Marielle em Berlim. Presente!

Fátima Lacerda

18 Março 2018 | 12h21

Nas redes sociais foi convocado, para às 15 horas de domingo (18) em Berlim, um ato de solidariedade e repúdia ao assassinato da deputada do PSOL, Marielle Franco. Apesar da temperatura gélida de zero graus , aproximadamente 200 brasileirxs e berlinenses marcaram presença. Discussos de Marielle feitos na Câmara dos Vereadores foram reproduzidos em telão seguido de discursos de integrantes de grupos ativistas e simpatizantes na capital. 

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Cartazes em português em alemão, pleiteavam: “Marielle presente!” e “Fim dos assassinatos movidos por racismo!” e “Assassinato por motivo político“. Em uma mesa foram colocados velas e flores assim como um retrato em preto e branco. Um outro cartaz apioado no pé da mesa, exibia: “Luto”.

Durante a semana foram feitas várias homenagens à Marielle, em capitais e cidades europeias como Dublim, Valência, Paris (debaixo de neve intensa), Estocolmo, Oslo e estudantes brasileiros da Universidade de Lisboa.

No dia 17, a Câmara de Lisboa homenageou Marielle durante a Conferência “We should speak. LGBT and Family Rights“. Em Londres, assim como no Parlamento Europeu, membro movimento “Podemos” protestou severamente contra o ato de covardia contra a quinta mais votada vereadora do RJ e alertou para a situação de violência no Brasil. Além disso, 52 parlamentares de Estrasburgo exigiram a suspensão de negociações de um acordo entre o Mercosul e a UE, enquanto a “execução não for esclarecida”.

Linn da Quebrada

No show da cantora transexual Linn da Quebrada junto com Jup do Bairro e o DJ Pininga no contexto da turnê europeia, a temperatura de sábado à noite em Berlim era de 2 graus negativos. Entretanto, dentro do local do show, no bairro de Kreuzberg, o clima se misturava entre expectativa pelo show como também raiva e repúdio à essa “intervenção” assassina contra uma mulher de visibilidade expressiva. Vários cartazes exibiam as frases “Marielle presente” e “Marielle sempre” acompanhados de gritos com essa mesma mensagem durante toda a performance. É a segunda vez que Linn vem a Berlim. Recentemente ela esteve na capital para apresentar o filme “Bixa Travesty”, dirigido por Claudia Priscilla e Kiko Goifman que foi exibido na mostra “Panorama” da Berlinale. (O Blog noticiou).

O show de Linn serviu de um canalizador bem-vindo já que no discurso de Linn, ela fala muito da dificuldade em sair da invisibilidade: “Eu e minhas amigas fomos acostumadas a esconder nossos desejos, a ver proibição no que nos é natural, a amar pelos cantos”. O paralelo entre Linn e Marielle é, entre serem negras e terem optado por um livre exercício da sexualidade, a experiência dolorosa que as mulheres são criadas e socializadas, todos os dias, para falar baixo, esconder , seus anseios, desejos e suas bandeiras.

©Câmara do Rio/Divulgação

Tomar espaço físico!

Quando mulheres teimam em visibilidade, em tomar espaço físico e não se contentam em ficar na fila para falar, elas são o cobiçado objeto de ataque e difamação. O motivo pode ser mínimo, mas é artificialmente inchado para legitimar manifestações de falta de respeito e muitas vezes, de ódio.

Uma funcionária que trabalhava com Marielle foi abordada dez dias antes de sua morte em tom ameaçador por um homem no ponto de ônibus . Se esse fato tivesse tido como desdobramento medidas de segurança, certamente, a deputada ainda estaria viva.

Quando em 2008 o deputado do PSOL, Marcelo Freixo, presidiu a CPI das Milícias, ele era acompanhado, o tempo todo, por seguranças até mesmo quando estava em casa e era, permanentemente, ameacado de morte. Por que entao não aprender a lição desse período e nao ter interpretado de forma mais atenta a abordagem da funcionária de Marielle no ponto de ônibus dez dias antes de sua morte?

Poucos dias antes de ser executada, Marielle havia criticado “ações violentas da Polícia Militar no Acari”, bairro da zona norte carioca com as frases “Parem de nos matar” e “Somos todos Acari”, junto da hashtag “Vida nas favelas importam”.

Em várias cidades no Brasil e no exterior a sociedade civil, independente de escolha partidária, entendeu que sim, mexeu com uma, mexeu com todas! Não pode e nem poderá haver outra premissa!

Na dinâmica de retrocesso em que o Brasil vive nos dois últimos anos e a ascensão da direita “limpinha”, branca e poderosa, a luta, principalmente das mulheres negras e faveladas (mas certamente não só delas) se tornou ainda mais difícil.

Visibilidade de quem era para não ter voz e nasceu para ser invisível, incomoda! Muito!

Em Berlim, o alvo são mulheres estrangeiras, que os alemães, no âmbito pessoal e corporativo, sempre irão encontrar uma forma de mostrar que você não pertence aquele lugar. Seja morando num prédio de um bairro de classe média ou seja no local de trabalho, ocupando um cargo de confiança que lá na frente pode se tornar uma concorrência. A única diferença é que, na Alemanha, a punição é certa, mas os mecanismos de medir forças, são, por vezes, mais sofisticados, mas focam no mesmo objetivo.

No Brasil, as veias das Forças de Ordem e das forças jurídicas, isso expressamente visível no momento atual, navegam em águas turvas, percorrem estradas tortuosas. Por essa razão, o único consolo a curto prazo só pode ser a investigação meticulosa e a punição dos autores desse crime hediondo. Não é “somente” um assassinato em forma de execução. A morte de Marielle era para calar muitas vozes, calar a sociedade civil e principalmente: calar as mulheres minguando e esfarelando seus sonhos! Mas com os últimos dias ratificaram em muitos paises e cidades: Nós somos muitas!


Com toda a impotência que só a perda de uma voz tão relevante na luta das mulheres negras, faveladas e transformadas invisíveis, o contraponto e emancipação desse sentimento só pode ser seguindo a sabedoria de Bob Marley que dizia: “Levanta-se, lute pelos seus direitos” e nós, mulheres temos que fazê-lo em alto e bom som numa época, como diz Xico Sá, de “homens vacilões” e de galopante retrocesso político, especialmente, no Brasil, mas também na Alemanha com o aumento avassalador de forças políticas que conseguiram até mesmo, mudar o rumo da política do recém-empossado governo em Berlim.

É imprescindível e urgente expressar, em alto e bom som, nossos posicionamentos, desejos. A longo prazo isso será o consolo e, ao mesmo tempo, fará jus ao legado deixado por essa mulher tão cheia de vida, tão corajosa e que, ao contrário de muitas feministas (especialmente as atuantes na Alemanha), não havia perdido a ternura em seu discurso e atuação, como mostram, por exemplo, as imagens de sua participação no evento no centro do Rio, pouco antes de morrer. 

Faco minhas o questinamento de Lenine em “O que me interessa ?”. Quem vai virar o jogo e transformar a perda, em nossa recompensa?”.

Marielle? Presente! Sempre!