Lenine: Entrega musical sobre o céu da capital

Fátima Lacerda

27 de julho de 2014 | 14h29

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A minha impressão de Lenine como um trovador, músico itinerante, se ratificou durante o encontro para entrevista no pátio da Casa de Culturas do Mundo na tarde de ontem (26). Eu queria gravar a entrevista num cenário que remetesse a Berlim. À beira do Rio Spree ou em cima da área verde em frente a casa de cultura mais prestigiosa da capital. Porém, nessa altura do campeonato, meia-hora antes do início do show, a área do terraço já estava tomada, em sua maioria por brasileiros, seguidores e exímios conhecedores das músicas do Leão do Norte. Mas também membros do clube berlinense dos fanáticos por cultura (esses que você sempre encontra num evento dessa natureza) estavam lá, predispostos à (novas) descobertas musicais.

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Trecho de “A Rede”:

O calor na capital  (com todo o trocadilho) era tropical. Cheguei no local marcado e na hora marcada. Tami, acompanhando Lenine na turnê, me levou ao camarim. Conheci o empresário, a esposa de Lenine e fui direto ao jardim onde fui recebida com gentileza de um abraço e um beijo. Lenine é gentil na forma, mas firme e conciso no num discurso que é profundo e ao mesmo tempo, envolvido por uma sinceridade ensolarada. Ariano Suassuna (com quem Lenine, segundo um tuíte, passou uma tarde inesquecível, era parar ser tema da entrevista, mas o adiantado da hora, não permitiu), nos ensinou, nos deixou o legado: “O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso” e Lenine é um desses realistas esperançosos. Seriedade, profundidade e leveza não são dicotomias nesse que é um (literalmente) verdadeiro embaixador de culturas, em suma, um artista simples e complexo.

Por questões jornalísticas (e não musicais, que isso fique bem claro), a minha idéia anterior era entrevistar somente Lenine, mas que bom que seu empresário, fazendo de forma prussiana o dever de casa, chamou Martin Fondse para se juntar a nós. O holandês simpático e bem fluente no domínino da língua brasileira, chegou exatamente na hora em que eu perguntava a Lenine, como surgiu a idéia de fazer o projeto “The Bridge”. Muitas vezes, projetos culturais são justificados com explicações mirabolantes para que alcancem credibilidade quando vinculadas pelos instrumentos marqueteiros, para ajudar a equipe que “vende o peixe”, enfim. No caso do projeto “The Bridge” Recife – Amsterdam, não é assim. Tem profissionalismo? Tem! Clareza de concepção? Também, mas tem respeito pra própria arte, tem esmero, tem paixão.

Como se deu a ideia do projeto, você acompanha na entrevista de vídeo (veja link abaixo):

https://www.youtube.com/watch?v=xhruIZPxmTY

Aqui você ve a II Parte da entrevista, onde Lenine fala sobre a naturalidade, desde sempre, de sua preocupação com assuntos que fazem do planeta um lugar melhor e como vê o indivíduo, no meio de tudo isso.

https://www.youtube.com/watch?v=2KAOp6say1k

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Entre Lenine e Martin rege uma admiração mútua, um respeito gigantesco. É tudo muito sincero. Claro que no palco Lenine é o foco de tudo, principalmente nas primeiras músicas do show. Mesmo assim. Cada músico tem o seu solo, alguns mais longos outros mais curtos. Lenine se vira para a violonista, sorri pra ela, mexe com os quadris, vira a cabeça pro lado, recebe o sorriso de volta. Martin, diretor musical, mostra o trabalho em progresso no palco, quando, como fazem os músicos entre si, sinaliza com a mão quantas barras antes da virada ou antes do refrão. Lenine, quando decide operativamente repetir a estrofe, também manda um sinal, mas basta enviá-lo pra Martin. O holandês, porém, tem que esticar o braço e fazer um sinal de 4 ou de 8 ou de 2 pra todos os músicos no palco.

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O papel de Mestre de Cerimônias foi de Martin, que mandou em inglês, português e algumas palavras em alemão. No final, antes da performance das duas melhores músicas do show, ele, ao microfone, disse em inglês: “Agora faremos uma homenagem ao país que deveria, por direito, ter sido campeão do mundo, arrancando um “….ahhhh…” e expressões de felicidade dos torcedores brasucas na platéia. Alguém bem na fila do gargarejo gritou em alemão “Holland!!!”. O holandês, depois de sentidos minutos, se pronunciou: “A Holanda também merecia ser campeã do mundo”. A conexão do assunto futebolístico e a intencionada apresentação do evergreen do pernambucano não foi bem esclarecida, mas o que interessa quando, na sequência, vem um “Leão do norte” com um arranjo que esbanjava sofisticação, um “tapete” cuidadoso e uma sonoridade de jazz progressivo com a dinâmica do tipo que a qualquer momento aquilo pode explodir, enquanto Lenine esbrabejava a voz de incomfundivel urgência nordestina. Num intermezzo, sublinhando a linha musical jazzística dada à banda por Martin, o baterista Dieter-Peter Kölsch, mesmo com provido de set econômico, mandou uma batucada que não fica devendo pra ninguém do Olodum. Junto com Lenine, em eletrizante batalha musical, Dieter levou o público berlinense ao êxtase e isso, como já lamentado aqui inúmeras vezes, é muito, muito raro. Mas o momento (quase) solo e brilhante de Lenine viria com a interpretação de O Silêncio das Estrelas.

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Num show de verão, sobre céu aberto e público faminto por balançar o esqueleto, Lenine ousou o über-intimista. A interpretação caracterizada por uma total entrega, tinha o acompanhamento sensível do piano de Martin Fondse. 6 minutos de interpretação e lá fora, o público em silêncio absoluto. A postura de Lenine preparou o terreno e nos “obrigou” à embarcar na sua intenção. Viajamos com ele na filosofia sobre a procura incessante pelos caminhos da vida. Abrindo os braços como quem procura o caminho a seguir e assim en passant, nos fazendo seus cúmplices, ele foi o nosso espelho, nos instigando a viajar incessantemente e continuarmos a procurar nossos caminhos, sejam eles pelo recife, pela capital holandesa ou pra onde todos os caminhos nos levam: Pra Berlim.

Um show apaixonante na forma e eletrizante no conteúdo.

 

 

 

 

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