Mais quatro anos de Merkel num casamento por conveniência que o eleitor não queria

Fátima Lacerda

11 Março 2018 | 15h51

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O contrato que será assinado nesta segunda-feira (12) sacramenta a “Grande Coalizão” entre a União (CDU e CSU) e os Social-democratas (SPD) pode ser comparado a um prato requentado.

Nem os eleitores queriam esse casamento de conveniência e muito menos os social-democratas, que se sentem “injustiçados” com os últimos quatro anos do mesmo formato de governo. Mesmo tendo implementado medidas de grande caráter social, como a obrigatoriedade do salário-mínimo (8,00 Euros), quem ganhava pontos era sempre a chanceler e o SPD afundava nas pesquisas de intenção de votos.

Na mesma noite do fatídico 24 de setembro de 2017, diz de eleições federais, o então chefe dos social-democratas já anunciava que a “Grande Coalizão” terminava ali e que o SPD iria para a bancada da oposição, algo que sempre falta no parlamento quando os chamados “partidos populares” (Volksparteien, em alemão) formam o governo. Um período assim é sempre fértil para as extremidades políticas. Nos últimos anos, a direita populista saiu das salas escondidas e foi para a rua exigir “Merkel tem que sair” e fez decolar o partido auto-denominado “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla), hoje representado no parlamento.

A dinâmica política

O carrossel político em Berlim deu reviravoltas. Os neoliberais apostaram no holofote. No final de uma noite de domingo, depois de quatro semanas em “Conversas de Sondagem” para coalizão entre a União, os Verdes e os Democratas Livres o chefe do partido, o egocêntrico e vaidoso Christian Lindner, jogou a toalha. Sua atitude foi premeditada, calculada. O FDP (na sigla) tinha outros planos no espectro partidário alemão: um escorregar para a direita e pescar eleitores da ala populista. Esse perfil não teria sido possível viabilizar num possível governo. O  FPD queria ser protagonista, mas Merkel não embarcou no navio e o “George Clooney” da política alemã saiu à francesa, declarando em alto teor filosófico: “É melhor não governar do que governar mal” e angariou as maiores zoeiras nas redes sociais.

Na segunda-feira do domingo 24 de setembro, o Day After, Berlim amanhecia numa crise política que, ate então só se conhecia em países como a Itália e a Holanda que, depois de eleições, demoravam meses até conseguir formar um governo, tal o abismo que dividia os votos.

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A formação da “Grande Coalizão” acontece depois de um Tsunami político em Berlim e depois de uma roleta russa que precisou da voz serena e determinada do Presidente da República para que “as forças democráticas” dialogassem a fim de fazer o possível. E o resultado foi como tinha que ser: para se manter no poder e entrar no encalço do legado de Adenauer e Kohl, Merkel faria até mesmo um pacto com o diabo para evitar uma nova dos germânicos às urnas. Além do ansiado legado dos gigantes da República de Bonn, Merkel também quer poder decidir o momento em que vai sair do “sinteco político”, como diz um jargão usado nas terras daqui. A opção de um governo de minoria seria o inferno para a chanceler, que teria que bater na porta das respectivas bancadas, todas as vezes que quisesse aprovar um projeto de lei.

Construir o futuro na Alemanha

Esse é o título do documento que tem 179 páginas e um volume de dados de 2,7 MB não faz jus à gama de desafios que precisam ser encarados na Alemanha dos próximos anos. “Uma nova dinâmica para a Alemanha” é um dos títulos do documento que tem parágrafos e itens com nomes promissores, mas no pé da letra, são mais quatro anos de letargia merkeliana com um diferencial de um “Ministério da Pátria” comandado Horst Seehofer, da Baviera, um político que já está com o pé na cova, mas não consegue largar o osso. Para acalmar os populistas de direita e tentar reconquistá-los, o próximo governo terá um ministério que irá determinar o que é alemão e o que não e promete um “Plano Marschall” para a deportação de refugiados que tiveram seus pedidos de asilo político negado, isso sem consider suas proveniências: Síria, Iraque, Afeganistão. 

No terceiro ponto, item III fala-se de igualdade entre homens e mulher, essas que, exercendo a mesma função e tendo a mesma qualificação que seu colega homem, ganhar 1/3 a menos. A pergunta que não quer calar: com Merkel no governo desde 2005, por que cargas d’água somente agora esse tema virou uma prioridade. No texto do contrato fala-se somente da prioridade em igualdade entre homens e mulheres no Serviço Público até 2025. Quando às empresas privadas, tudo como Dantes no Quartel de Abrantes. Merkel aposta na autoiniciativa das empresas, na autocensura que até agora não funcionou.

Digitalização das chamadas regiões do interior e de difícil acesso aparece no quarto ponto item II. Dorothee Bär é a ministra designada pelo partido CSU, da Baviera, que exigiu essa pasta por questões de perfil. A “face feminina” do Clube do Bolinha que é o CSU nunca trabalhou nesse setor. Sua idéia de criar táxis aéreos para a Alemanha a fez o assunto mais zoado nas redes sociais desta semana. Sua nomeação é, claramente, de caráter estratégico. “Nós iremos levar redes de alta velocidade a todas as regiões. Disponibilizaremos entre 10 e 12 bilhões de euros para Rede de Fibra Óptica e promete Wi-Fi grátis em todos os prédios do serviço público, 357 estações ferroviárias como também em trens da Ferrovia Alemã, a Deutsche Bahn. No momento, somente a primeira classe goza do privilégio de Wi-Fi e mesmo assim, com muitos “buracos” pelo meio do caminho.

No item 463, o contrato promete “limpeza do ar das grandes cidades para evitar a proibição de carros nos grandes centros”. Esse parágrafo (e não só ele) mostram a fidelidade e o toma lá da cá da chanceler com a indústria automobilística, a parte do leão entre os poderosos lobistas que exercem influência direta no delinear da política em Berlim.

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Sobre a política de imigração

Com a pressão do CSU da Baviera, Merkel, para continuar no cargo aceitou a famigerada “Limite máximo” para entrada de refugiados no país. A frase anterior que o governo alemão “continua fiel ao parâmetros da Convenção de Genebra” tem cheiro de uma falácia. A cota máxima fica entre 180.000 e 220.00 requerimentos de asilo por ano. Supondo que no final do ano o refugiado número 220.01 chegue à fronteira. O que acontece com ele.

Na imprensa está sendo veiculado que o Horst Seehofer, no cargo de Ministro da Pátria, organizará um processo de deportação nunca antes visto na Alemanha. Com essa medida, o autodenominado “Rei da Baviera” pretende salvar seu partido de um desastre eleitoral nas eleições regionais em 14 de outubro deste ano.

Outros itens como ajudar pais a combinar melhor profissão e família ficam devendo em frases que não poderiam ser mais generalizadas.

Nas 179 páginas, nenhuma palavra sob a implementação de mecanismo de controle dos lobistas. A plataforma digital Abgeordnetenwatch, com matriz na cidade de Hamburgo, faz severas críticas ao conteúdo do contrato. A premissa do CDU, partido de Merkel, continua a mesma: evitar de todas as maneiras, a quebra de privilégios oferecidos na encolha e é contra a qualquer mecanismo de transparência do setor. Doações ilegais para o CDU e proveniente do Azerbaidjão é só a ponta do Iceberg. O projeto de lei na forma de um catálogo de lobistas é o maior fantasma do CDU. A NGO- Lobby Control contabiliza em 2017, ano de eleição, o montante de 1,7 milhões de euros, só para o CDU de Merkel.

Pesquisas do jornal Süddeutsche Zeitung, o conglomerado de emissoras WDR e a plataforma Abgeordnetenwatch, descobriram que em 2012, 28.000 euros foram doados para o CDU de Merkel pela empresa oficial de petróleo do Afeganistão, SOCAR, para qual a Alemanha é um excelente mercado.

Nos próximos quatro anos, os especuladores imobiliários poderão continuar seu jogo pérfido de centrificação aniquilando a identidades dos bairros de grandes cidades. O item “Freio no aumento de aluguéis” é para alemão ver e vazia em conteúdo.

O contrato a ser sacramentado na segunda-feira é um carimbo de paralisação para os próximos quatro anos, quando a Alemanha vai ficando para trás em muitos desafios a serem encarados. No contrato, também nenhuma palavra sobre quando a Alemanha abdicará da Indústria de Carvão. No contrato, o ex-objeto de redução de gás carbôno na atmosfera até 2020 foi adiado. O efeito dominó pode ameaçar os objetivos do Acordo Climático de Paris.

A cerimônia oficial será protagonizada por Merkel representando o CDU, por Horst Seehofer, o CSU da Baviera e pela designada chefe dos Socialdemocratas, Andrea Nahles, que ocupava a pasta do Ministério do Trabalho no último governo.

Links relacionados:

https://www.abgeordnetenwatch.de/