Merkel segue para 4º mandato. Mas o que Snowden tem a ver com isso?

Fátima Lacerda

21 de novembro de 2016 | 21h29

A decisão da chanceler em se candidatoar pela quarta vez, era esperada, mas não foi nenhuma surpresa.

Depois do pronunciamento de Barack Obama pela chanceler não havia mais espaço para empurrar com a barriga um assunto de patamar tão importante e em momento tão decisivo. Mesmo porqu entre 5 e 7 de dezembro acontece a convenção do partido de Merkel, o CDU. Merkel irá pagar pra ver, também como chefe do partido acomplada a sua recandidatura.

O mundo esta fora do eixo” declarou o social-democrata Frank-Walter Steinmeier, recentemente nomeado como candidato da União a presidente. E é nesse mundo, com sua dinâmica insana e inúmeros fatores desestruturando crenças e convicções antigas, Merkel não poderia deixar o barco.Como ela mesma declarou: “Eu não poderia fugir da responsabilidade”.

A última dos Moicanos

Agora, Merkel não e “somente” a “Chanceler do Mundo”, mas, graças ao NYT, a “ultima líder democrática restante do Ocidente”. Somando com a declaração do presidente Barack Obama, seria um terremoto politico se Merkel, logo depois choque coletivo resultante com da vitória de Donald Trump, ela dissesse Nein.

Sob as costas de Angela Dorothea Merkel, que era tão CDF na escola que fazia parte do clube do bolinha que disputava olimpíadas de matemática da então União Soviética, haverá imensa responsabilidade e cobrança. 

Merkel avessa a surpresas, sua ausência de aprendizado em lidar com emoções e sua disciplina em “servir o país”, decidiu se recandidatar. “A decisão foi tudo menos trivial”, declarou a chanceler na noite de domingo no programa da jornalista Anne Willl, veiculado no conglomerado de emissoras abertas, ARD. Em entrevista, a chanceler explicou seus motivos, ao mesmo tempo que ainda “não tem planos” de como irá preencher sua candidatura “com conteúdo”. Perguntada quais foram os motivos que a levaram adiar por tanto tempo o anúncio de sua decisão, Merkel respondeu: 

É, realmente eu venho refletindo sobre isso (a candidatura) desde o verão. Desde então não passou um dia sequer, em que eu não tenha pensado nisso. O primeiro critério foi: “O que eu posso oferecer ao meu país, o segundo, ao meu partido e o terceiro questionamento foi o que isso significa pra mim, em âmbito pessoal”.

Se mostrando pé no chão, Merkel declarou que “os próximos meses serão muito estressantes e exigirão grandes desafios”.

Nem mesmo a chanceler consegue miais tapar o sol com a paneira e fazer vista grossa para o abismo que atravessa a sociedade alemã. Tanto da direita, quanto da esquerda e as elites desorientadas.

Supremacia merkeliana

A sensação geral na noite de domingo era de alívio. Mesmo porque: ruim com ela, pior sem ela. Mesmo que Merkel afirme que “ninguém é imprescindível”, ela sabe que, durante anos de criteriosa neutralização de concorrentes, o partido virou um monólogo e isso não apesar de Merkel, mas exatamente por causa dela.

Logo depois de sair de porta em porta à procura de uma candidata/candidato de seu gosto, no final das conta, frente à corrida do relógio, Merkel teve que aceitar o socialdemocrata Steinmeier com candidato dos 3 partidos que formam a coligação do atual governo.

A coletiva de imprensa com o pronunciamento oficial, o texto de Merkel e o timbre de sua voz, revelam: foi uma solução de emergência. Aquela que era infalível em estratégias, não conseguiu articular uma candidatura da União. Segundo o jornal conservador, FAZ, para o partido de Merkel, essa atitude foi “um atestado de incompetência”.

Enquanto Merkel fazia seu pronunciamento na central do Partido (CDU) no domingo (20), o clima era de euforia, mesmo que mais de uma hora antes, a informação já tivesse vazado para a imprensa.

O mundo está num momento de, até então desconhecida complexidade. Merkel fez o que tinha que ser feito e por ironia da dinâmica: na mesma noite em que Nicolas Sarkozy finalmente entendeu que não tem mais futuro no “sinteco político” como diz o jargão daqui, Merkel divulga que será a candidata da União (CDU, CSU, SPD) pela 4a vez. Por um lado ela vai chegar ao patamar de seu mentor, Helmut Kohl, que governou a Alemanha entre 1982 e 1998, por outro, ela perde a chance de sair de cabeça erguida e peito aberto depois de 11 anos de governo.

Com os desafios, mas especialmente na Alemanha, já batendo na porta, o quarto mandato será uma tarefa de Hércules ao mesmo tempo que da espaço para muito ceticismo, se a chanceler ainda tem pique e criatividade para mudar o rumo do jogo.

Para Merkel  o quarto mandato, nao terá a dinâmica de um segundo tempo de jogo numa final onde vale tudo. De uma perspectiva otimista, Merkel já está na disputa de pênalits ou, na pior das hipóteses, até mesmo na situação como, atualmente, o Vasco da Gama: apostando em uma única carta (jogo contra o Ceará) para voltar para a primeira divisão. Caso contrário, existe a ameaça iminete e concreta de perda de grande quantia de dinheiro, acompanhada da debanda do elenco e, por fim, o naufrágio do treinador. Nao importa o que Merkel declare: sua decisao foi imposta pelas circunstâncias e como ela não é de correr da raia, o que nunca fez parte do seu estilo, ela  vai encarar o desafio.

O eco na mídia

Como avisou grande parte dos editoriais de jornais alemães na manha de segunda-feira (21): Merkel precisa preencher o quarto mandato com conteúdo”, algo que com pouquíssimas exceções não é o estilo e nem produto da percepção política da chanceler.

As exceções são o relacionamento transatlântico, os mesmos que fizeram a chanceler jogar para debaixo do tapete com escândalo envolvendo a agência NSA e o papel do Serviço Secreto Alemão nesse abacaxi político, como também a imbatível crença na Economia Social de Mercado e no Estado de Direito, Merkel engoliu sapo, mesmo sabendo que com o conhecimento e aval do governo americano, seus telefonemas no celular foram meticulosamente protocolados como também emails de 80 milhões de habitantes do país sob o seu governo.

Estilo político

Entre 2005, quando assumiu o poder e a crise de imigração no verão europeu de 2015 não era possível rotular Merkel e seu estilo de governo a não ser pela obsessão em evitar conflitos e fazer vista grossa até a tempestade passar.

Depois de “Yes, we can” (Wir schaffen das), em 2015, tudo mudou. Merkel “escorregou” para a esquerda deixando vazio o, por ela, tão protegido e empossado centro. Isso resultou numa avalanche no espectro partidário da Alemanha, do qual várias faturas dos eleitores vem sendo exibidas em eleições de âmbito municipal e estadual.

A grande fatura porém, virá nas eleições de setembro de 2017. Da perspectiva de hoje, o partido que se auto batiza de “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla) formará uma das bancadas da câmara baixa do parlamento, o Bundestag. Isso, muda tudo. O manda-chuva, o Patron da Baviera nos anos ’70, Franz-Josef Strauss, que afirmava em tom imperativo e absoluto que “à direta do CSU, só tem a parede”, teria que constatar que a AfD lacrou focou nos “perdedores da modernização” e tomou posse dessa brecha resultante também da “escorregada política” de Merkel.

Agora, a chanceler precisa conceber o programa da União e para isso, terá, de novo, que aguentar o “Rei da Baviera”, o chefe do partido CSU, Horst Seehofer, aquele tipo de inimigo quemora ao lado, mas sem o qual também não vive. Já os socialdemocratas serao obrigados a mostrar servico e, finalmente, decidir quem será o candidato: se o chefe do partido, Sigmar Gabriel, o mais odiado e zoado dos políticos na Alemanha ou o atual presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz. Também o SPD sofre crônico déficit de recursos humanos.

Ironia

O fato de ter que  conviver com o bávaro, frente à complexidade em que o mundo se encontra, parece café pequeno.

Sarkozy se despediu, e como publicou um artigo do Liberatìon, apelou aos franceses “combaterem a extrema-direita”, a mesma extrema-direita com a qual ele paquerou nas preliminárias para tirar votos da Madame LePen.

O populismo de direita na Europa vem contaminando o continente de forma avassaladora. Merkel precisa de aliados dentro e fora do país e é nesse último que ela terá ainda mais dificuldades em almejar.

O tempo não para

Não decorreram nem 24 horas depois da declaração da chanceler em se recandidatar, foi julgado pelo Supremo Tribunal de Justiça o requerimento da fração dos Verdes e do partido esquerdista die Linke, que compõem a minoria na câmara baixa do parlamento requerendo permissão para convidar Edward Snowden para depor, em presença física em Berlim.

A CPI do caso “NSA”, composta por vários membros de todas as bancadas tem tido seu trabalho trancado, atrapalhado pela dominância da União, composta pelo CDU, os socialdemocratas, SPD e o católico-conservador da Baviera, o CSU. Até agora, para não causar um abacaxi político com os EUA, menina dos olhos da política merkeliana, a maior bancada havia vetado o pedido da fração minoritária. Hoje, 21, o Tribunal da cidade de Karlsruhe neutralizou essa discrepância e fortaleceu a democracia.

Caminho aberto para Snowden

Na quinta-feira (24) os dois partidos irão fazer o pedido oficial ao governo alemão para que o mesmo possibilite a ida de Snowden para Berlim.

Wolfgang Kaleck, o advogado alemão de Snowden, declarou à imprensa: “Snowden continua disposto a depor frente a CPI sob a condição que o governo alemão garanta entrada e saída segura no país assim como local seguro para sua estada em Berlim”.

Uma das mais esperadas perguntas feitas por Anne Will a Merkel, foi se a sua decisão em continuar seria resultante de ” elogios feitos” à sua pessoa, se referindo ao elogio de Barack Obama na ocasião de sua recente visita a Berlim ou se a vitória de Donald Trump teve influência em sua decisão. Sem conseguir conter o sorriso, Merkel desconversou: “Na política, a realidade é dessas coisas. Um dia as pessoas acham bom o que você faz. No outro dia já acham ter errado em ter te apoiado”. Com essa frase, Merkel aumentou ainda mais as especulações que sua decisão teria, sim, a ver com o resultado, igualmente trágico e inesperado das eleições nos EUA.

Quem sabe faz a hora

Merkel tem uma chance histórica em exibir emancipação dos EUA e transformar um momento trágico, como o da vitória de Trump, num ato heroico: de forma soberana, não “somente” fazer de tudo para uma viagem segura para Snowden, mas também oferecê-lo asilo político e uma vida segura no país que tanto sofreu com as falcatruas da NSA. Ainda mais com as recentes informações de que Mike Pompeo, republicano do über-conservador estado de Kansas, serviu o exército americano como Oficial de Cavalaria, tem diplomas da Harvard e da West Point além de um mega rival de HIllary Clinton, será nomeado novo chefe da CIA e já revelou que quer “aumentar o volume de dados” a serem colhidos concernentes à “aspectos financeiros e de estilo de vida”.

O portal “Vox”, em artigo de Jennifer Williams titula: “Mike Pompeo: a escolha de Trump de Pompeo para diretor da CIA pode levar a agência de volta aos seus dias mais sombrios”.

Com uma atitude igualmente corajosa e necessária, Merkel teria um desfecho digno de sua carreira política além de menção honrosa e segura nos livros de história das futuras gerações.

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