Mercados de Natal

Fátima Lacerda

23 de dezembro de 2014 | 11h18

 É inflacionário o número de mercados de Natal na capital alemã. Muitos são unicamente um junção de estandes aleatórios que, na forma, insinuam um clima natalino, mas não necessariamente no conteúdo.

Onde tem salsicha, geralmente servida com pão duro e frio (independente da estação), tá valendo. Um povo que viveu duas guerras, frio e fome, não é exigente. A cultura do “caprichado” aqui, é inexistente. Um ditado que também espelha a escassez de alimentos em épocas de guerra, diz: “Come-se o que vem à mesa”.

Um das culturalmente inusitadas histórias que ouvi de Christian, é sobre a época em que ele estudava direito na universidade de Göttingen (perto de Frankfurt) e dividia o apartamento com colegas da faculdade. Um cenário era comum na mesa do café da manhã: Quando alguém reclamava que o pão integral estava duro, seu amigo Wolle, retrucava: “Pão duro, não existe. Dureza mesmo…é não ter pão!”.

Vilarejo Berlim

A alameda Kurfürstendamm, nos tempos da cortina de ferro o centro turístico e comercial de Berlim, sofreu com o ostracismo urbano quando Berlim literalmente se deslocou para o centro histórico no bairro Mitte. Lá, onde os prédios de relevância histórica, apesar de massiva destruição durante os bombardeios da II Guerra Mundial, teimam persistem postura elegante e austera, essa especialmente espelhada na silueta da Ilha dos Museus, que em termos de urbanidade e relevância de cunho político-cultural é única no mundo.

West-City (Centro da cidade parte ocidental)

Assim é denominado o centro de Berlim que vai muito bem no processo de renascimento urbano. Entretanto, o espaço apertado entre a Igreja da Memória (Gedächtniskirche, em alemão) e os ex-cinemas que foram protagonistas da história cinematográfica de Berlim e que hoje abrigam lojas da ZARA e da United Colores of Benethon, não oferece clima bacana para um, digamos, rolezinho nataleiro. É tudo muito apertado. Mesmo com o atrativo de ideias de presentes do bazar localizado dentro da igreja com o nome obsoleto de “Terceiro Mundo”, onde se são vendidos trabalhos de artesanato, esse mercado só é recomendável para quem estiver passando ali por acaso. Um forno aberto, expõe peixes sendo defumados. O que isso tem a ver com o espírito de natal, eu não sei. Pedaço gigantes de bife, salsichas, pão francês de meio metro. Tá tudo ali, mas isso tem o ano todo em qualquer lugar da cidade.

De passagem por ali há alguns dias, na barraca de salsicha percebo um homem negro falando alemão igualmente com desenvoltura e sotaque. Acompanhado de, ao que pareciam, colegas de trabalho, ele literalmente da uma lição cultural na vendedora de salsicha. Enquanto ela, já nervosa por está em foco de todos os clientes na fila, prepara o sanduíche, o cliente, em voz alta e em tom pseudo jocoso mas com um grande sublinhado de seriedade, ensina: “O importante é ser gentil com o cliente”. A vendedora esboça um sorriso inevitável. Essa estratégia, de exigir o servico gentil e não esperar que ele caia do céu, é atipico para os berlinenses. Quem vem de fora, tem um outro olhar.

O mercado de cá, o mercado de lá

Bem outro estilo, outro clima é o Mercado de Natal no Gendarmenmarkt, ao redor da Konzerthaus, casa de concertos clássicos e eventos de gala.

O ingresso  é comprado na cabine postada em dois pontos de entrada e custa 1 Euro.

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Contrariando a dialética berlinense, caracterizada por botar defeito em tudo, os visitantes desse mercado, rodeado por um cenário histórico e arquitetônico tão privilegiado é, sem qualquer dúvida,  o melhor de Berlim. O ranking dos mercados de natal, ratifica isso. A diversidade de público, de gastronomia e de mercadorias é imensa. Um dos melhores lugar para obter inspiração quando se quer presentear pessoas queridas

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É tradição: Entre os estandes com as filas mais longas estão os de waffles belgas. Recheio de chocolate, geleia, tanto faz. É uma delícia, mas haja paciência na fila!

O estande que oferece chocolate quente com leite de agricultura sustentável também é bem concorrido. O politicamente correto fica ainda mais visível no preâmbulo da festa de Natal. Até mesmo o clima do mercado,talvez pela diversidade de público, é bem tranquilo. Não importa quanta gente e o quão difícil seja a passagem pelo miolo, todos desfilam num clima de paz, mesmo que a questão religiosa não seja um aspecto forte nesses lugares. Berlim é descrente, ateia, mas o clima de Natal (e nesse mercado ele é autêntico), cativa.

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Trabalhos de lã, pão preto recheado com frutas, um tipo panetone eslavo, chaveiros de todas as formas, salami do sul da França, vendidos por uma francesa residente no sul da Alemanha na região de Saarland. Os recheios são variados: champignon nozes, queijo parmesão e vinho tinto. Muito simpática a francesa, mandando um alemão sem sotaque, oferece pedacinhos de salami, tentando incendiar o paladar dos clientes.Dava prazer observá-la no exercício em interagir com os clientes.

Para quem especialmente gosta de tradição, existem dentro do mercado, loja com vitrine e o escambal. Uma intuição marqueteira de combinar a diversão com o comprar presentes, tudo num lugar só.

No stande de batatas e salsichas e no de vinho quente (Glühwein, em alemão), a massa se encontra e se espreme. Uma verdadeira delicatessen é tomar um vinho aquecido na companhia da cara metade ou de amigos. Não importa o frio. Ele faz parte.

Outros tantos, bem mão de ferro, vão ao mercado para “curtir o clima suscitado pelas luzes de natal” e não compram uma água. Isso também é Berlim. Ao programa cultural do palco, com meninas dançanco ballet ou acrobatas ou corais, música clássica ou mesmo leitura de historinhas de natal, os berlinenses e os visitantes são receptivos.

Para quem não gosta de comer em pé e no frio, logo ali do lado, tem o restaurante com o nome perfeito: Refugium. Em clima sofisticado e tranquilo,você degusta uma cozinha alemã sofisticada no maior sossego num lugar mágico. O ano inteiro.

Links relacionados:

http://www.gendarmenmarktberlin.de/wp/

http://www.restaurant-refugium.de/

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