Merkel e Dilma, Rio e Berlim: similaridades, atagonismos e idiossincrasias

Fátima Lacerda

12 de março de 2016 | 19h03

Na manhã deste sábado (12) 3000 pessoas, entre elas, neonazistas, Hooligans e como diziam faixas, “Membros do Reich”, protestavam pelas ruas do centro de Berlim. A facha principal reivindicava:” Merkel tem que sair”. Sabendo que Berlim não dorme no ponto, não demorou em se formar uma demonstração contra. A maturidade politica dos Berlinenses, por razões óbvias e pela sua essência revolucionária-esquerdista, exige estar sempre atento a formação de tendências politicas e reagir imediatamente a elas. Berlim aprendeu com a história.

Do outro lado do oceano, mais especificamente na Av. Atlântica, na cidade que é uma eterna dicotomia entre o monstruoso e o sublime, um caminhão com alto-falante faz a rota entre o Hotel Windsor  (ex-Meridien) e o cantinho do Leme, convoca do os praiano de sábado para “demonstrar contra a corrupção no Brasil”, na passeata de domingo (13) que tem ponto de encontro no Posto 5 em Copa, pertinho do quiosque da Rede Globo. As agências do Banco do Brasil já lacraram os caixas automáticos do Leme e também alguns de Copa. Já e

Enquanto o PMDB, em convenção nacional, declara que “não é hora de construir muros”, ao mesmo tempo que fica todo o tempo em cima dele, o partido verde berlinense, em âmbito regional escolhe a sua lista de candidatos para as eleições de setembro próximo. O partido que contava com a minha simpatia por ser uma alternativa benvinda, foi atropelado pelo caminhar da carruagem, pelo sinal dos tempos e pelo galope da globalização. Os temas que restaram para Os Verdes são aumento do numero de ciclovias na capital, mais escolas de alemão para refugiados e o preservar das abelhas dos bairros. Não que esses temas não sejam importantes, mas parar querer fazer parte do próximo governo da cidade de Berlim, é muito pouco. Ate mesmo em seu reduto mor de eleitores, o bairros de Kreuzberg e Friedrichshain, Os Verdes estão perdendo membros os numa estonteante dinâmica-dominó. Não é nada factível que eles deixarão o banco da oposição no parlamento regional de Berlim, o Abgeordnetenhaus.

Enquanto Berlim ainda procura um lugar para a segunda edição do meta evento Lolapalooza, na noite de sábado (12), Humberto Gessinger será a pedida musical num dos lugares de vista mais linda, mas também uma das instalações mais estéreis e frias da cultura carioca: o Vivo Rio no Aterro do Flamengo.

No show onde não poderão faltar canções do tempo do “Engenheiros do Hawaii ”, o louro com nome alemão vai cantar  “Terra de Gigantes:“Pois agora, lá fora, o Brasil é uma ilha, a milhas e milhas e milhas de qualquer lugar!!!!”. O impacto que essa frase tinha na época foi dissolvido pelo andar da carruagem. Ao mesmo tempo que o Brasil, depois da descoberta do pré-sal e da arrojada politica externa do ex-presidente Lula, que não mais se permitia ser colocado para escanteio quando se tratava de questões globais, o Rio de Janeiro se mostra, hoje, uma cidade abandonada à própria sorte e, mesmo depois de 3 semanas por aqui, ainda não reconheço nenhum espírito olímpico. Não é pra menos!!!  

Saudades da “Vilma”

A saudade é algo que aparece muito mais quando estou em Berlim. Bate saudade de um monte de coisas da terrinha, do meu solo, do colo de mãe: comer arroz com feijão, correr todo o dia na praia, ir no mirante do Leblon, ver o Hotel Marina iluminado a noite, consumir cultura, ir ao teatro e me deliciar de forma sensorial ao ouvir a língua brasileira adentrando meus ouvidos.

Porém, nessas semanas em terras cariocas, bate uma saudade absurda da Vilma Magrela, a minha bicicleta assim como da autonomia que eu tenho, em solos berlinenses, para me locomover não importando dia, hora, local ou se tem neve na calçada. Me recuso a alugar a bicicleta do Itaú, não somente pelo medo de ser assaltada, mas porque vai totalmente de encontro ao que percebo o que é fazer uso da bicicleta, que é muito mais do que dar um rolezinho pela orla.

A infraestrutura de transportes do RJ e indigna para a população. Depois da mudança de itinerários, ocorrida em novembro passado, os cariocas tem que pegar dois ônibus de ida e dois de volta, pagando para cada percurso o valor de 3,80 reais. E quando se entra no ônibus e o motorista que faz o troco, já que as empresas economizaram um local de trabalho, dizimar com a função de trocadores. Mesmo que em Berlim as ciclovias tenham mais buracos do que um queijo suíço, a liberdade de ir e vir pelas suas próprias pernas e impagável! Não precisar de símbolo de status. Não precisar de um Land Rover, um 4.4 “tinindo” e arrebentando o balão quando se vai almoçar na casa dos amigos e exibir o status de quem “ podendo”. Uma das coisas mais preciosas que aprendi em solos alemães e senso critico em relação a um consumismo desfreado e que isso precisa ser refletido e que e a maior bobagem você se definir ou deixar definir pelos bens materiais. Uma das coisas que mais me agrada é ver um politico indo para o trabalho de bicicleta.

No Brasil todo o bloco de anúncios em horário nobre é propriedade da indústria automobilística que quer colocar os carros na rua causando um congestionamento constante nas ruas da cidade de distâncias longas e onde você, seja de ônibus, metro, carro ou (como dizia a vó Hercília), “viação canela”, você estará sempre atrasado, o que para o carioca é algo natural e o “to chegando” pode significar muita coisa, mas não para quem vive em Berlim, onde um atraso é o desrespeito ao tempo da outra pessoa e não algo que vem naturalmente incluído no “pacote cultural” assim como não se faz desmarcar um encontro 20 minutos antes dele acontecer. “Cariocas são bonitos, cariocas são bacanas, cariocas são sacanas, são dourados, são espertos, cariocas não gostam de dias nublados!”

O inimigo mora ao lado

Enquanto a chanceler alemã vem sendo testada diariamente na sua paciência, perseverança de se manter no governo e sendo torpedeada por Horst Seehofer, o chefe do CSU, partido da Baviera e membro do governo, a presidente Dilma tem que governar ao lado de um peso morto chamado Michel Temer, que não tem o estirpe para atacá-la, mas seu status de “peso morto” não faz bem a democracia e impossibilita qualquer estabilização do governo. Igualmente como a chanceler alemã, Dilma vai engolindo um sapo mais gordo do que o outro. Merkel é doutora em física, evangélica-luterana e aprendeu que esperar o momento certo pode ser a chave do sucesso na política. Varias estações de sua carreira comprovam esse approach.

Temer e Seehofer

Uma similaridade entre os dois príncipes com sorte: Temer escreveu carta choramingando, discutindo a relação. Seehofer também escreveu uma carta para a chancelaria federal. E quanto a presidenta Dilma, mais uma vez exibindo sua falta de soberania como também a crônica falta de uma assessoria de imprensa eficiente, se deu ao trabalho de comentar a carta numa coletiva de imprensa, Merkel ignorou a carta do Bávaro. Porem, a penúria e a sofrencia, continuam. Não há uma semana em que Seehofer mande recadinhos para a Merkel, via imprensa, garantindo assim a sua legitimidade interna no partido bávaro de que ele é “o cara” em Berlim, o Enfant Terrible da politica bávara. 

Rapidez x Letargia

Enquanto  em solos cariocas o calor massacra e faz pairar sobre a cidade, em especial no setor de prestação de serviços uma letargia insuportável, o ritmo de Berlim Blitz, veloz e, ao contrário dos cariocas, tem uma antena muito bem treinada desde infância de como se comportar em espaço físico para não causar transtorno ficando no meio do caminho no corredor do supermercado Zona Sul ou desperdiçando a agilidade na movimentação dentro de estação do metro. Enquanto a moça cria raiz (ditado popular alemão livremente adaptado) no lado esquerdo da escada rolante da estação Cardeal Arcoverde e impede o livre fluxo de passageiros, se você fizer isso em Berlim, você estará frito! A represália será de imediato. Ainda mais se for na estação da linha 8, Kottbusser Tor, no bairro de convulsão cultural, social e urbana de Kreuzberg.

Cumprir leis lá e cá

Enquanto em Berlim não há exceção para leis, ela vale para todos, em solos cariocas e mais um caso de roleta russa. Um exemplo: No finalzinho do Leme, nos pés do Forte, a vista da silhueta da cidade e, ao mínimo, d e s l u m b r a n t e. Porem, beber um coco ali, você pagará um valor salgado e, para quem gosta de comer a parte interior do coco, vai ficar decepcionado. E proibido pela prefeitura. Porém, na barraca do seu Josué, no Arpoador, o curtir da fruta do coco ainda é uma rotina, curtida por muitos, especialmente nas manhãs de sábado depois que os grupos de natação voltam famintos das profundezas do mar. #vemnadar

Parada de ônibus

Enquanto os passageiros cariocas podem expressa e o lugar que querem saltar, em Berlim não tem conversa e, com todo o trocadilho, fala-se com o motorista somente, realmente o indispensável, mas o melhor é não falar nadinha com ele…

Cachorros

Berlim é a cidade dos 4 patas, o melhor amigo do homem. Para muitos, o único amigo que ele tem. Em solos cariocas, em minhas caminhadas muito matutinas, vejo cachorros na praia, achei também a cabeça de um chuveiro elétrico, mas isso é outra coisa. Hoje não pude resistir e perguntei a um dos donos de cachorro, em tom irônico: “E proibido cachorro na praia, não é mesmo?”. “E sim” disse ele como quem estava ali só pra contrariar. Em Berlim, a disputa do espaço urbano com os quatro patas é ainda muito pior. Ainda mais que depois de 9 meses de proibição de cachorros na beira do meu lago preferido e um dos mais lindos da capital, a iniciativa “Berliner Schnauze” (O focinho berlinense) obteve sucesso na justiça e a medida da administração do bairro de Zehlendorf foi revogada, o que diminui consideravelmente as minhas expectativas concernentes ao próximo verão berlinense.

A prova

No final desta semana haverá mais eleições em âmbito regional, o que será mais um prova que Merkel terá que prestar e isso logo depois de ter sido fechada a Rota dos Balcãs, empreendimento alinhavado com o comando do governo austríaco e os países da região, para dizimar o fluxo dos refugiados. Essa aliança significa a isolação politica de Merkel em um cenário inusitado. Alemanha e Turquia de um lado e o ex-aliado Áustria deu as costas para a “cultura da recepctividade” (Willkommenskultur) de Merkel, do outro. Em nenhum momento a chanceler alemã esteve politicamente tão só.

A prova pela qual passa a presidente Dilma consegue ser ainda mais difícil do que de sua colega alemã .

Seu cargo esta por um triz. As paneladas mostram que o país não da ouvidos para a chefe de estado. Sua credibilidade beira do Ground Zero. O Brasil é um pais dividido entre os pro e os contra governo, de uma forma tão absoluta que me lembra a convulsão que regia na Alemanha reacionária nos anos 70, quando era um pecado mortal não ser de esquerda. A própria Angela Merkel não cansa de contar as represálias que sofreu quando se expressava ser de direita na época . Ao contrário da Alemanha, que mesmo sofrendo uma grande crise politica, goza de democracia cimentada por mais de mais de 60 anos, a democracia brasileira se mostra acometida de grande fragilidade, com segmentos reacionários e muito bem organizados e linkados indo para as ruas e pelas redes sociais pedir a volta dos militares ao poder. Por outro lado, os que apoiam o PT  agem com um absolutismo que mostra de forma crua uma imaturidade politica muito perigosa como se fosse uma seita e não uma opção politica que deve ser sempre analisada e eventualmente revogada. Mais do que derrubar um governo ou não, se faz necessário fortalecer a democracia e o solo constitucional, tanto no Brasil, quanto na Alemanha, onde lá partidos populistas de direita gostariam de rasgar ou até mesmo queimar a constituição.

Achar que o fim do atual governo Dilma e da odiada  politica do PT será a cura para todas as mazelas da sociedade brasileira é acreditar em Papai Noel, é uma cegueira politica igualmente inaceitável e perigosa. Quem acha que a Democracia é uma festa, onde se convida somente amigos e vizinhos queridos, se engana. Democracia é uma reunião que você tem que ir e onde estarão pessoas que vocês não suporta, mas terá que dialogar e negociar  com elas em prol de algo muito mais importante: a estabilidade de um governo e em prol da sociedade como um todo.

Frio x Quente

Enquanto o calor do Rio continua massacrando Emas pessoas, de fato, cancelam um encontro quando chove, Berlim continua relutante no desabrochar da primavera. Temperaturas variando entre 4 e 6 graus não me animam a voltar para a capital, mesmo com a IBERIA exigindo um valor absurdo para trocar a data da passagem incluindo multa, diferença de tarifa é a tarefa mais do que questionável para reemitir o bilhete.

O outro extremo é a marca de 30 graus as 23 horas na cidade da corda bamba daquilo que o baiano Caetano definiu como “entre o monstruoso e o sublime”.

Há poucos dias, fui convidada pelos autores de um livro que tera o título de” Tipicamente alemão”. Correspondentes atuantes na Alemanha irão dar seus depoimentos de como percebem a cultura alemã nos âmbitos de pontualidade, gastronomia, politica, etc. A estada no Rio cristaliza ainda aguça mais as diferenças entre as minhas duas paixões de formas muito diferentes: Rio e Berlim. Incluindo as ambiguidades, similaridades, antagonismos e as idiossincrasias.

 

Links relacionados:

http://www.berliner-schnauze.com/