“Marcha dos Decididos” pela memória dos refugiados mortos ocupa o centro político da capital

Fátima Lacerda

21 de junho de 2015 | 17h37

O 21 de junho em Berlim é tradicionalmente uma data na qual se comemora o início do verão, o dia mais longo do ano e a Fete de la Musique, ideia de Jack Lang, ex-ministro francês da cultura. Do início da tarde até o final da noite, vários bairros oferecem música gratuita. Nas ruas, nas calcadas, nas praças.

Esse ano, porém, o 21 de junho não se mostrou menos diversificado, mas altamente político. No centro de Berlim, ao lado da Ópera Alemã na Alameda Unter den Linden, na Praça Bebelplatz, um palco ao ar livre anunciava “Ópera Alemã para todos”. Anualmente o maestro Daniel Barenboim, nascido em 1943 na Argentina,  da o ar de seu talento junto com o coral da Ópera. 40.000 pessoas, entre elas, muitos turistas, foram conferir as obras de Wagner, Beethoven e Tchaikovsky.

Menos de 500 metros dali e também no coração da cidade, era o ponto de partida da “Marcha dos Decididos“. Promotor da “ação de conscientização” é o Centro de Beleza na Política, um grupo de atores e ativistas com membors de várias nacionalidades, radicado em Berlim e excelentemente estruturado. No âmbito artístico, jurídico e midiático. É um trabalho bem pensado e a ser levado a sério.

Dramática situação de refugiados no mundo

De acordo com a Amnesty Internacional, em sua análise anual, “o ano de 2014 teve o maior número de refugiados depois da II Guerra Mundial”. 57 milhões seria o número de pessoas entre os refugiados, 6 milhões a mais do que no ano de 2013.

Há semanas, a opinião pública alemã, debate a problemática dos refugiados e como lidar com eles. Em evento recente, Joachim Gauck, Presidente da República, que não goza de influência operativa no executivo, mas atua como importante instância moral no paí, pleiteou mais “compaixão” para com os refugiados e mandou uma direta para o Comissão da UE. “Os mortos enfileirados na pista do Porto de Lampedusa não combinam com a imagem que os europeus tem de si mesmo”, instigou o presidente.

CGVA1yKXEAAHvMi.jpgCopyright: DPA

Contra o esquecimento e contra a anonimidade

Para contrapropor a postura da UE no âmbito da política de imigração e do governo alemão e da mídia alemã de tornar os refugiados “invisíveis” o ZPS, (sigla em alemão) tornou prioridade possibilitá-los um enterro digno e de acordo com suas respectivas crenças religiosas, já que no “embrulho humano”, muçulmanos tem sido enterrados como cristãos. Onde rege a anonimidade, fica o dito pelo não dito.

Meticulosa preparação

Durante semanas um estudante universitário e membro do ZPS acompanhou o lidar com os 17 afogados, resgatados pela Marinha Italiana no final de maio.

Depois de resgatados do Mar Mediterrâneo, os corpos são expostos para fotografias, depois empacotados em sacos de lixo de armazenados no necrotério do Hospital municipal Muscatello em Augusta, na Sicília.

Trazendo esses corpos em forma física ou em forma simbólica através de caixões vazios para o alcance da percepção dos alemães e da mídia é o elemento-chave do projeto que detonou nas redes sociais desta semana. Também por isso, a escolha do lugar para o final da “Marcha dos Decididos” o centro do poder político de Berlim: o jardim da Chancelaria Federal, lugar de trabalho da mulher mais poderosa do mundo. 

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Entretanto, na tarde de quarta-feira (17), a polícia local divulgou uma nota proibindo qualquer atividade, fosse no jardim da chancelaria ou na grama localizada em frente ao parlamento alemão, o Reichstag. Há mais de 5 semanas,  o gramado  está interditado “para recuperação” dos maltratos que turistas e berlinenses causaram no ano passado. 

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Às 14 horas, horário local, uma multidão esperava a saída “do cortejo” (Os mortos vem aí/Die Toten kommen), também na Alamenda Unter den Linden, poucos metros de onde soava a música clássica de Bareinboim.

Reação na mídia

A mídia tradicional tenta de todas as formas em “batizar” o movimento de “protesto”. Segundo os atores e atrizes do ZPS o protesto não é o ato de enterrar corpos que estavam jogados em cima de outros e apodrecendo, mas sim a política de imigração da UE. “A primeira queda do Muro Europeu”, assim denominam os ativistas os atos, que eles negam em chamar de protesto

Entre críticas sobre “falta de piedade”, “contravenção perante a regente lei de enterro de cidadãos”, as reações nas redes são em esmagadora maioria, muito positivas: “Finalmente!”, “Continuem assim!”, “Estou muito longe de Berlim, mas com vocês em pensamento!”. Prova também do respaldo que teve sua origem nas redes, é que durante a semana, em várias cidades alemães, moradores espontaneamente posicionaram caixões nos centros de várias cidades, com Mannheim, Hamburgo, Frankfurt e Leipzig e em locais e esquinas de grande simbologia. 

Para a mídia comprometida, onde o  tabloide Bild ocupa a pole-position, é muito mais fácil fazer o demonizar dos gregos que “só querem nos passar as pernas” e focar no eminente apocalipse gregoriano que pode ser amanha, se a cúpula de Bruxelas não almejar o resultado estipulado pela UE.

O outro lado da moeda, digo, do estopim político é um dos problemas mais graves, o número e a situação dos refugiados que aumentou consideravelmente devido a brutalidade do Estado Islâmico e a interminável guerra civil na Síria. O Líbano e a Turquia estão no limite de suas capacidades e volta e meia exigem suporte financeiro por parte da UE. Nos últimos dias, as fronteiras foram fechadas para evitar que os refugiados entrassem no país turco gerando cenas de muito desespero.

O cenário de domingo

O pequeno percusso daquilo que eu prefiro chamar de ato de conscientização ou sacudidela na dormência política semeada pelo governo Merkel, teve 5300 participantes, segundo a informação da polícia. Foi um sucesso galgado nas redes sociais. A exceção do respaldo midiático positivo ficou com o jornal conservador de Munique,  o Süddeutsche Zeitung e o esquerdista berlinense, die TAZ.

Mais de 1000 policiais foram convocados para o patrulhamento. No final do percurso, já quase em frente a chancelaria federal, os participantes driblaram a polícia como uma dança dos ovos e adentraram a grama em frente ao parlamento.  No vídeo você confere o início do tomar de posse do espaço físico da grama em frente ao parlamento.

O restante da multidão derrubou a grade de arame posicionadas nas laterais e partiram para a desobediência cívica. À polícia só restou, literalmente, correr atrás do prejuízo, fazendo um bloqueio na grade diretamente em frente ao parlamento. Não importa. O objetivo já havia sido atingido. Como formigas muito eficientes, os participantes começaram a cavar covas e postar caixões de plástico na grama.

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Muitos levaram flores, velas e fizeram um minuto de silêncio pelo refugiados. Uma cova exibia na cruz a falada “Würde”, que em alemão significa Dignidade. Policiais passando por ali, chutavam os acessários que eram pacientemente recuperados pelos presentes. Numa folha de papelão, um manifestante exibia a frase: “Todo o ser humano tem direito à vida”.

Mesmo que a Secretaria de Saúde tivesse proibido o transporte de caixões contendo cadáveres, o efeito foi o desejado pela ZPS. O clima de desafio a polícia era tenso, mas em nenhum momento houve o perigo de violência corporal. De nenhuma das partes. Gritos de “Eu não sou nada, eu não sei fazer nada, me da um uniforme!”, tiveram que ser engolidos por parte dos policiais, sempre muito bem aparelhados e armados com câmeras de filmagens. “Solidariedade com os refugiados” foi entoado em vários idiomas. Depois de uma hora, a polícia exigiu que os manifestantes deixassem o local, o que não foi prontamente atendido. Entretanto a polícia foi competente em manter a calma. Com isso evitou qualquer tipo de aumento de tensão para um patamar de violência corporal. O outro lado da moeda, como divulgaram jornalistas e fotógrafos nas redes sociais na noite de domingo, eles tiveram dificuldades em fotografar e no fim da marcha, um fotógrafo foi preso e jornalistas foram retirados do gramado.

A ZPS promete, nas próximas semanas, o mesmo feito em Berlim em outros países da UE. “Nós queremos deixar uma marca da nossa presença aqui na capital com a Primeira Queda do Muro Europeu“. Missão cumprida.Por hoje. Ainda há muito o que conscientizar e debater em que Europa queremos viver e o quanto de huminade sobre para as fronteiras externas do velho continente. No vídeo abaixo, você ouve a apresentação de um ex-refugiado da Síria e ainda se atropelando no uso da língua germânica e como ele ficou emocionado com o número de pessoas que compareceram. “Fizemos questão de trazer os refugiados para Berlim, para o centro da Europa”, diz visivelmente comovido. “Tudo o que vocês quiserem dizer, é válido!”.

https://www.youtube.com/watch?v=Q7Q9ilmEHbo

Para acompanhar nas redes use o Hashtag:

#dietotenkommen

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