A “Chanceler dos Refugiados”: Merkel agora é imbatível

Fátima Lacerda

16 Setembro 2015 | 10h17

Na coletiva de 31 de agosto foi divulgado para o mundo que a Alemanha receberia os refugiados. Palavra de honra da chanceler Merkel que, para o estarrecimento da mini oposição existente atualmente no parlamento e até mesmo para os socialdemocratas, seus parceiros na coligação do governo, ganhava da mídia e da opinião pública  apelido de  “Chanceler dos Refugiados“. Ela, que já era invencível, já que pela falta de um(a) candidato(a) à altura, não corria nenhum risco de perder o cargo, agora se encontra num outro patamar, no des suas referências políticas como Konrad Adenauer, o primeiro chanceler da Alemanha pós-guerra e isso é só o início.

Quaisquer críticas vindas de qualquer partido ou de qualquer analistas políticos (que Merkel sempre ignora) não poderiam minimizar o toque humanista e teimoso da chanceler. Aquela mesma que, meses atrás, no contexto da crise financeira e o iminente perigo de falência da Grécia era a ovelha negra, símbolo de pulso forte e espelho da implacável política de austeridade de UE, que Merkel defende com unhas e dentes.

Como o Deus da política é tão constante como o Deus do futebol, (vide o drama do Cruz-maltino e do tricolor, que despencou da quarta posição para a décima primeira), essa tese se permite ratificar no exemplo da Unificação dos 2 Estados alemães (1990). Enquanto o ex-chanceler Helmut Kohl (1982-1998) entrou para os livros de história como o “Chanceler da Unificação”, sua pupila e aluna mais aplicada, Angela, que também foi Ministra do Meio Ambiente no governo do “Chanceler eterno”, dizimaria todos os seus obstáculos como numa mesa de xadrez e viraria a “Mutti” (Mãezinha) dos refugiados enquanto a Alemanha goza daquilo que os marqueteiros denominam de “Imprensa positiva”.

Quem te viu, quem te vê?

Os alemães, outrora famosos por seus canhões e por remarcar fronteiras de acordo com o gusto do Führer, agora é o povo mais acolhedor do mundo. Em Munique os refugiados são recebidos com flores, alimentos, cobertores. Comboios param nas estradas parar oferecer carona para os refugiados e os levá-los até aos abrigos. Uma onda de solidariedade arrebata o país, até que numa noite de domingo, o Ministro do Interior, Lothar de Maizière, certamente o maior equívoco nesta pasta, tirou proveito da situação e criou seu momento de glória, quando anunciou a volta de policiamento e controle na fronteira entre Áustria e Alemanha. Com essa medida, de Maizière, que é poupado em nenhum programa de sátira política, nos remeteu para os velhos tempos da Guerra Fria. Controle na fronteira entre Áustria e Alemanha. Estamos em setembro de 2015 e não em 1975. Zoran Milanovic, Premiê da Croácia, resumiu: “Arame farpado na Europa do século XXI não é resposta, é uma ameaça.”

CopyrightCicerowerner_faymann_und_angela_merkel-900x405.jpg© Cicero

A reviravolta merkeliana

No final da tarde de segunda-feira (14), em volta do prédio da chancelaria federal, o burburinho e a expectativa eram grandes. Com toda a certeza, uma visita de um chanceler austríaco, nunca foi foco de tanto interesse midiático como essa, horas depois do aviso sobre a reintrodução de controle nas fronteiras jogando, temporariamente, tudo no ventilador concernente ao Acordo de Shengen, que determina livre circulação entre países membros da UE

Reagindo às críticas de países da UE sobre a atitude da Alemanha em receber os refugiados, Merkel surpreendeu com declaração inusitada e  excepcional, para a chanceler que sempre seguia, com disciplina prussiana, sua linha pragmática e calculista: “Eu preciso confessar: se agora tivermos que pedir desculpas por ajudarmos pessoas em situação de urgência, então esse não é meu país. Em 10 anos ocupando o cargo, Merkel nunca foi tão concreta e, ao mesmo tempo,  dona de um discurso tão humanista. “Merkel, dura na queda“, “Mekel, fria como gelo“, “Merkel, implacável“, são somente alguns das denominações midiáticas da chanceler que agora vive o período mais importante de toda a sua trilha política, que angariou projecao no contexto da “Mesa redonda”, composta por intelectuais, políticos municipais e estaduais, ativistas do meio ambiente, para conceber a planinha de transição para a Alemanha Oriental, logo depois da queda do Muro de Berlim.

O que mudou?

Até os jornais adeptos da esquerda liberal como o portal Spiegel Online e a revista Cicero,  que tradiconalmente tem algo para criticar na chanceler, viraram admiradores e não poupam elogios. Prova disso é a declaração de segunda-feira (15), nessa altura do campeonato, Merkel se libertou do cinto da neutralidade e da vista grossa política para não causar irritação, desconforto e por fim, briga, com o “irmão político”, o CSU, da Baviera. Muito menos a chanceler teme vozes críticas dos socialdemocratas (SPD), que apesar de fazerem parte do governo e terem implementado medidas de clássico cunho social democrata, como a introdução do salário mínimo de 8,50 Euros, não conseguem “pegar carona” na hora da pontuação no quesito popularidade.

Merkel sabe que a Alemanha não pode acolher todos os refugiados. Sabe também que esse êxodo, comparável ao dos anos 60 e 70, quando a Alemanha com falta de mão de obra masculina, teve que recrutar “Trabalhados convidados”. O número, até agora, incontável de refugiados que buscam ajuda e uma perspectiva na Alemanha, ninguém sabe ao certo. Que a imigração na atual intensidade vai mudar o país, Merkel também sabe e por isso ainda mais louvável a firmeza com que a chanceler topa o desafio e se mostra emancipada da preocupação das críticas. O fechar da fronteira Áustria-Alemanha é a concessão que ela tem que fazer.

Se antes da dinâmica insana e inesperada resultante do êxodo dos refugiados já não havia alternativa para Merkel que seria invencível em qualquer eleição, agora, ela é imbatível. Acostumados a serem o lobo mal em vários capítulos cinzentos da história, os alemães agora angariam uma outra imagem ao redor do mundo e isso, é inusitado. Tudo bem que durante a Copa de 2006 o mundo constatou que o povo tido como sisudo e emperrado sabia festejar, curtir o momento, vibrar, gritar. Agora o mundo está vendo os alemães de outra forma. Conversando com Ike, meu amigo do Balneário de Santa Catarina e que conhece Berlim do início dos anos 70, quando eu ainda nem estava na escola, eu perguntei: “E os alemães e seus canhões, qual é?”. Em voz cheia de sabedoria e uma serenidade resultante de profunda reflexão, ele respondeu: “Eu acho que os alemães colocaram os canhões na garagem”. Fato, é que a Alemanha, no ano de aniversário de 25 de Unificação, o país vive um turbilhão cultural, ético e político e resultante das últimas semanas, não há outra conclusão a tirar: o país não poderia ser governado da melhor forma. A mini bancada de oposição, o partido da Baviera e o “Rei” e Ministro-Presidente Seehofer, os socialdemocratas…Agora não tem pra ninguém. Aquilo que falta à Presidenta Dilma, a chanceler Merkel tem em massa: o respaldo de um país e até mesmo da maioria esmagadora da mídia, esse último fator, não menos inusitado.