Merkel, a professora solícita. Macron, aluno ambicioso e brilhante

Fátima Lacerda

16 Maio 2017 | 19h34

©Reuters

Algo de inusitado aconteceu em frente ao jardim da Chancelaria Federal, na tarde de segunda-feira (15) quando o recém-empossado Presidente francês, Emmanuel Macron era recebido pela chanceler Merkel.

No lugar que, nos últimos anos, vem fazendo parte da rota de passeatas em protestos à chanceler e ao seu governo, rota também usada pelo movimento PEGIDA, composto por grupos que poderiam ser também simpatizantes da chefe do Front National, Marine Le Pen. Alemães auto-denominados “patriotas” que se veem no dever frear o que eles denominam de “Islamização do Ocidente” e que também se borram todos pela “perda da identidade”.

Numa segunda-feira de sol de primavera para berlinense nenhum botar defeito, eram franceses que vivem  em Berlim, eufóricos com a visita do mais novo Shooting Star da política internacional. “Pela amizade”, exibia em francês uma faixa azul com letras brancas.

Ao chegar com o carro exibindo uma bandeirola com as cores da França, Macron foi, imediatamente, recebido pela chanceler (que não “somente” tem uma equipe de protocolo eficientíssima, como conhece cada passo do mesmo) com um largo sorriso. Nessas horas, todo o gesto, toda a linguagem corporal falam volumes de enciclopédias. Com Hollande havia sempre o ritual de dois beijinhos (apesar o costume ser de 3 em solos franceses).

Com Macron, a chanceler preferiu, além do sorriso, duas vezes um tocar na parte superior do braço, como quem exibe dar um crédito de simpatia para o novato ou uma professora que está satisfeita com o desempenho do aluno aplicado.

No gesto e no discurso de Merkel, nunca nada é por acaso. Macron, por sua vez, excelentemente preparado, decerto por sua esposa e consultora, se comportou como um Gentleman, sem o recíproco toque no braço, mas sorrindo, como diz meu Pai, de fora a fora, para a chanceler, sem parecer um adolescente deslumbrado, mas recheado de orgulho. Macron tem a melhor assessora, Brigitte Macron sua ex-professora que ele conheceu quando tinha 15 anos e jurou um dia casar com ela. Determinacao, palavra que ele usou de forma inflacionária em seu discurso eleitoral, “Determinantion”, decerto, não lhe falta. 

Ao passar pelo protocolo tanto da equipe francesa quanto alemã, o foco foi todo para Philippe Étienne, desde 2004 embaixador francês em Berlim e que foi promovido a conselheiro de Macron. O tempo em que Merkel parou para sorrir e falar com Etienne exibe a satisfação da chanceler de ter um conhecedor da Alemanha ao lado do Presidente. Macron já de partida, marcando ponto com a chanceler.

Antes de partir para Berlim, Macron havia nomeado Édouard Philippe, do partido republicano e que fala fluente alemão. Mais um sinal de âmbito interior e de intuito consiliador, mas também um gesto considerando Berlim. Na sequência, o protocolo prescrevia a hora das honras militares. Macron, ainda um pouco inseguro com o roteiro do protocolo, era sempre instruído por Merkel, num olhar ou através de um leve movimento do braço indicando a direção. Maior simbologia, impossível! Outra simbologia foi a atitude de Sigmar Gabriel, socialdemocrata e Ministro das Rel. Exteriores que, para dar uma alfinetada em sua chefe foi, pessoalmente, buscar Macron na parte militar do Aeroporto de Tegel e claro, se deixou fotografar com um sorriso maroto. Assim se faz política na Alemanha: até na hora da alfinetada, há estilo, há estratégia.

Ao chegar ao final do tapete, Macron acenou para seus simpatizantes do lado de fora do portão. Merkel, exibindo sua rotineira economia de gestos, acenou e já virara para adentrar a chancelaria, quando Macron, ousou acenar mais uma vez. Para não parecer ignorar os torcedores do Presidente, Merkel juntou acenou novamente. A Dr. em Física não é chegada a movimentos espaçosos e não gosta de se expor. Enquanto um batalhão de fotógrafos e jornalistas esperavam Macron, o assistente de Merkel era só euforia: “Até que fim um dia de movimento” (na chancelaria), declarou ele eu seu raro momento de glória frente á imprensa. Ao meu lado, Theo Koll, correspondente da TV alemã ZDF, na França, quem eu já conheço de outros eventos político-culturais. Quando se ouve uma frase dessas be fora do protocolo, não é motivo nem adequado fazer galhofa. Basta um entreolhar, um sorriso e o protagonista se encarrega de todo o show.

Na minha frente, Jeremy, de uma rádio francesa e que cobria ao vivo durante a passagem das honras militares, mas também quando a chanceler foi cumprimentar a equipe do protocolo. A responsável pela imprensa, exigiu que ele parasse de falar: uma vez, “Schluss, Finish“, duas vezes “Schluss (Acabou!) Finish!” ratificando com a mão enquanto ele, claro, continuava até que ela arrancou o microfone da mão dele durante a transmissão. O jornalista, decerto, nada familiarizado com a delicadeza germânica ficou petrificado ali mesmo. Depois de sentidas horas, olhou para atrás para o seu colega com um olhar de alguém que tinha tido o trabalho todo jogado no lixo.

Espera, Espera…

Depois de adentrar o prédio da chancelaria, apelidado pelos berlinenses como “Máquina de Lavar”, os jornalistas correram para pegar o melhor lugar no local onde haveria a coletiva conjunta de Merkel e Macron. O sol adentrava de forma implacável, dificultando para os fotógrafos escolherem o melhor lugar para não ter fotos espelhadas.

Ao meu lado, Jean-Michel, um jornalista nascido em Martinique e que escreve para a edição em inglês do Handelsblatt alemão (Jornal do Comércio) sobre política e economia. Puxei assunto perguntando para quem ele reporta. Falamos muito sobre a política francesa. Perguntei se ele acredita que Macron irá conseguir reunir um país tão divido com 34% de votos para a extrema-direita. Falei do meu amor por Paris e da minha falta de coragem de ali voltar nesses tempos de terror. Enquanto Merkel estava em reunião de uma hora com Macron, tive a chance de não somente de exercitar o francês, mas também saber da posição dos franceses de um que está na fonte. Não houve como não perceber sua surpresa quando comentei que assisti todos os debates em tom original. No intermezzo, tentávamos conseguir uma rede sem fio. A responsável por mazelas como essa passava toda a hora e cada vez trazia um A4 impresso com uma senha diferente. “Tenta essa aqui”, disse ela muito simpática enquanto o meu colega que trabalha pro Le Monde e que faz jus a fama dos franceses de arrogantes já havia desistido de tentar. Eu fui buscar outro papel, com outra senha e entrei depois da décima tentativa. Até mesmo no prédio da Chancelaria Federal não é garantia que o Wi-Fi irá funcionar. Aliás, no setor de imprensa da chanceler, você telefone sexta-feira às 14 horas, 3 dias antes da visita oficial de um Chefe de Governo e você não encontra ninguém. Foram 3 vezes que liguei. “É a imprensa nacional ou estrangeira?“, perguntava o operador, sem falar que eu preciso repetir meu nome “Lacerda”, no mínimo 5 vezes. Quando já estava capitulando que pensando em dar uma incerta lá pessoalmente, eu falei com voz de uma seriedade que só é possível em alemão: “Eu preciso encontrar uma pessoa ai hoje, é urgente, muito urgente. Na terceira vez eu disse em tom de quem não está de boa: “Tanto faz, imprensa alemã ou estrangeira. Eu preciso falar com alguém do departamento de imprensa!”. Depois de ficar na linha uns 12 minutos, uma voz clara e daquela que está por dentro de tudo, me deu toda a informação que eu precisava. Na segunda-feira, lá pelas 10:30 da manhã, ainda não estava agendada a hora do encontro. “A gente ainda não tem o horário”, disse a voz do outro lado da linha. Somente às 12:45 foi divulgado o horário da chegada e da coletiva.

A Premiere

Se Marine Le Pen pensava que Macron iria vir a Berlim e vender a franca e ser capacho de Merkel, ela se enganou. O Presidente francês estava, excelentemente, preparado, seu discurso ensaiado. Frases como “Queremos a UE para nos proteger”, desestruturando a argumentaca de Le Pen durante a campanha de demonização do processo de globalização e tentando, por osmose, impregnar na mentes dos franceses que esse processo e que a “Ditadura de Bruxelas” implica o iminente perigo de “perda de identidade”.

“Ontem, empossado e hoje aqui em Berlim o Presidente francês Macron. É uma honra para nós que o Senhor fez Berlim, Alemanha a sua primeira estação”, usando do seu sempre bem-vindo assim como raro humor, Merkel acrescentou: “Pelo número de jornalistas o Sr. pode verificar que isso (a visita) suscita interesse”, enquanto Macron não consegue esconder o orgulho de ser recebido de forma tao gentil numa visita em que ele vem pedir ajuda à Alemanha em vários itens ao mesmo tempo que é útil a Merkel no andar da carruagem do projeto “Casa Europa”.

“Nós sabemos da impotância da relação franco-alemã. Uma amizade longa e cordial” especialmente nesse momento crítico pelo qual atravessa a UE”. Merkel desejou boa sorte para “as eminentes eleições parlamentares” que oferecem condições para que o governo tenha suporte para agir”. Macron ouve o conselho empacotado de votos de boa sorte e é lembrado do imenso abacaxi que irá descascar.

Euforia En Marche

Mesmo que a visita de Macron tenha instigado entendível euforia, a complexidade do processo de unificação da UE é uma Tarefa de Hércules. Macron e Merkel, por enquanto, não se pode dizer que é um casamento por conveniência, mas o período antes disso, o período de estarem se conhecendo, não pessoalmente, mas agora como chefes de governo. Merkel citou o escritor Hermann Hesse “Todo o início tem um momento mágico”, ensinou Merkel e acrescentou “Mas para que esses momentos mantenha a forca inicial se, na sequência, surgirem os resultados“.

Em seu discurso Macron incluiu várias vezes os problemas internos na França e se posicionou não como um garoto de recados, mas um político defendendo os interesses do país que governa. Até que ponto ele poderá aproveitar o gás inicial, só o tempo dirá. Na dinâmica insana dos acontecimentos políticos, só um louco pode tentar um prognóstico.

Falando em Europa

“O meu posicionamento será sempre aberto, direto e construtivo” garantiu Macron concernente à parceria com o governo alemã. O sucesso dos nossos países será também o sucesso da Europa”.

Perguntado por um repórter francês, se Macron intenciona restabelecer o estreitamento de outrora estreita parceira entre os dois países, protagonizada por Helmut Kohl, Charles De Gaulle, François Mitterand, Konrad Adenauer, sem pestanejar e sem esperar que a intérprete terminasse a tradução de alemão para os jornalistas, Macron foi taxativo: “OUI” (Sim). Eu penso que estamos num momento histórico da Europa. O período eleitoral na França expressou bem isso“, se referindo ao aumento fulminante das forças populistas.

Enviando um recadinho para a “ilha”, Merkel, numa postura de olhar para baixo como faz a professora que acaba de dar um zero pro aluno e o próximo aviso é chamar os pais para conversar: “Nós não vamos nos concentrar somente no processo do BREXIT“, já colocando de escanteio o Reino Unido, que decidiu, por referendo, sair do clube dos 27 países-membros.