Merkel e Macron em Berlim: protocolo entre o acelerador e o freio de mão puxado

Fátima Lacerda

20 Abril 2018 | 07h59

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O atual motor do aparato estagnado “Europa” é o presidente francês Emmanuel Macron que há nove meses vem apresentando seu plano para tornar a “Velha Senhora” mais eficiente, mais transparente, mais enxuta. A visita do ambicioso e visionário em Berlim numa tarde de primavera para inglês nenhum botar defeito (os alemães não acreditam em nada, mas sim na simbologia do deus do sol e suas mensagens) quer uma reforma rápida, sugere um Ministro das Finanças para os 27 países-membros e um aumento expressivo do orçamento financeiro para a UE.

Merkel, a velha senhora não esconde em frear todo o tipo de impulso, especialmente se esse relativiza a hegemonia da Alemanha. Merkel está relutante em dar o sinal verde para o seu mais ambicioso pupilo e isso, por vários motivos: A ela falta a visão de uma Europa do futuro somado ao medo de perda de poder. Com um Ministro das Finanças para todos os estados, a dominância alemã em termos políticos, estará comprometida. E a proposta de Macron custa muito dinheiro.

©John Macdougall/AFP

Diplomacia protocolar e midiática

O encontro dos dois chefes de governo não foi, como de praxe, no prédio da chancelaria federal, mas no “Humboldt Forum”, lugar de extrema simbologia histórica e terreno no qual em 2019 será inaugurado um Centro Cultural que homenageia o letrado Wilhelm von Humboldt. Outrora, nesse mesmo terreno, brilhava austero o “Castelo de Berlim”, símbolo da monarquia alemã e seus Hohenzollern, a nobreza.

Do portal 4, no turbulento ano de 1918, o revolucionário Karl-Liebknecht proclamava a República, duas horas depois que Gustav Stresemann o havia feito no prédio do Reichstag (o prédio que hoje abriga o parlamento). Nesse terreno de simbologia mór para a história do Velho Continente, Merkel passeou com Macron pela obra já bem adiantada, sua linguagem corporal em coreografia tanto meticulosa quando previsível, mostrava que ela é quem mostra a direção. Mais do que isso: determina a dinâmica e velocidade do andar da carruagem. Não há como não tecer uma paralelidade: o Humboldt Forum ainda é uma obra acabada, mesmo que já tenha a seu favor de ser uma das poucas obras da capital sem explosão de custos e protelamentos da data de inauguração. A “Casa Europa” precisa de conserto e reformas urgentes. Macron fala de “um momento de aventura para a UE”, aventura como desafio. 

Macron, o exímio pupilo fazia o trâmite protocolar, como sempre, excelentemente preparado e “armado” com seu sorriso solícito. Porém, na coletiva de imprensa improvisada nas dependências do Humboldt Forum a fisionomia do presidente não deixava dúvidas de seu desagrado com o freio de mão puxado da chanceler que sempre protela em se concretizar sobre os itens sugeridos por ele. Decerto que são itens ousados, mas necessários. Se Merkel protelar as reformas ainda mais, ai sim a “Casa Europa” e seus membros que nunca se mostraram tao antagônicos, podem causar ainda mais rachaduras na fachada do que a crise dos refugiados já causou.

A chanceler precisa do tete-a tete com o presidente francês para deixar de perder pontos em casa. O poder de Merkel nunca sofreu tanta erosão, como atualmente no seu quarto mandato. O presidente francês quer acelerar a carreta Europa, mas sabe que precisa de tato e diplomacia e, ainda, não se atreve em recorrer a outros aliados na UE para sair correndo pelas laterais enquanto Merkel fica em seu discurso vazio em conteúdo.

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As imagens de Berlim que foram para a Alemanha e Franca são de fachada. Para Macron, a visita a Berlim lhe trouxe enriquecimentos culturais além da vista do teto do Humboldt Forum, que é mesmo de arrepiar. Politicamente o ambicioso e declarado pela “Causa Europa”, volta para casa com as mãos vazias. Para a chanceler alemã o petit comitê foi um paliativo, um ganhar de tempo, um empurrar com a barriga e deixar as reformas para um “futuro próximo”. Assim como o “Humboldt Forum”, que terá a fachada do “Castelo de Berlim” destruído pelo governo comunista da República Democrática Alemã (RDA), e dentro terá olhos para o futuro, com obras de artes, seminários sobre questões contemporâneas, Merkel prefere ir consertando o que não se pode protelar, mas a grande reforma da Europa, a chanceler que já está 13 anos no governo e viveu várias crises do aparato da “Velha Senhora” parece querer deixar o abacaxi para as próximas gerações. Macron, por sua vez quer mostrar serviço dentro de casa, mas também já ficar a postos como sucessor, quando Madame Merkel for coisa do passado.