Visita de Merkel à Brasília: um presente que veio a calhar

Fátima Lacerda

21 de agosto de 2015 | 09h00

Existem profissionais que ganham a vida cuidando da presença midiática de políticos, sendo que desses políticos são o que o jargão midiático chama de “resistentes a aconselhamentos”. Assim é Angela Merkel. Assim também vários políticos que discursam no parlamento alemão, que insistem discursar com uma mão no bolso ou com a franja servindo de cortina para o rosto.

O filme “Entreatos” do diretor João Moreira Salles, sobre a campanha de Lula nas eleições presidências de 2002, mostra a importância da linguagem corporal. O filme aborda de forma instigante e surpreendente, as detalhadas ferramentas para conquistar poder. Casa detalhe, pode ser decisivo. Durante um dos debates, uma equipe inteira analisa a linguagem corporal do ex-candidato Lula.

https://www.youtube.com/watch?v=CAa9zGxFXWo

O pacote da Grécia e o “sinteco político”

Na manhã de quarta-feira (19), antes de partir para Brasília, Merkel marcou ponto no prédio do Reichstag, onde reside o parlamento, para mais um plenário envolvendo a Grécia. Para isso, os membros do parlamento tiveram que ser chamados da férias, não importando o quão longe ou perto esse lugar seja. Não é preciso ser um gênio da matemática para saber o custo imenso que é trazer 641 parlamentares para Berlim durante o período de recesso.

A propósito, linguagem corporal

No seu discurso, em forma e conteúdo, digno de um colegial, o chefe da bancada dos Verdes, Anton Hofreiter, chegou já dizendo: “Senhora Merkel!”, como se tivesse se dirigindo a professora e não “só” pelo seu cabelo longo e sua aparência “rústica”, arrancou gargalhadas das diferentes bancadas. Até Merkel ousou o raro: esboçou um sorriso como quem acha “fofinho” o approach do iniciante no “circo político”.

O protocolo lá e cá

Tanto na chancelaria federal em Berlim, quando nas intermináveis cúpulas de Bruxelas na tentativa de salvar uma “União de valores comuns” de se tornar “uma união de dívidas”, Merkel tem uma coreografia matematicamente preparada e executada. Sai do carro, se dirige aos repórteres, faz uma breve declaração e entra no prédio. Pronto. 

Na chegada em Brasília, na noite de quarta-feira, Dilma se aproximaou da chanceler, trocou beijinhos e – de quebra, para ratificar a sua alegria com visita tão ilustre num momento político tão delicado, Dilma, segurando forte nas mão de Merkel, fez movimentos pra cima e pra baixo umas 3 vezes para ratificar sua euforia. Ao lado da presidenta, um Michel Temer (PMDB), com postura de um robô, num formato do menos é mais e quando se movia, era como se estivesse sido conduzido por um controle remoto. Merkel saiu andando ao lado de Dilma, que, ao contrário da chanceler alemã, escolheu um terninho elegantérrimo, ressaltando a sua nova forma depois de regulares pedaladas e dieta executada com disciplina prussiana. Raramente a presidenta brasileira fez tal gol na escolha de seu figurino, que combina com o seu estilo.

Ao lado de Merkel, as vezes uns passos mais perto, outros mais para trás, estava a tradutora oficial do governo alemão. Em outro momento, Merkel passa um olhar pelo evento, algo para qual não sobae nenhum tempo quando o protocolo é mais enxuto, mas no Brasil é tudo mais tranquilo e menos dogmático, o que também pode ter suas vantagens, dependendo do contexto.

Estrategicamente, a chanceler alemã escolhe SEMPRE um blazer de alguma cor que não seja preto, para que, na foto em grupo, Merkel ressaltem “naturalmente”. Ao lado da chanceler, o ministro das relações exteriores, Frank-Walter Steinmeier com um sorriso, como diz o meu pai, “de fora a fora”. Para quem vive penando entre viagens para regiões de crise como a Ucrânia, o Ira, o Afeganistão e o Iraque, uma viagem para o Brasil é um passeio. Essa leveza frente a viagem, eu já pude constatar na tarde de terça-feira (18)  com a chegada do porta-voz de Merkel para a coletiva dada para a imprensa. “É muito bom ir para o Brasil”, brincava Stefan Seibert enquanto cumprimentava seus parceiros de entrevista.

Reações na mídia alemã

Jens Glüsing, correspondente do portal Spiegel Online e radicado no Rio de Janeiro, adota um tom polêmico em sua interpretação da visita da chanceler em Brasília: “O forte encontra o fraco” é o ´título da matéria.

A visita da chanceler alemã cai em boa hora para a presidenta politicamente descreditada”. Glüsing usa a metade do artigo para divulgar detalhes sobre o protesto de domingo, sobre argentinos que fizeram questão de marcar presença e sobre “tendências neo-radicais em famílias de classe média e intelectuais”.

Merkel não vai perceber nada do clima de protesto no mundo artificial da cidade de Brasília“, constata. Glüsing elogia a “capacidade estratégica” de FHC e LULA e rotula a presidenta Dilma como “fraca, que afunda no bazar político” e a atesta “falta de carisma”. Glüsing também menciona a “mudança editorial” das organizações Globo, em favor da permanência da presidente no poder.

Enquanto Merkel está no Brasil…

A Europa, e também a Alemanha, se veem confrontadas com a o recorde de número de refugiados que chegam, vivos ou mortos, ao continente.

O debate sobre o refugiados na Alemanha deixou de ser um tema partidário e passou a ser um tema que tange a sociedade como um todo. Adeclaracoes de Merkel sobre os ataques praticamente diários e o terror exercido contra os mais fracos, ainda continua devendo: em firmeza, em forma e principalmente em conteúdo. Na madrugada desta sexta-feira (21) o contêiner de refugiados no bairro leste de Marzahn, reduto de neo-nazistas, foi vítima de tentativa de incêndio, por 3 homens e uma mulher, que foram presos logo em seguida. Sempre que a vontade política fracassa, é a polícia e o aparelho judiciário que tem que descascar o abacaxi.

Nas redes sociais os memes vão de vento em popa quando se trata dos mais de 60 membros da União (composta pelo CSU, da Baviera e pelo CDU, partido de Merkel) que disseram NEIN ao pacote de ajuda financeira para a Grécia. A oposição, que pela irrelevância devido ao número mínimo de cadeiras, nem merece esse nome, interpreta essa atitude como uma afronta à chanceler.

O chefe da bancada do CDU, Volker Kauder, um tipo de pau pra toda a obra de Merkel e responsável por “colocar ordem na bancada” exigindo “disciplina partidária” em decisões tão importantes, agora é o motivo de zoeira nas redes sociais.

CMbYElHWcAAlNQn.jpg Salvem a Europa da ditadura da UE

Na foto abaixo, dois membros do parlamento se encontram em frente ao elevador. Uma das “desobedientes” no primeiro plenário, em julho passado, insinua…”A proposito da votação sobre a Grécia…” é interrompida com a frase: “Lembranças do Sr. Kauder. Ele disse que sabe onde seu carro está estacionado.”

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Merkel está com a metade de seu gabinete em Brasília em formato de redoma de vidro e vai deixar a capital com a mala cheia de contratos assinados na área de economia, mas sem ter visto o que realmente acontece fora das paredes e rampas do Palácio do Planalto. Para essa viagem, tanto concernente a situação a zona do euro quando a crise político-econômica do Brasil, essa é mesmo a forma mais pragmática. Fazer de uma situação difícil e constrangedora, uma Win-Win-Situation para os dois envolvidos Merkel é clase mundial, ainda mais se for por um “motivos nobres” como o “ousado” objetivo de conseguir o nível zero de desmatamento na Amazônia, algo que poderia ter sido almejado quando a ex-petista, Marina Silva que, durante 5 anos, ocupou a pasta do Meio Ambiente no governo Lula. Outros “motivos nobres” sao elogiados pela chanceler são o direito à privacidade na era digital e o compromisso de descarbonização da economia até o final do século, assumido pela presidente Dilma. A visita de Merkel caiu como uma luva. Além de mostrar várias vezes um sorriso espontâneo, algo de extrema raridade, a chanceler, sem tocar no tema da crise política, foi um “cabo eleitoral no período fora das eleições” mais do que bem-vindo e de quebra, os adeptos de Dilma, Lula e PT, que não dormem no ponto, ainda escolheram para fazer as passeatas de apoio ao governo exatamente durante a estada da mulher mais poderosa do mundo, em solos brasilienses.

 

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