John Kerry elogia o governo alemão no lidar com o fluxo de refugiados

Fátima Lacerda

21 Setembro 2015 | 12h01

  DPAKerry.jpg©Reuters

Final de tarde de domingo (20). Na residência de representação do Ministério das Relações Exteriores, houve uma consultação entre John Kerry com o seu colega, o social-democrata, Frank-Walter Steinmeier. O assunto principal da conversa, seguida de uma coletiva, foi a guerra civil na Síria.

Kerry, em turnê pela Europa e vindo de Londres, quer retomar os esforços no âmbito diplomático de olho numa solução pacífica da Guerra Civil que já dura desde 2011. Sobre a Força-tarefa de Kerry, seu colega alemão, declarou: “Depois de anos, essa guerra que já matou tantas pessoas, temos a obrigação moral de interferir”. Para não parecer uma simples “filial” da política americana na Europa, Steinmeier já havia divulgado o “retomar a agenda Síria” em discurso no Colóquio que aconteceu quinta-feira (17) na cidade vizinha de Potsdam, protagonizada por cientistas políticos e jornalistas que discutiram sobre a crise ideológica e cultural que acomete a UE na edição de 70 anos de aniversário do Tratado de Potsdam (1945). Eu fui a única jornalista da América Latina.

Elogio do Big Brother

Kerry fez elogios sobre a forma “exemplar para o mundo” que a Alemanha lida com o drama dos refugiados. Já seu colega alemão, justificou a nova empreitada de forma diplomática, mas pouco consistente, mesmo porque, o carro-chefe dessa empreitada serão a Rússia e os EUA, que por ironia da historia, se reaprocimaram. Kerry está ciente de que, sem o apoio de Wladimir Putin e sem o Irã, não haverá sucesso nessa nova tentativa. Ratificando sua retórica diplomática, ele criticou “o frequente fornecimento do governo russo para o ditador Assad” e alegou que “isso poderá dificultar uma solução”, mas logo em seguida, voltou a ratificar a “necessidade de manter o diálogo”. Porém enquanto os “diálogos” vão sendo tecidos em velocidade de tartaruga, a população civil continua sendo massacrada na Síria.

Oportunismo diplomático

A ficha caiu tarde demais (e isso vale) tanto para os governos europeus como para o americano. Enquanto a cobra estiver fumando nas regioes de crise, a Europa continuará sendo o símbolo do Eldorado para uma vida sem guerra e o êxodo em direção às fronteiras por terra e por mar, ficará cada vez maior e “pegando de surpresa” que achava que a zona da UE era o país das maravilhas.

Solidariedade em doses homeopáticas

Igualmente a Inglaterra, o governo de Barack Obama só divulgou a oferta de receber mais refugiados, depois de forte pressão politica e midiática. Dos 70.000 até agora, em outubro próximo, uma rebarba de10.000 de sírios terá permissão de entrada nos EUA. Em 2017, o contingente passa para o número de 100.000, se compromete Kerry que confessou querer fazer “mais pelos refugiados”, entretanto, o governo teria dificuldades em habilitar recursos humanos para executar os procedimentos de segurança no contexto de cadastramento dos refugiados.

Steinmeier fez as honras da casa, como exigie o protocolo, mas o encontro serviu somente para ratificar de uma intenção, a priori, marcar ponto para comunidade internacional, que os EUA não esqueceram da Síria. Essa Força tarefa entre os EUA e a Rússia, dando carona para a Alemanha, não parece promissora e a retórica de Obama mostra isso. Desde a anexão da Criméia, Obama se refere ao presidente russo somente como “Mr.Putin”. O saldo positivo é que, depois de 2 anos de geladeira diplomática entre os dois países, os ministros russo e americano falaram diretamente ao telefone. Para a solução de um problema da complexidade da guerra civil na Síria é preciso muito mais, inclusive qual destino será dado a Assad, que segundo Kerry “é infactível que o ditador, de alguma forma, possa fazer parte de uma transição para a democracia”.

Debaixo do tapete

O rígido protocolo, acertado anteriormente à visita, estipulou que escândalo de espionagem, envolvendo a agência NSA, não seria tema das conversas em Berlim. Tudo indica que o governo alemão “arquivou” o escândalo que envolveu não somente 80 milhões de alemães, mas também o grampear do celular de Ângela Merkel. Essa atitude do governo em Berlim não tem somente origem na falta de vontade politica em esclarecer o escândalo. Seria preciso coragem e ousadia perante ao parceiro EUA, para desvendar o que realmente aconteceu. Seria mexer numa casa de marimbondos.

Uma das poucas linhas ideológicas da chanceler Merkel, é manter harmônica as Relações transatlânticas. Tirando os nove fora, ninguém sabe (e nunca irá descobrir) , o quanto o Serviço Secreto Alemão (BND) sabia da espionagem e o quanto de dados foram fornecidos de mão beijada para “auxiliar” o trabalho da NSA, medida que cumpria cláusulas de um contrato ainda existente, mas que obsoleto por ter sido assinado durante a Guerra Fria tomando como referência uma Ordem Mundial de outrora. Também em terras alemães, existe a pratica do ninguém sabe, ninguém viu e ninguém se lembra. A visita de Kerry em Berlim foi só um início. Antes de chegar na Síria, ele precisará de bater ponto em Moscou. Sem a mediacao da Rússia, a guerra civil na Síria ainda custará muitas vidas.