Merkel em visita oficial à Brasília para Consultas Intergovernamentais

Fátima Lacerda

18 de agosto de 2015 | 17h21

DilmaMerkel.jpg©AP

Logo depois do plenário no parlamento, sobre o terceiro pacote de ajuda à Grécia, com o volume de 86 bilhões de euros que será votado bem cedo na quarta-feira (19), a chanceler alemã parte para Brasília, no primeiro “Encontro para consultações” entre os governo alemão e brasileiro. Esse formato de “Consultas” já existe com os EUA, Israel, China, Índia. “Também já fizemos com a Rússia, mas no momento essas consultações estão suspensas por motivos óbvios”, disse Dr. Christoph Heusgen, consultor da chanceler para assuntos de política externa.

O pontapé inicial foi do moderador, Leifert, que listou as idas da chanceler ao Brasil. “A última vez foi em julho do ano passado”, se referindo à final da Copa do Brasil, arrancando um riso meio preso dos jornalistas. Qualquer algo mais do que isso que relembre a tragédia esportiva do século, seria um “pato diplomático”, com diz um jargão nas terras daqui. Essa é a quinta vez que Merkel visita o Brasil. Ela será acompanhada por vários ministros do gabinete, incluindo das Relações Exteriores, o dos Transportes, do Meio Ambiente, a Ministra Federal da Cultura e Mídia, Monika Grütters que ficará mais dias e estenderá sua viagem à São Paulo, onde terá encontro com intelectuais e artistas. Entre os objetivos da área de cultura e mídia estão, entre outros, o fomento de intercâmbio estudantil e aprofundar as relações no âmbito de tradução de obras literárias brasileiras para a língua de Schiller e Goehte.

Segundo informação disponibilizada no portal “A chanceler”, “A viagem tem o intuito de intensificar e tornar mais abrangente o relacionamento bilateral entre os dois países nas questões globais como Ciência, Tecnologia, Inovação assim como no setores do meio ambiente e de proteção climática”.

Pelo cunho econômico dados pelos presentes na coletiva de hoje, é, no mínimo, estranho que a chanceler não seja acompanhada pelo ministro da economia, ressaltou um jornalista presente.

Um país dividido

Vinda da Europa, onde as pautas atuais mais urgentes são o número recorde de refugiados (aproximadamente 700.00 no ano corrente), a permanente “tragédia grega” e recém-saída de uma votação no parlamento que é sempre polêmica quando se trata da Grécia, Merkel encontrará no Brasil um país dividido entre os 51,64% que votaram a favor de Dilma e os 48,36 que votaram em Aécio. A crise econômica obriga à classe C em abdicar de seus objetivos para poder manter o padrão de vida adquirido na época do boom econômico, o governo anda de picuinha com o congresso. Mas nada disso irá desviar a atenção da chanceler.

Coletiva

No início da tarde de terça-feira (18), horário local, Stefan Seibert, o porta-voz de Merkel e ex-âncora do principal noticiário da rede aberta ZDF, convocou para uma coletiva para informar detalhes sobre viagem.

As justificativas para o que, de fato, é um empreendimento primeiramente econômico, foram muitas, entre elas que:

O Brasil é o parceiro mais importante da Alemanha no âmbito da exportação

A economia mais forte da América Latina

Desde 2008 é parceiro estratégico no desafio dos problemas globais

A crise política, a inflação e o escândalo envolvendo a operação Lava Jato foram mencionados bem en passant e tratados como “assuntos de âmbito nacional”. Ratificando que a chanceler encontrará um país dividido e chegará somente 3 dias depois das manifestações de protesto em âmbito nacional, perguntei se a agenda prevê encontros de Merkel com políticos de partidos adversários ao governo. Dr. Heusgen alegou que a situação recíproca dos países é “sempre um assunto das conversas” e garantiu que Merkel irá informar à Dilma “sobre a situação na zona do euro”, mas ressaltou que “nesse formato” não está previsto nada. Essa retórica foi usada em todas as perguntas dos jornalistas presentes que focavam na atual situação política do Brasil. Um outro membro da mesa delineou todos os dados da economia brasileira, como num seminário do primeiro semestre da faculdade, apesar de ter avisado logo de início, “não querer se estender muito”. Também não deixou de ressaltar o volume de dinheiro investido e o número de empregos gerados pelas empresas alemães atuantes no Brasil, tentando uma justificativa político-econômica, para que depois, a “Associação dos Contribuintes”, que sempre fica de olho nos gastos do governo, não venha reclamar de “uma viagem cara” e venha abrir uma CPI para investigar.

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A agenda

Na noite de quarta-feira (19), o Itamaraty oferece um jantar em homenagem à chanceler.

No segundo dia da visita, bem cedo, está agendado um café da manhã entre a chanceler com representantes da economia alemã no Brasil. Perguntados por jornalistas quem seriam os convidados do evento com alto nível de exclusividade, o porta-voz Seibert, sem jeito, mas sabendo muito bem o porque da sua atitude, alegou: “Na realidade, não sabemos ao certo de ante-mão, mesmo porque, tem alguns convidados que acabam não indo por motivos de terem perdido o avião ou estarem doentes…” disse ele em texto surreal. “O que eu já posso divulgar é que serão representantes de grandes empresas”, angariando um riso tímido de alguns presentes. O outro da mesa, também já temendo a reclamação sobre “uma viagem custosa”, completou: “Não serão representantes da economia alemã, mas representantes alemães radicados no Brasil”. Como prêmio de consolação, Seibert garantiu divulgar os nomes DEPOIS do evento acontecido.

Segundo a Câmara de Comércio Brasil-Alemanha, São Paulo “é o estado que reúne o maior número de empresas alemães no mundo, abrigando mais de 900 subsidiárias que atuam nos mais diversos setores”. Várias fundações ligadas a partidos políticos também estão presentes no Brasil. Entre eles: A Fundação Konrad Adenauer, ligada ao CDU, partido de Merkel, tem seu principal escritório no Rio de Janeiro e uma filial na capital cearense. A Fundação Friedrich-Ebert, ligada ao partido socialdemocrata, em São Paulo. A Fundação Heinrich-Böll, ligada aos Verdes, no RJ.

Logo depois do café da manhã, iniciam as consultas que serão conduzidas pelas duas chefes de estado. Na sequência, assim informa o portal da chanceler, “serão assinados vários acordos econômicos”. Para finalizar o encontro, está programada uma coletiva para a imprensa e por fim, um almoço de confraternização para os membros das duas delegações.

Um ranço colonialista

Um jornalista, tomando como exemplo de corrupção o esquema do Lava Jato, lançou para a mesa se não haveria na comitiva “um responsável para aconselhar o Brasil em questões de corrupção”. A pergunta é tão absurda, que Heusgen, primeiramente, relutou em respondê-la. Como o jornalista insistiu, ele então foi enfático: “Não. A comitiva alemã não tem nenhum responsável para caso de corrupção” e acrescentou: “Não é o nosso papel fazê-lo. Isso são problemas de âmbito nacional. Além do mais, o sistema judiciário brasileiro é competente e independente. O Brasil é uma democracia que funciona”.

O fato é que as dificuldades econômicas, políticas e acima de tudo o calo político midiático concernente à operação Lava Jato evitados, mesmo porque, o intuito da viagem não é de cunho político. Além disso, Merkel é exímia em fazer vista grossa, sempre que há problemas e focar naquilo que interessa. No seu objetivo e o da viagem batizada de “Consultas Governamentais de alto nível”, o foco mor é a economia e o pragmatismo merkeliano vai, como sempre, tirar de letra e fazer o que está planejado.

Perguntado por um jornalista, se é verdade que a aproximação de Merkel e Dilma só teria acontecido devido ao escândalo da NSA, onde as duas foram vítimas de telefonemas grampeados, Heusgen desestruturou a polêmica: “As duas chefes de estado estão sempre em contato em diversas convenções internacionais, independentemente do escândalo da NSA. Além do mais, quando se planeja um evento como esses, não se deve deixar levar por questões pessoais”.

Na bagagem

Segundo o portal “Short News” da Turíngia (leste do país), a chanceler leva na mala 1400 salsichas típicas da região, que serão utilizadas na festa da embaixada da Alemanha em Brasília no próximo dia 03 de outubro, aniversário dos 25 anos da Unificação dos dois estados alemães.

http://www.shortnews.de/id/1168269/kanzlerin-angela-merkel-fliegt-nach-brasilien-und-nimmt-1400-bratwuerste-mit

Chegada em Brasília: https://www.youtube.com/watch?v=lCsSr6QHtY8

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