Merkel e a dinâmica do carrossel político em Berlim

Fátima Lacerda

04 de novembro de 2016 | 19h03

Nesses dias acontece mais uma edição do Jazz Fest em Berlim, um dos poucos eventos culturais que ainda sobrevivem num formato como se Berlim ainda fosse somente ocidental. Porém é o circo político ao longo desta semana que preenche as manchetes e monopoliza a linha do tempo no Twitter com os mais diversos #Hashtags: uma das #hashtags mais movimentadas dos últimos dois dias foi sobre a visita do Ministro da Economia, Sigmar Gabriel, um dos mais odiados políticos da Alemanha.

Gabriel esteve dando um rolé pela China. A foto só mostra o início do encontro. Logo depois, os jornalistas e cinegrafistas foram “convidados a se retirar”. O medo os chineses que Gabriel provocasse mais uma saia justa, como já o fez no Irã, foi maior do que todo o protocolo.

Ao retornar a Berlim, não trouxe na mala nada de peso, muito menos ainda a certeza de que o governo chinês seria mais condescendente com empresas alemães da área automobilística alemã, concernente ao setor de carros elétricos.

Gabriel foi à China arrebatado pelo “mercado gigante” de carros elétricos. Chegou no país asiático e teve conversa tão dura com o Ministro do Comércio que a aparição dos dois representantes na “Convenção Econômica Alemanha-China” frente à 200 representantes Do setor  juntamente com jornalistas, foi cancelada em último minuto. Gabriel e os micos diplomáticos é uma dobradinha como goiabada com queijo. São inseparáveis.

Gabriel foi ao museu

Em sua recente viagem a República Islâmica do Irã, Gabriel protagonizou mais um mico diplomático. Em última hora, teve sua agenda política modificada à revelia. Ao invés de ser recebido pelo presidente do parlamento, Ali Laridschani, este visivelmente irritado com as declarações do ministro alemão em favor do estado de Israel, só sobrou ao ministro alemão a ida a museus.

No preâmbulo de sua viagem ao Irã, Gabriel ousou a saia justa quando declarou: “Uma relação normal e amigável da Alemanha com o Irã só será possível com a aceitação da existência do Estado de Israel“. Essa declaração irritou de tal forma os iranianos, que o presidente do parlamento cancelou, de última hora, seu encontro marcado com Gabriel. O Ministro acabou estendendo seu rolé cultural pelos museus da capital iraniana. Expertos consideram o caso um mico diplomático, um dos muitos já protagonizados pelo chefe dos socialdemocratas. As redes sociais deitaram e rolaram com a “pauta” especulando, entre outros, se Gabriel iria “ganhar bronca da patroa” quando tivesse que prestar contas sobre “o que fez no Irã“.

 Situação na Turquia: “Alarmante”

O jornal Cumhuriyet é um dos últimos moicanos lutando e sangrando pela liberdade de imprensa na Turquia. O jornalista Can Dündar, ex-redator-chefe do Cumhuriyet foi levado ao tribunal e condenado por 5 anos por tornar público o envio de armas do serviço secreto turco para a Síria.

Essa e outras pautas foram consideradas “subversivas”, “top secret” e “com o intuito de quebrar o governo”, assim a justificativa da Promotoria durante a divulgação do julgamento. Durante 3 meses, Dündar amargou na cadeia, onde escreveu seu livro “Uma vida inteira pela verdade. Rascunhos feitos na prisão” publicado em agosto deste ano pela editora Hoffmann e Campe. Hoje, Can Dündar vive na Alemanha e é requisitado participante de vários congressos sobre jornalismo, imprensa e sobre o exercício diário de, como jornalista, viver no limbo.

Na segunda-feira (31) a polícia federal turca prendeu o editor-chefe e sucessor de Dündar assim como os principais jornalistas do jornal (12), com o claro intuito de quebrar sua espinha dorsal do veículo crítico ao governo de Erdogan. Essa notícia foi só mais uma no caminho indiscutível do presidente turco para uma a finalização de uma autarquia. O aparato policial justificou a prisão alegando que “artigos publicados no jornal teriam legitimado a tentativa de Golpe em julho” além de terem cometido crimes a favor do partido dos trabalhadores dos curdos (PKK, na sigla) como também em prol do movimento “Gülen” a quem o governo de Erdogan responsabiliza pela tentativa de golpe.

E agora, Frau Merkel?

A imprensa alemã, mais uma vez, confrontou a chanceler Merkel com o acontecido na redação do jornal Cumhuriyet.

Os acontecimentos são preocupantes“, declarou a chanceler. Desta vez, Merkel, aumentou um pouquinho a intensidade de seu habitual discurso morno, ao mesmo tempo que, como diz o ditado popular daqui, “já está com seu latim esgotado”. “É muito alarmante que o valioso sentido da imprensa e liberdade de opinião esteja sendo, constantemente, reprimida“. Merkel contextualizou as medidas do governo turco, especialmente depois da tentativa de Golpe em julho passado. “É claro que temas como esses (liberdade de expressão e de imprensa) tem papel-chave nas negociações para a inclusão da Turquia na UE“. Querendo mostrar serviço, Merkel informou: “Na terça-feira (01) Martin Erdmann, embaixador da Alemanha na Turquia fez visita à redação do jornal” exatamente para “mostrar nossa solidariedade.

O presidente François Hollande também já teve essa atitude logo depois do massacre à redação do jornal satírico “Charlie Hebdo” em janeiro de 2015. Porém, na redação do  o embaixador alemão não encontrou na redação as principais mentes do jornal. É força tarefa número 1 de Erdogan, neutralizar as cabeças pensantes e de posicionamento crítico ao seu regime, não importa onde e quantas elas sejam como também não importa se verdadeiros criminosos tenham que deixar os presídios para darem lugar a quem luta pela democracia, liberdade de expressão e de imprensa.

O governo turco: similaridades com o passado?

Edzard Reuter, ex-manda-chuva da Daimler-Benz e filho do primeiro prefeito de Berlim Ocidental, Ernst-Reuter, em conversa com o jornalista Dünar, que tem uma coluna no semanário Die Zeit, soltou o verbo: “O que acontece na Turquia nesse momento me lembra do início do nacional-socialismo de Hitler na Alemanha“.

O tom morno e habitual da chanceler

O tom de Merkel concernente ao que vem sendo executado e perseguido pelo governo turco ainda é infinitamente morno para um país que está no melhor caminho da autarquia e se lixando se as negociações com a UE para o inserir da Turquia no clube dos (até agora) 27, serão postergadas ou até mesmo canceladas.

Em semelhantes proporções com Ergogan, o ditador Vladimir Putin também se lixa para as sanções da UE. Em recente visita a Berlim para as “Consultações no Formato Normandia”, ele ratificou isso, ao trazer a tiracolo seu ex-vice chefe de governo, uma persona non grata na lista de sancionados e proibidos de entrar na zona da UE. Lá estava ele, ao lado do cara que jura querer fazer a Rússia “Great again”, slogan reloaded, digo, requentado, pelo Bozo Trump lá do outro lado do mundo.

Apesar do tom mais rígido do que de costume, Merkel sabe que precisa do inimigo turco. Ela precisa que ele continue fazendo o papel de policial nas fronteiras externas da UE para que o mínimo possível de refugiados consigam adentrar a zona da UE.

O ano de 2017 será o “Ano gordo das Eleições”. Em fevereiro de 2017 tem eleição para presidente, que, estrategicamente, deve ser um aliado de Merkel. Mesmo o presidente ou a presidenta tendo, na maior parte, cargo de representação, Merkel que não deixa nada por acaso, e está na incessante procura de um aliado. A procura de candidatas e candidatos se mostra difícil. Os chamados partidos-irmaos (CDU e CSU da Baviera) e mais ou menos aliados não encontraram, até agora, um denominador comum. O único que goza de um vasto respalto dentro dos partidos é o atual Ministros das Relações Exteriores, o social-democrata Frank-Walter Steinmeier. Entretanto, Merkel já sinalizou que não o quer nessa função. Sua motivação é, unicamente, de natureza estratégico político-partidária. Um socialdemocrata pode se tornar um tecer de pauzinhos para desestabilizar o governo e, por consequência, tirá-la do poder de forma mais factível do que parece no momento. É uma possiblidade remota, mas ela existe e Merkel está ciente disso.

O perrengue sobre e com Os Verdes

Um ano antes das eleições parlamentares, os Verdes estão às turras entre os diversos “corredores”, assim descreve o jargão. Os adeptos da chamada Realpolitik, apelidados de “Realos” e os outros, do “corredor da esquerda” (Der linke Flügel, em alemão).

A chefia, uma dobradinha sempre ocupada por um um homem e uma mulher, assim prescreve o estatuto do partido, é, atualmente, só rivalidade. Cem Özdemir que, apesar do que o nome intui, nasceu em Stuttgart, não esconde sua ambição em ser coroado como candidato do partido para disputar as eleições anda jogando muito no ventilador, causando irritação a co-chefe do partido, Simone Peter que só fala com ele através da imprensa: “Ele precisa parar com esse show solo. Os Verdes são um partido democrático”.

Como nos Verdes tudo é social-democrático, os 4 candidatos a candidatos estão dando um rolé pelos 4 cantos do país para pedirem votos aos membros do partido. A eleição estipulará dois candidatos para chefiar a campanha do partido, será feita na Convenção Federal dos Verdes na cidade de Münster, região da Renânia do Norte Vestfalia entre os dias 20 e 22 de novembro. Christian, que é delegado federal, participará da eleição e apesar de ser do bairro esquerdista e multiétnico de Kreuzberg, ainda se mostra indeciso em qual dos 4 candidatos irá votar. A única mulher no grupo é a atual chefe da bancada no parlamento, KathrinGöhring-Eckart que ja tem vaga certa, respaldada pela quota para que mulheres ocupem cargos de chefia em todos os grêmios do partido. Ou seja: tem uma vaga a ser preenchida e a concorrência é entre 3 homens, mas nenhum deles está tão presente e é igualmente conhecido na mídia como Özdemir.

Também nesta semana, Winfred Kretschmann, Ministro Presidente da região de Baden-Württemberg e, ao mesmo tempo, carro-chefe dos Verdes no quesito Realpolitik, declarou em programa de entrevistas na TV aberta que “não há ninguém melhor que a Angela Merkel” para exercer o papel de chanceler, além de ter expressado sua vontade numa coalizão “verde-preta”, entre os Verdes e o partido de Merkel, o CDU. Na Alemanha, o jargão que indica os partidos políticos é simbolizado por cores. O CDU é preto, os Verdes, é óbvio, os Liberais, amarelos, os socialdemocratas vermelho claro, e o partido esquerdista Die Linke, vermelho escuro.

 Tudo no ventilador

A declaração de Kretschmann, que é do tipo boa praça e que é admirado pelos adversários exatamente por não encorporar a “radicalidade verdiana” causou reboliço dentro do partido. Isso, ao mesmo tempo que Peters, a chefe mulher anda as turras com o chefe Özdemir e tudo isso, poucas semanas antes da convenção. O “corredor esquerdista” do partido já marcou presença no escritório central do partido no bairro de Mitte em Berlim. Colando cartazes na porta de entrada e nas paredes do prédio, exibiram seu repúdio às investidas solo do tio boa praça Kretschmann.

Chegando nesse momento, Simone Peter, elegante como sempre, sorrindo, alegou às câmeras: “Ir agora para o centro, não é o caminho certo. Os Verdes são um partido de esquerda”.

Um outro membro do partido reagiu da seguinte forma: “Pedir a Merkel para continuar sendo chanceler é a mesma coisa que a direção do time Schalke 04 desejar que o Borussia Dortmund ganhe o campeonato alemão de futebol”. Vale lembrar que a rivalidade entre os dois times é memorável e de décadas. A rixa em solos tropicais envolvendo o clube das Laranjeiras e um clube de Regatas é café pequeno, comparada com os dois times alemães.

Uma gota no oceano

Raficando sua percepção do que é certo no momento certo, o ainda Presidente da República, Joachim Gauck estendeu sua agenda para a próxima semana.

Na segunda-feira (07) às 14 horas (horário local) o presidente convidou o jornalista Can Dündar para uma conversa na presença de jornalistas, mesmo depois de ter classificado o pronunciamento da chanceler, depois da prisão dos jornalistas do Cumhuriyet, como „fraco“.

Anteriormente ao pronunciamento o jornalista mais temido pelo governo Erdogan havia pleiteado um “sinal claro e corajoso” de Merkel, o que não se concretizou.

Links relacionados:

http://www.cumhuriyet.com.tr/

 

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