Karamba Diaby: afrodescendente membro do parlamento alemão é vítima de racismo nas redes sociais

Fátima Lacerda

24 Agosto 2017 | 12h15

©DPA

Se chamar “Fátima” num país avesso ao que é “estranho” ainda mais se esse “estranho” tiver a ver com uma religião da qual, por um lado, se sabe muito pouco, de outro é tomada como “aval” e “legitimação” por criminosos sórdidos, sociopatas que escolhem o ódio como caminho é um perrengue (para dizer ao mínimo), mas nada comparado com o nome Karamba Diaby. Se o dono desse nome ainda for negro e nao ter a cara de “alemao” que a maioria imagina, a tarefa é muito mais árdua do que, simplesmente, se chamar “Fátima” num país como a Alemanha.

Não são somente perrengues nas repartições ou no momento quando se é apresentado a quem não se conhece e tem que ouvir um silêncio de 2 segundos, sentidos 20, enquanto o outro adentra o armário de rótulos e procura um para aquela situação. Especialmente pra você.

Karamba Diaby nasceu no Senegal, foi para a Alemanha Oriental para fazer faculdade de Química e também fez mestrado em Geologia. Hoje ele tem a cidadania alemã. Diaby almeja reeleição para voltar compor a bancada dos social-democratas (SPD, na sigla) na Câmara Alta do Parlamento, o Bundestag.

Dia 24 de setembro os alemães estão convocados para as eleições federais, que constituirão o novo parlamento e, como desdobramento, exibirá uma nova constelação partidária a do atual período legislativo.

O ódio

Em entrevista ao jornal de leitores conservadores, o Frankfurter Allgemeine Zeitung, (FAZ, na sigla) Diaby foi perguntado se, apesar de 30 anos na Alemanha, ele teria contato com “tanto ódio”. “Não, eu não contava com tanto. No passado eu fui vítima de várias manifestações de racismo, por exemplo, quando eu me posicionava sobre a Política de Asilo. Porém, atualmente, essas manifestações são brutais como nunca nos 30 anos em que vivo aqui“. O artigo no FAZ leva o  título: “Não me deixarei intimidar“.

http://www.faz.net/aktuell/politik/bundestagswahl/schwarzer-spd-politiker-ich-lasse-mich-nicht-einschuechtern-15164556.html

“Macaco”, “Inimigo da Pátria”, são “somente” alguns dos xingamentos. A palavra “Neger”, abreviada na imprensa como “N-Wort”, e que simboliza a descrição de raça (Preto com “cabelo ruim” e extremamente ofensiva, já que descreve afrodescendentes como “raça inferior”. Esse mesmo argumento foi utilizado por Adolf Hitler durante os Jogos Olímpicos de Berlim (1936) para justificar a triunfal atuação do atleta Jesse Owens, que saiu da Berlim nazista com 4 medalhas de ouro. Hitler justificava a vitória com “animalidade da raca inferior”.

Resistência

I am not your Negro” é produto de um manuscrito interminável do autor James Baldwin, falecido em 1987, mas deixou importante manuscrito de grande valor histórico e social. Um manuscrito sobre o movimento pela igualdade racial nos EUA e sobre a ignorância da supremacia branca.

©Berlinale

Usando o título da coprodução EUA, Alemanha, França e Bélgica, que foi exibida na Mostra Panorama deste ano da Berlinale, o deputado declara na entrevista publicada quinta-feira (24): “A reação foi muito positiva. Milhares de pessoas prestaram solidariedade e ratificaram que “Não vão aceitar essa postura” e acrescenta: “As pessoas que espalham esse ódio querem nos intimidar e calar a democracia. A gente não pode permitir isso“, garantiu e optou pelo discurso solícito e que ainda irá angariá-lo mais Postings positivos: “A Alemanha é um país aberto, um país solidário. Esses racistas não são a maioria e as reações aos Postings, mostram isso. E foi isso que me deu coragem“. De fato, a Alemanha é um país, onde a sua esmagadora maioria é por um país tolerante, porém os país se vê, considerando também as próximas eleições, frente à imensos desafios, em vários setores da sociedade.

©Berlinale

Quebra de tabus

Nos últimos anos, na Alemanha, a Internet tem se mostrado um lugar fora de qualquer regra de decoro. Tabus são permanentemente quebrados. A retórica do ódio, do racismo e do posicionamento ideológico não tem limites. O Ministério alemão da Justiça tem tido dores de cabeça, por exemplo, ao querer obrigar a empresa de Marc Zuckerberg em “Apagar comentários de Haters” no Facebook.

Em 2015 a chanceler Merkel, mandando “recadinho” para Zuckerberg, declarou em entrevista ao jornal Rheinische Post: “Quando usuários, sob seus verdadeiros nomes, proclamam o ódio não é “somente”o Estado que tem que reagir, mas também a empresa Facebook“. Críticos, entretanto, acham “problemático” o governo alemão dar a uma empresa o arbítrio de decidir o que é legal, ilegal ou imoral.

Caso de polícia

Diaby deu queixa na polícia e fez BO contra os autores das ofensas em sua página do Facebook. Perguntado pelo autor da matéria no FAZ, Oliver Georgi, se acha que “isso irá dar algum resultado”, Diaby engata, de novo, na retórica diplomática: “Eu acredito no Estado de Direito. Estou confiante, que os autores desses Postings não irão ficar impunes”.

O caso envolvendo um parlamentar em campanha e com um pauta que resultou visibilidade será, de fato, investigado.  O que a imprensa não vê, são as manifestações de racismo e exclusão que acontecem diariamente na Alemanha. Quem pensa que em uma cidade esclarecida e metropolitana como Berlim estaria fora desse mapa nada honroso, se engana. Entretanto, motivo realista para uma esperança no fundo de um túnel cade vez mais interminável é a reação positiva e de solidariedade nas redes. Subtraindo aqueles que querem ficar bem na foto como “cidadãos corretos” e “defensores da democracia” tem os que percebem a solidariedade um instrumento inseparável de cidadania exercida e encaram a postura, digo, batalha diária, ao defendê-la e isso mesmo sob o Boom dos populistas de direita que se fantasiam de burocratas para em ambientes estabelecidos, então, destilar seu discurso de ódio, se tornou ainda um maior desafio.

O que continua valendo é que a premissa do tempo em que se vive na Alemanha, nesses tempos sombrios, é ainda menos relevante como instrumento de legitimidade e já nada serve como  “Carterinha de adaptação”. Aspectos como cor da pele e cabelo, o grau de domínio da língua alemã são ainda os critérios mais previsíveis para um rótulo, instrumento intrínseco dessa cultura. Ontem e hoje.