Merkel cancela viagem aos EUA para acompanhar de perto as eleições regionais de Berlim

Fátima Lacerda

18 de setembro de 2016 | 10h46

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Num domingo de fim de verão com o céu de brigadeiro, Berlim como cidade-estado (e não como capital da República) convocada 2, 5 milhões de eleitores às urnas para eleger o novo parlamento (Abgeordnetenhaus, em alemão).

Nos tempos quando a capital era na pacata cidade de Bonn, as eleições de âmbito regional tinham uma relevância periférica e assim eram espelhadas no noticiário. Na contemporaneidade da reviravolta pela qual passa o espectro político-partidário da Alemanha essa característica virou uma rotina.

No início do mês, os olhares estavam todos voltados para a região nordeste de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, onde o partido que promete ser Alternativa para a Alemanha (AfD) na sigla, humilhou e desbancou o partido de Merkel da segunda posição como bancada mais forte no parlamento regional que tem sede na cidade de Schwerin.

De forma nada soberana e mostrando a igualmente ineficiência e incapacidade dos partidos estabelecidos em lidar e usar de instrumentos para contra-atacar o partido que faz políticos perder o sono, Merkel fez declaração morrna do tipo “não estamos conseguindo explicar aos eleitores da AfD, a nossa política” quando o buraco, é muito mais em baixo. 

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Café requentado

Não é, primeiramente, uma questão de burrice política que leva pessoas a votarem nesse partido e nem mesmo um protesto, como insistem em afirmar os estudiosos de desenvolvimento de partidos políticos. Quando eu quero protestar contra uma eleição, por achar que os candidatos constantes na lista não me representam, eu vou ao local de votação, entro na cabine e anulo o meu voto. Isso, para mim, é protesto. Bem outra coisa, é fazer a cruzinha no nome de  num partido que tenta se vender como de colarinho branco (o jargão em alemão chama de “colete branco”) ter, de forma comprovada, em seus membros, ex-do partido nazista NPD e do movimento xenofóbico e homofóbico como o PEGIDA, um bando de autodenominados “europeus contra a islamização do ocidente” e um vice-chefe chamado Alexander Gauland que afirma não querer ter “como vizinho” o jogador Jerôme Boateng, de origem africana, mas nascido em Berlim e de nacionalidade alemã, como se fosse isso, de fato o fator determinante.

AfD em Berlim

Raramente as eleições parlamentais em Berlim como cidade-estado causaram tanto suspense e foram foco de tantos políticos federais e do circo midiático.O termômetro mór dessa tese é o fato de que a chanceler alemã, de última hora, adiou sua viagem à uma agenda nas Nações Unidas em Nova Iorque para acompanhar, de perto, o resultado que será divulgado no final da tarde, primeiramente, como um prognóstico das pesquisas de boca de urna. O prognóstico da AfD para Berlim é entre 10 e 14% de intenção de votos.

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Como os pesquisadores são muito exatos, não precisa nem esperar o final da noite para saber como será a constelação da próxima legislatura. O resultado terá influência direta no peso de votos na câmara alta, o Bundesrat que aglomera os 16 estados (Bundesländer) e que é palco de rivalidade entre governo e oposição quando se trata de aprovação de novas leis. Com brilhante no quesito estratégia, Merkel tenta, sempre que pode e as leis da democracia parlamentar, permitem) driblar essas regras, mas nem sempre é possível.

Wahlzettel

Prefeito Müller correndo por fora

O socialdemocrata Michael Müller já tirou capital das pesquisas de intenção de votos. Como os números indicam que seu atual parceiro, o CDU aparece despencando nas estatísticas, Müller já sinalizou que pretende fazer a coligação com os Verdes e com o partido esquerdista Die Linke. A opção preferida de Müller seria a coligação somente com os Verdes. Porém os 15% de intenção de votos da pesquisa divulgada em 15/09 somados aos 23% para os socialdemocratas não fechariam a conta. É preciso de um terceiro “jogador” no campo.

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Na manha de domingo (18) a imprensa berlinense publicou dados sobre um dossiê sobre dúvidas e incertezas concernentes à abertura do Aeroporto Internacional (BER) em 2017. O aeroporto que virou símbolo do feltro que existe na política de Berlim e do qual inauguração já foi adiada 5 vezes, já fez rolar muitas cabeças. Para que os socialdemocratas e o atual prefeito Müller não tenham prejuízo eleitoral, dados abrangentes do dossiê só serão divulgados depois do resultado das eleições. O que já vazou em primeira mão através do jornal Bild am Sonntag é que a Holding BER contratou uma firma holandesa para examinar o paciente terminal BER concernente à perrengues que possam atrasar, mais uma vez, a inauguração em 2017. Interessante também o aspecto que o contrato foi feito diretamente com a empresa holandesa de consultoria, a Beratungsgesellschaft Netherlands Airport Consultans (NACO), na encolha, sem anterior publicado no edital do diário oficial.

Berlim revolucionária

Na Berlim, tradicionalmente, esquerdista e vermelha será dolorosa novidade ter a AfD no parlamento regional como também nos parlamentos dos bairros (BVV, na sigla em alemão) cargos dos quais resultam dos eleitos da listas dos respectivos partidos. O partido que tiver mais peso nos parlamentos dos respectivos bairros estipula o candidato a prefeito ou prefeita assim como angaria cargos executivos no âmbito da BVV que tem direta influência nas medidas à serem adotadas nos bairros e e todo o âmbito da política de município.

Os Verdes e a falta de conteúdo 

Não há qualquer dúvida que os Verdes estão secos para voltarem a fazer parte do governo da cidade-estado. Porém, os cartazes do partido que, segundo as más línguas, se tornou os “novos neoliberais” não revelou qualquer tipo de conteúdo: “Alles auf grün” foi o principal mote. “Sinal verde” em tradução livre permite vasta interpretação. Usar do significado positivo da cor verde, como a cor da esperança e associado à sustentabilidade é muito pouco para quem quer tanto governar Berlim. Os candidatos tanto do âmbito regional quanto dos bairros apostam no time que está ganhando, já que os Verdes formam a bancada mais forte no parlamento do parlamento, da BVV, Kreuzberg-Friedrichshain, que em termos administrativos, depois da reforma dos bairros, formam uma unidade. Candidatos mornos, simpático e que pleiteiam para mais vagas para jardins de infância ou por mais ciclovias e pelo não fechamento de centros culturais. Ora, bolas! Para um partido que governa Kreuzberg há 4 anos, já era para ter alçado essas metas. Além da posição desfavorável e morna em termos de conteúdo, a atual prefeita de Berlim, Monika Hermann, exige uma das piores performances no cargo e jogou tudo no ventilador quando os refugiados ocuparam um prédio vazio no bairro de Kreuzberg. Em termos de “administração de crises” ela precisaria fazer um longo curso com a chanceler alemã. Herrmann, além de ser extremamente arrogante foca de forma prioritária nos direitos do LTGB. Isso, de fato, importante, porém infinitamente pouco.

Seja quem for que venha formar o próximo governo de Berlim como cidade-estado: a prioridade precisar ser dar as pessoas que aqui vivem e as que aqui chegam, um perspectiva de viver em segurança, de forma digna sublinhada por participação social. Inclusão, independente da cor do passaporte.

Há tempos os Verdes (e atualmente também os socialdemocratas) vem batendo na tecla, louvando Berlim pela sua diversidade. O outro lado da moeda e ao que se faz vista grossa é a ascensão em formato cometa do partido xenofóbico e racista. Isso, em Berlim desnua uma nova dimensão da abrangência da mudança do paradigma político partidário que vem se delineando na Alemanha há dois anos. Nas eleições de 2012, foram os piratas os vencedores. 4 anos depois, tudo indica que a fase gloriosa terá um fim e os neoliberais, que na época foram substituídos pelos piratas, estão prestes a retornar.

A reação midiática no preâmbulo como no dia das eleições é recheada de imaginação. Na mais recente edição do programa de sátira política, Heuteshow, o âncora, notório crítico que adora zoar com Berlim, ousando o politicamente incorreto e o tom bem sarcástico, mandou: “Para consertar Berlim, somente com a volta dos Aliados“.

No Twitter, o dono da conta Studentenleben (Vida de estudante universitário) com o twitter @tomkraftwerk confirmou a visão do âncora do programa satírico: “Qual o partido que precisa ser votado, para que os aliados voltem pra Berlim?”.

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