Merkel na cova dos leões: chanceler é humilhada na convenção do partido da Baviera (CSU)

Fátima Lacerda

21 de novembro de 2015 | 11h17

MerkelCSUDPA.jpg©DPA

Final da tarde de sexta-feira (20). Música ao fundo. Guarda-Costas por todos os lados. Entrada triunfal de Horst Seehofer, chefe do partido bávaro e atualmente o mais acirrado adversário da chanceler. São nesses momentos de glória e de foco midiático, que Seehofer obtêm sua plataforma ideal. A chanceler, no melhor estilo de disciplina prussiana no cumprir dos compromissos, viaja de Berlim até o finalzinho da república para bater ponto na convenção do partido irmão, União Social Cristã (CSU) e, nesse ano, ela pagou muito caro por isso.

Encenação do Momento Seehofer

Você sabe que nós perseguimos teimosamente esse objetivo” anuncia Seehofer enquanto olha com um sorriso cínico para a chanceler com o respaldo de quem está jogando em casa e está seguro do apoio da torcida, ele completa em tom igualmente de ameaça e promessa : “Nós ainda vamos falar sobre esse assunto“, como quem quer dizer: a última palavra ainda não foi dita. Também no palco e com o distanciamento físico que serve de metáfora, a (ainda) mais influente política da Europa é humilhada como se fosse colegial de ginásio que deixou de fazer o trabalho de casa e é reprendida durante 10 minutos pelo diretor da escola perante à classe inteira. O próprio jornal Süddeutsche Zeitung, com matriz na cidade de Munique, mostrou compaixão com a chanceler e publicou a seguinte manchete em sua versão digital deste sábado (21): “Seehofer em rota de confrontação que chega a doer“.

Nenhum dos anos anteriores foi tão difícil para a chanceler a ida até Munique. Sua cara fechada, seu blazer de cor vermelha sangue, sua clara linguagem corporal de braços cruzados de quem está contra a parede, porém nada disposta a negociar, contabiliza Seehofer como um triunfo dentro de casa e, com isso, ele pode, mais uma vez, ratificar frente ao seu partido, que que continua sendo “o cara” em Berlim. Vale mencionar que Seehofer, Ministro Presidente, desde 2013, governa com maioria absoluta do Estado Livre da Baviera e que mesmo que, por vezes, pareça o contrário. O CSU é um partido regional.

De forma demonstrativa, os delegados do CSU ofereceram a chanceler somente um “aplauso cordal e pró-forma” quando, em seu discurso, Merkel manteve seu posicionamento por uma “solução europeia” para a problemática dos refugiados, deixando assim, aberta a porta para exigência de outros membros relutantes da UE nesta questão, como a Polônia e a Hungria. Obergrenze, um limite em números para a entrada de refugiados no país é a exigência do partido da Baviera. Seehofer alega para isso, o “motivo nobre” de ser “impossível a integração dessas pessoas se as fronteiras continuarem abertas para todos”. (Veja no vídeo abaixo).

Certamente que a região da Baviera, devido à sua posição geográfica, tem especial desafio ao ser o primeiro destino de refugiados que atravessam a Áustria para chegar à Alemanha. Principalmente a cidade de Passau, fronteira com o país da Noviça Rebelde. Porém, além da Baviera ser a região financeiramente mais robusta do país, essa argumentação tem seu alicerce cravado em outra freguesia: na falta de vontade política e nas entrelinhas instigando o medo do que é estrangeiro e da ameaça irracional do “Fim de valores da cultura alemã”. Esse argumento, empacotado de algo aparentemente coerente como a preocupação da integração social dos refugiados para evitar convulsões sociais é resultado do plano meticulosamente delineado de instrumentalização política de Seehofer, que está de olho nos eleitores de partidos populistas de direita, como o Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla). O AfD, composto de várias correntes, entre elas algumas que transitam bem claramente fora do âmbito constitucional incluindo membros da cena de extrema-direita e com vasta ficha policial, tem uma imagem não muito clean, especialmente devido à falta de vontade do partido em concretizar e cristalizar seu perfil político.  É com esses eleitores que temem essa mancha e ao mesmo tempo são totalmente contra a política de Merkel, com os quais Seehofer conta. A União Social Cristã (CSU) pode ser uma alternativa para esses eleitores além de, em termos de números, muito úteis nas eleições regionais e municipais no início de 2016.

Em entrevista à TV, depois do discurso de Merkel e Seehofer, delegados do partido da Baviera falam de “um estranhamento avançado de dois partidos irmãos”. A ligação entre o CDU de Merkel e o CSU de Seehofer é arraigada na história do espectro partidário da Alemanha como goiabada com queijo, melhor, como chucrute e Eisben. Porém a história partidária  segue e se modifica. Como em âmbito pessoal, é preciso seguir em frente, ousar novos caminhos, porém Merkel está contra a parede. Muito poder está em jogo, a quebra da “União” entre CDU e o CSU da Baviera.  Merkel tem que negociar e até aguentar frequentes alfinetadas, picuinhas, exigências, em suma sabotagem dentro do próprio governo e é esse o atual fardo da chanceler. 

Enquanto no partido de Merkel, o CDU, as vozes contra a trilha política da chanceler vão ganhando cada vez mais espaço e analistas políticos já falam da “Erosão do poder de Merkel“, a chanceler ainda tem que servir de tapete para a vaidade sórdida, oportunista e da capacidade mor de instrumentalização de eleitores do Leão da Baviera, Horst Seehofer.

Não é preciso ser fã de Angela Merkel para ver que picuinhas e novas exigências de Seehofer, quase em ritmo semanal, não terão fim. Fosse Seehofer, membro do gabinete do governo, a chanceler já o teria “expressado sua maior confiança”, frase que a chanceler sempre diz, antes de demitir um Ministro do gabinete ou mesmo de sentenciar ao ostracismo um adversário político interno do próprio partido.

A dialética alemã em discutir problemas tem sempre uma pergunta feita no final: qual é a alternativa? Nesse caso, para dar um fim nos desfiles de vaidade do Leão da Baviera, Merkel teria que desfazer a coligação e o resultado seria a convocação de novas eleições. A AfD, o partido populista de direita e no momento com 10% de intenção de votos, estaria representada no parlamento. O partido neoliberal e ex-parceiro de Merkel no último governo, o FDP, também segundo as pesquisas, alcançaria 5% de intenção de votos e estaria de volta ao parlamento, uma visão apocalíptica não só para Merkel para também quem não quer abdicar dos princípios de solidariedade e continuar a levantar a voz contra o individualismo frio e calculista, numa sociedade na qual cada um é por si.

Merkel  precisa do CSU para não ter que imaginar uma ainda pior constelação a formar em um possível novo governo. Moral da história: Seehofer, o auto-proclamado “Rei da Baviera”, o “Cara do CSU em Berlim”. Ruim com ele. Muito pior sem ele. Como exímia representante das ciências naturais, Merkel vai continuar com a sua linha e vai engolir ainda muitos sapos bávaros. Podemos, com certeza, aguardar novos capítulos de uma novela-picuinha indigna para a classe política e que, certamente, não a faz ficar bem na foto instigando ainda mais o fenômeno de afastamento de eleitores do processo político o questionando como um todo. O abdicar dos alemães da ida às urnas nas últimas eleições exibe claramente essa tendência.

Links relacionados:

https://www.youtube.com/watch?v=1qzH2SGd16Y

https://www.youtube.com/watch?v=IfBaEfw4BxE

http://www.sueddeutsche.de/bayern/csu-parteitag-seehofer-auf-konfrontationskurs-bis-es-weh-tut-1.2746196

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