“Liberdade para a Europa”: usando o vento favorável vindo de Trump, populistas demonstram união na cidade alemã de Koblenz

Fátima Lacerda

21 Janeiro 2017 | 14h45

Chairs are prepared with placards with the names of Germany's Alternative for Germany (AfD) leader Frauke Petry, Matteo Salvini of the Northern League and Netherlands' Party for Freedom (PVV) leader Geert Wilders before the start of a European far-right leaders meeting to discuss about the European Union, in Koblenz, Germany, January 21, 2017. REUTERS/Wolfgang Rattay

Não foram preciso nem mesmo 24 horas depois do lastimável evento de “Inauguration Day” para mesmo antes partir para o “Baile de Posse”, para o novo presidente dos EUA revogar consideráveis itens da medida que foi a menina dos olhos dos 8 anos de governo de Barack Obama. A partir de agora, quem vive na miséria ou com o mínimo para sobreviver além das classes de baixa renda não mais poderá ter assistência médica da forma atualmente conhecida. Isso é que se chama de um retrocesso XX Plus. Do site da Casa Branca também sumiram itens concernentes à mudança climática e aos direitos da comunidade LGBT. Retrocesso blitz tamanho XXL é o nome disso.

No outro lado do oceano atlântico, populistas de direita (extremista) se encontram na cidade de Koblenz, na regiao de Saarbrücken, sul da Alemanha. Pela primeira vez juntos estao os 4 expoentes do populismo de direita: Marine Le Pen, candidata do partido FN para a presidência, o italiano Matteo Salvini do partido separatista Liga Nord, o holandês Geert Wilders do partido PVV que no dia seguinte do resultado do BREXIT escreveu no seu twitter: “A próxima será a Holanda” e alemã Frauke Petry, do partido que se autodenomina “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla).

O congresso, do ENF “Grupo das Acoes e das Liberdades” da qual Marine Le Pen é Copresidente cai como uma luva para o partido alemão, organizador do evento e do qual a diretoria é uma verdadeira cova-de-leõese que tem o intuito de tornar conhecida a chefe do partido, Frauke Petry, o maior encalço no sapato de Angela Merkel, mais claramente depois que a política da chanceler “escorregou” para a esquerda,  deixando o centro, ocupado por seu partido durante décadas, vazio.

Por que Alemanha?

O evento acontece na Alemanha por um claro motivo estratégico. Entre a tropa dos líderes populistas de direita e extrema direita, Petry é a menos conhecida internacionalmente e precisa dos holofotes da tao odiada “mídia mentirosa” (Lügenpresse, em alemao uma expressão originada na época do nacionalsocialismo de Hitler, sinônimo de “Jornaleco”) para fortalecer seu terreno político visando as eleições parlamentares em setembro próximo. Todos os outros partidos que, juntos, formam o menor grupo no Parlamento Europeu.

De acordo com pesquisas de intenção de votos, recém-divulgadas, o AfD está com 12% de intenção de votos. Segundo Dr. Timo Lochocki, politólogo, os eleitores do AfD não votam no partido pelo seu programa, mas com a intenção de punir os partidos estabelecidos. A chefe do partido, que vive em picuinha com outros membros da direção de um conglomerado cheio de “corredores políticos” que vão desde a direita populista até contato direto com membros da cena neonazista e com o movimento PEGIDA, Europeus Patriotas contra a Islamização do Ocidenta parecia uma gata borralheira ao lado de raposas calejadas.

Imprensa restrita

A possibilidade de acesso ao evento foi, intencionalmente, limitada devido ao relacionamento de ódio dos protagonistas com a imprensa. O francês Liberation não posicionou os textos dos enviados Dominique Albertini, Nathalie Versieux como notícia principal. “350 jornalistas estão credenciados”, iniciou seu discurso Markus Preztell, chefe do AfD na região da Renânia-do-Norte Westfália. “Para quem foi difamado em ter boicotado a imprensa, esse é um número bem considerável”.

Ao deixando barato, Pretzell, que também acumula a função de marido de Frauke Petry, ele citou o nome do jornalista Justus Bender, do conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ, na sigla). “O Sr. Bender gosta tanto da gente, tem tanto interesse nos “Populistas”, que conseguiu acesso a este congresso por meios jurídicos. Seja bem-vindo, Sr. Bender“, concluiu ao mesmo tempo em que a plateia vaiava o jornalista.

An assistant prepares placards with the name of France's National Front leader Marine Le Pen before the start of a European far-right leaders meeting to discuss about the European Union, in Koblenz, Germany, January 21, 2017. REUTERS/Wolfgang Rattay

Já Mariene Le Pen, chefona do partido de extrema-direita Front Nacional, esboçando um sorriso, chegou em Koblenz com discurso de Nostradamus: “Eu já falei sobre isso na Franca, mas vejo isso em vários países da Europa e em situações diversas. Nós estamos vivendo o fim de um mundo e o início de um novo, cheio de esperanças e novas possibilidades. Podemos constatar que as nações estão voltando”. O discurso oportunista e cínico de Le Pen não poderia ir mais de contramão com o discurso merkeliano. Enquanto Merkel proclama e prega “menos nações” e mais “Europa” via Bruxelas, Madame Le Pen, uma aberração europeia de Donald Trump, sonha com a volta fulimante da “Grand Nation” assim como Trump sonha, e ressaltou em seu discurso de posse de caráter über-agressivo, quer fazer América grande de novo: “A partir de agora, será América em primeiro lugar”, garantiu a “vergonha nacional”, como descreveu Colin Powell.

Certamente, nas últimas décadas o mundo não se encontrava num estágio tão dramático em termo de mudança de paradigma no âmbito político. Depois da Era Obama e depois de décadas de sucesso do modelo “Casa Europa”, a casa, se ainda não caiu, tem as paredes e alicerces corroídos de formigas como se viu nos capítulos finais de “Saramandaia”.

No meio de tantos famosos, Petry, a chefe do AfD parecia estar segurando um tremendo candelabro. En passant vale mencionar que Petry, desatenta, repetiu o terninho azul e sem sal que ela há poucas semanas em participação num programa da TV aberta.

Pegando carona no discurso e na postura de Trump, europeus nacionalistas de direita e extrema-direita vão muito bem.

Um Vale Tudo

O vocabulário nas redes sociais, adubo maior dos partidos que se movimentam fora do âmbito constitucional fica cada vez mais solto. Tabus são diariamente quebrados e notícias falsas, a chamadas “Fake News” vão de vento em popa assim como difamações históricas. A que ganhou mais fama nesta semana foi uma declarcao de um político membro do AfD, com claro posicionamento assim como, comprovadamente, ligações com a cena de extrema-direita do leste da Alemanha. Björn Höcke, num discurso na cidade de Dresden, mandou: “A Alemanha é o único país que plantou um “memorial da vergonha” no centro da capital. Höcke se referiu ao “Memorial do Holocausto”, localizado no coração de Berlim, inaugurado em 2005 durante a administração do social-democrata Gerhard Schroeder. Depois de um verdadeiro tsunami nas redes sociais, Höcke declarou que ao mencionar “vergonha” não se referiu ao memorial em homenagem aos judeus europeus exterminados, mas teria se referido ao próprio Holocausto o titulando de “Vergonha”. Essa estratégia, meticulosamente, desenhada dos populistas tem o intuito de colocar a notícia no ar e, depois mesmo tirando e tentando relativizar, a internet não esquece.

Shitstorms calculados

Desde a posse do jornalista Guenter Lachmann, ex-funcionário do jornal Die Welt como assessor de imprensa do AfD, suas tiradas midiáticas ficaram mais ousadas, se mostram mais bem planejadas e de risco mais calculado.

Esse fim de semana macabro nesse e do outro lado do Atlântico é só o começo dos desafios que Merkel terá que enfrentar no ano de 2017.

https://www.youtube.com/watch?v=_4Dy7R6u59U