasuca.

Dante estava em terreno caseiro e no topo de sua carreira quando jogava no Bayern. No Wolfsburg, ainda tem muito chão até ele se aclimatizar, caso isso venha acontecer durante o período de 3 anos de contrato. O bouquet de flores oferecido pelo Presidente do Bayern, Karl-Heinz Rummenigge como “presente de despedida” deve ter aumentado ainda mais a melancolia daquele que foi retirado da equipe. Depois do 7×1 na Copa do Mundo, Dante nunca mais foi o mesmo jogador. 

Faz parte de um fetiche dos alemães, tentar fazer da despedida algo agradável. Para quem tem sangue latino, isso é impossível de entender. Ao invés de ter como parceiro de sofrimento, David Luiz, agora Dante tem a companhia de Naldo (25), que, além de estar totalmente integrado na equipe, já demonstrou se sentir “em casa” na apelidade Cidade Carro (Auto-Stadt) Wolfsburg. O público brasileiro já conhece o Slogan dos anúncios de carro na TV: Volkswagen: Das Auto (O carro).

Os traços da carreira de Dante são atípicos, mas talvez não seja tarde demais para que ele supere o trauma da ter caído na desgraça de uma catalão vaidoso e polêmico, e consiga voltar a ser decisivo nos campos junto com os Lobos.

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